sexta-feira, 15 de agosto de 2008

geometria descritiva



Naqueles dias quentes de antigamente, quando topava com um pontinho lá longe unido por uma linha recta ao lugar em que calhava estarmos, o velho adormecia. Era tiro e queda.
Não me perguntem como, mas aguentava a furgoneta mais ou menos na estrada e acabava sempre por acordar em tempo oportuno. Enfim, quase sempre.
Eu topei-o logo, lá muito ao longe, ainda o Sr. Joaquim seguia em linha recta. E quando apontou a furgoneta numa subtil, quase invisível diagonal, nem dei muita importância. A famel azul estava a uns bons 2km mas fiquei nervoso quando comecei a ver os olhos do homem. Primeiro uns pontinhos, depois cada vez maiores e esbugalhados. Pelos meus cálculos, aquilo não dava mais do que uma tangente. Mas que raio, o homem se quisesse podia esconder-se atrás de um sobreiro e ainda tinha tido tempo para tapar a famel com silvas.

O Sr. Joaquim acordou assarapantado com o barulho e disse, com uma excitação que me pareceu completamente despropositada: “Pimba! Este já está”. Saímos os dois para ver quem é que já estava, mas fora só o barulho de uma tangente mais à queima; o homem estava são que nem um pêro. Muito exaltado, esbulhou logo ali uma indemnização por susto que dava para as despesas de um casamento cigano e que o Sr. Joaquim se apressou a pagar.

Mas, olha lá meu caralho, porque é que não acordaste o homem? Ora, porquê: porque o velhote não gostava que eu o acordasse e ralhava-me sempre.

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