sábado, 14 de fevereiro de 2009

questões fracturantes





Não, não se trata do magno assunto de saber se o estado vai bem ou mal em oportunidade quando se propõe regular as modalidades do matrimónio, debater a eutanásia, enfim, coisas de vida ou morte que ameaçam tornar-se candentes, agora que toda a gente afincou nos cornos que aquele negócio dos não sei quantos empregos era coisa meio apatetada e areia a mais para a carreta das governações e assim. Apenas questões tangíveis, para não dar pretexto a ninguém de me chamar certas e determinadas coisas. Como, por exemplo, decidir se a Guiomar deve adquirir um tampo de sanita às riscas coloridas (cerca de setenta euros) ou um tampo de sanita cor de laranja por preço que agora se me varreu. Arrastado pela princesa a uma loja enorme e exclusivamente dedicada a artigos de casa de banho (toalhas, velinhas de cheiro, escovas de sanita em forma de flores coloridas e um caralho sem fim de outras coisas cuja função não tive disposição para tirar a limpo), não fui homem para me decidir entre um e outro. Antecipando a trovoada que seria espancada na confissão da incerteza, arranjei modo de afirmar com gravidade que eram ambos “muito giros”. Topou-me o medo e desdenhou-me a cobardia com um “tens a mania que és intelectual” que é o modo mais frequente de me desprezar e aquele em que investe menos energia. Pelo sim, pelo não, “sempre são setenta euros” e arrancou direcção a casa porque “é preciso medir a ver se cabe”. Lá chegados disse-me para desaparafusar o tampo velho, coisa que fingi tentar fazer e não fiz sob o pretexto de que os parafusos estavam em mau estado, precisavam ser cortados e não tinha ferramentas. Não, não levei a caixa de ferramentas, puta que a pariu, disse eu muito baixinho enquanto ela roía maçãs, sentada na cozinha.

O que vos sei dizer é que tudo isto me começa a deixar nervoso. A frequência com que a Guiomar me enfia na casa de banho sob os mais variados pretextos estará relacionada com alguma nojenta taradiçe em que me quer como protagonista?

Abalei dali com o frio do costume – são bonitas as pernas da Guiomar – e fui a uma feira de queijos, vinhos e enchidos com a ideia fixa de me abastecer de chouriços de cebola. Não serão tão bons quanto aqueles que a Mirela trouxe dos tios numa das vezes em que foi ao Porto buscar mesada, mas nunca se sabe.
Haveria também muito a dizer acerca das propriedades balsâmicas da touriga nacional quando devidamente vinificada mas vou deixar o assunto para outra ocasião. Amanhã há promessas de sol, queridas pombinhas.
Tenciono montar a kawasaki para ir comprar cuecas, experiência completamente nova para mim e de que vos darei conta em tempo oportuno.

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