quinta-feira, 30 de julho de 2009

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Também já vos aconteceu, tenho a certeza. Primeiro atirei-lhe uma caixa de cohibas, depois experimentei um rolo daqueles folhetos dos supermercados, até com uma pinha a tentei matar - uma porra de uma pinha, vejam lá. Era uma daquelas cabras chatas que nos fazem perder a cabeça. Dengosas, uma coçadela num braço, depois noutro, no pescoço, depois ao de leve no cabelo, estão a ver, uma coisa de um gajo se passar dos carretos.

Aproveitei para lhe foder o canastro com o cinzeiro quando ela estava mesmo à minha frente a esfregar as mãozinhas de contente. Não a matei logo porque fui um bocado atabalhoado, com os nervos. Ficou ali a sacudir as patinhas de um dos lados, as asinhas a dar a dar, com o abdómen colado no tabuleiro de xadrez.

Fiquei a vê-la, sem pressas de acabar o serviço. Nisto aparece um fodilhão que lhe salta à espinha, a esvoacinhar com aquela fúria que vocês já devem ter reparado. Foi rápido. Deu um saltinho para o lado a não mais de três centímetros e cirandou em torno do abdómen, assim como quem diz: “ Mas o que é que se passa com esta gaja?”

Certo é que - fosse lá o que estivesse a pensar - não demorou muito a fazê-lo. Começou a comê-la. Lá deve ter pensado: “Podes já não estar em bom estado para te ir à carica mas ainda serves para o mata-bicho.” É ou não é o que parece? Vocês já devem ter reparado.

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Não me esqueci daquela coisa do tribunal. É mais complicada do que parece mas voltarei ao assunto mais tarde ou mais cedo. O que me apetecia agora era passar a limpo duas ou três coisas acerca de jardins. Franceses, italianos e ingleses, sobretudo estes. Os ingleses dão óptimos jardineiros. Os alemães filosofaram o assunto mas fazê-los, está bem, está. Parafusos, os gajos são bons é a fazer parafusos.

domingo, 12 de julho de 2009

está um dia bonito, acho que vou deixar as alegações finais para um dia útil

Ah, é verdade: comecei por dizer que tinha estado duas vezes em tribunal e é natural que estejam a pensar que a coisa só vai aquecer lá para a segunda parte, que eu só estou para aqui a engonhar para ganhar coragem.

São expectativas e as coisas já não vão mal de todo quando há expectativas. É por isso que me fode um bocadinho a honestidade que me compele a lembrar-vos que na minha vida não acontece nada e que não há nenhuma outra explicação para aqui vir.

Amo-vos muito.

sábado, 11 de julho de 2009

conclusão da instrução do processo e considerações finais

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Se bem me lembro, tínhamos ficado naquela parte em que o Sarapantão está a jurar que o Alberto ia a 200 “ou mais”.

Ora, enquanto o gajo da justiça devia estar a olhar para o Sarapantão e a pensar que aquele rapazinho devia ser um bocado fraco de cabeça, eu olhava para ele e pensava: “Querem ver que este sacana, enquanto eu estava aqui a passar pelas brasas, arranjou maneira de se desenfiar para o Baú que fica ali mesmo em frente e já matou o bicho?”

É verdade que estávamos fartos de estar ali mas aquela maneira de tentar apressar a conclusão do inquérito pareceu-me bastante estúpida. Por isso, contemporizei e disse assim:

- Não, tanto também não, isso nem o carro do Eusébio…

O gajo da justiça casquinou então uma risadinha e perguntou:

- 80?

O Sarapantão amarrou o burro com aquilo que lhe parecera uma deslealdade da minha parte e tive que responder sozinho:

- Não sei, só sei o que já disse: o gajo ia muito depressa.

- Talvez 60, então…

- Muito depressa mesmo!

Estas foram as minhas últimas palavras naquele dia. Não sei se assinámos alguma coisa, não sei se fomos convidados a ler, só sei que não ia ler merda nenhuma mesmo que pedissem. O que eu queria era sair dali o mais depressa possível.

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Tenho ideia que depois disto ainda fomos chamados mais uma ou duas vezes antes do julgamento mas não deve ter acontecido nada de especial além dos episódios das cadeiras desengonçadas onde arranjávamos sempre maneira de passar pelas brasas. Lembro-me que ainda voltámos à sala de Francês na ideia de anunciarmos um novo compromisso com a nação, mas a cabra já devia estar avisada e ainda eu não tinha entrado e já estava a levar com o apagador na cabeça. De maneira que desisti dessas formalidades.

Naquele tempo era assim, não havia cá merdas, havia progresso. Não é que não tivéssemos as nossas tentações, as nossas tonteiras, com certeza, mas havia sempre alguém disponível para nos enfiar com qualquer coisa pelos cornos abaixo e aquilo passava-nos logo. Não é como agora em que as coisas se arrastam, arrastam e arrastam sem solução à vista.

Tivemos um bocado de sorte porque as idas ao tribunal calhavam sempre às quartas-feiras, que era quando tínhamos Francês. E porque é que isso era uma sorte? Bom, se não sabem a resposta é porque são do sexo feminino. Eu explico.

A maioria de nós, rapazes, depois de muitas voltas à cabeça, tinha chegado à conclusão que o Francês era uma coisa terrível que os adultos tinham inventado para nos pôr à prova. Como no nosso país o turismo já era uma indústria muito importante, cheguei a colocar a hipótese de que o Estado tinha inventado aquilo para que os portugueses fossem simpáticos com os turistas. Mas não. Por essa altura a televisão já andava no ar, e pode-se dizer que começávamos a ter uma visão antropológica do mundo. Por isso já sabíamos que por todo o lado havia merdas assim, rituais concebidos para que os miúdos chegassem a ser gente. Sabíamos que em certas ilhas prendiam os putos pelos tornozelos com uma espécie de cordas e os empurravam de alturas incríveis; numa floresta qualquer do Brasil, se queriam ser alguém na vida, tinham de meter as mãos dentro de formigueiros e aguentar as ferroadas por não sei quanto tempo; nalgumas zonas de África tinham de correr descalços por cima do lombo de manadas de gado que eram só pele, ossos e cornos enormes, ou então tinham de matar um bicho qualquer com mau feitio, praticamente sem mais nada além das mãos, sem ferramentas decentes. Enfim, por todo o mundo, a pretexto disto ou daquilo, havia uma mãe de chinelo na mão a perguntar-nos quando é que nos decidíamos a ser alguém na vida. Em Portugal, o pretexto era geralmente o Francês.

Numa ocasião em que estávamos particularmente deprimidos, nas vésperas de um ponto, lembro-me até de ter animado a malta quando me lembrei de uma coisa em que ninguém tinha pensado. Disse eu assim:

- Bem vistas as coisas até temos um bocado de sorte com esta coisa do Francês. Nalguns sítios, e não são assim tão poucos, chegam a cortar um bocado da picha dos miúdos para fazerem deles uns homenzinhos!

Parecendo que não, esta ideia era muito reconfortante e ficámos todos muito mais animados. Repare-se que no caso das raparigas até ficavam engraçaditas quando ensaiavam dizer “inspiration explosive”, “voyage”, “cahier” ou então “ou vas-tu, mon chair?” Às vezes até começávamos a sentir uma coisa esquisita mas agradável que formigava na zona do baixo-ventre. Agora no caso dos rapazes aquilo não soava nada bem e quando algum deles se aplicava mais a dizê-las, pensávamos logo assim: “Sim senhor, temos rabeta!” Portanto, não havia dúvida. Aquilo era mesmo uma coisa concebida para pôr os rapazes à prova.

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Embora não prometa escusar-me a nova dilação, talvez amanhã o caso vá a julgamento.

A justiça não pára.

uma escusada dilação na instrução do processo em favor de um retrato em voo picado

Como achei certo a dada altura da interpelação do gajo da justiça, impõe-se um pequeno rabisco que dê conta do Sarapantão.

Ora quem era o Sarapantão?

O Sarapantão era um rapazinho que teria dez, doze anos, como eu, tinha uns olhos grandes, claros e pestanudos, bonitos até, e muitas sardas por cima de uma boca que estava sempre aberta.

Bom, essa coisa das sardas é apenas uma teoria que tem tantas hipóteses de ser verdadeira como falsa. Havia sempre aqueles episódios nos balneários no fim das aulas de ginástica e que obedeciam sempre à mesma rotina. O professor abria o chuveiro, atirava para lá com o Sarapantão, ele berrava que nem um vitelo, dizia que não, nem que o matassem, o professor dizia “ai não, que não tomas”, ele tentava fugir, o professor enfiava-lhe as biqueiradas do regulamento, ele berrava, lá tentava desviar-se dos bananos, lá ia amolecendo à força de enfardar, lá acabava por se molhar, enfim, uns salpicos que não resolviam nada porque ele tinha manhas que só visto. Todas as semanas era aquilo, o professor já nem se dava ao trabalho de apagar a pirisca que tinha sempre ao canto da boca.

A juntar a estas dificuldades, talvez valha a pena acrescentar que ele vinha todos os dias de bicicleta lá das faldas da serra, onde o Estado Novo o fora desencantar para o levar à escola na vila. Levar é como quem diz; quem pedalava era ele. Agora como devem imaginar um exercício daqueles queimava mais óleo que uma Casal a dois tempos, pelo que não há mesmo maneira de saber se o Sarapantão tinha sardas ou não tinha sardas e até podia ser isso que intrigava o gajo da justiça. Adiante.

Tirando essa coisa das sardas o Sarapantão era um miúdo perfeitamente normal. Podia ficar um bocadinho encorpado com o bom tempo, mas naquelas idades quem é que não fede? Odiava profundamente a escola, tudo o que queria era estar com as cabras, com as ervas e acima de tudo que o deixassem em paz, nada mais, nada menos do que aquilo que nós todos desejávamos. E afinal, mesmo já mais crescidos, quem é que não gosta de estar em paz com uma boa cabrinha? Adiante.

Havia ainda uma outra coisa que só era da iluminação dos mais finos. Para mim a lebre levantou quando o professor de ciências pediu que alguém trouxesse uma garrafinha de tinto para realizar uma experiência na aula seguinte e o Sarapantão se ofereceu para o fazer com um entusiasmo inaudito e que nos deixou a todos muito chocados. Desconfiei logo que a mágica daquilo tinha sido a palavra “tinto”.

Aviso já que não se passou nada de especial na aula seguinte, mas antes de dar conta desse nada talvez venha de feitio esgalhar as linhas gerais do cenário. A sala era um laboratório em anfiteatro, bem fodidinho para o copianço, diga-se de passagem. Em baixo, havia uma mesa grande com tampo de ardósia com toda a sorte de vidrinhos, retortas, pipetas, provetas, lamparinas, o costume. O vinho era para ser transmutado em aguardente e foi o que aconteceu. O Sarapantão, que ficava sempre o mais lá para trás possível, ocupava nesse dia a carteira da primeira fila, lá em baixo junto à bancada. E embora o professor não fosse nada mau e tivesse umas noções de teatro, não havia nada naquilo que pudesse explicar a felicidade que resplandecia no rosto do Sarapantão.

Eram 7,5 dl que ele levava todos os dias junto com a bucha num saco da TAP e isto ficou um bocadinho grande de mais para se poder explicar apenas com o entusiasmo do Sarapantão durante o inquérito. Uma dilação perfeitamente escusada, como já tive o cuidado de admitir.

É a justiça a trabalhar.

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Estou muito cansado. Mas, como amanhã é sábado, se me prometerem amar muito, muito, muito, creio que não será impossível arranjar tempo para a conclusão da instrução do processo e para as eventuais considerações finais.