terça-feira, 20 de dezembro de 2016

as últimas palavras

Dolores já não é nova mas parece um passarinho. Magra e ágil, segue aquelas dietas à base de serradura e maçãs com que os doutores das revistas juramentam eternidade.
Isto vem ao caso porque naquele fim de dia chegou a casa com uma sensação de fadiga que a deixava desfazida só de levantar pálpebra. Tudo em cima de uma monstruosa dor de cabeça. Taralhouca com tudo aquilo, sentou-se na cadeira de palha logo depois da porta de entrada. Confusa, pegou no telefone e ligou ao marido que está ligado às tintas para construção civil e estava para Lisboa: “-Alberto, cheguei agora a casa e estou a sentir-me muito mal. Dói-me o braço e apetecia-me dormir, mas dói-me a cabeça”.
Do outro lado houve um muito breve silêncio: “-Desce imediatamente para a rua. Vou ligar para o 112.”
E desligou.

Quando a Joana lhe contou isto lá no serviço ficou de boca à banda: “Foi exatamente isso o que o gajo disse? É incrível, nunca tinha pensado nisso, mas é exatamente isso que se deve dizer nessas circunstâncias; é impossível ser mais racional.” 
E não disse mais nada. Guardou para si o que estava a pensar: o Alberto não devia gostar da Dolores. Porque se ele tivesse uma mulher que se lembrasse de lhe telefonar em vez de chamar o 112, ele teria começado a gemer, a andar de um lado para o outro sem saber o que fazer. Dir-lhe-ia talvez que nunca ninguém a tinha amado ou amaria como ele a amava. Qualquer coisa assim.

Lá no serviço comenta-se que a Dolores teve um enorme derrame cerebral e está em coma induzido: “- Caso sobreviva, o mais provável é que fique completamente pateta.”
Se assim for, “vou ligar para o 112” terão sido as últimas palavras que em uso de entendimento ela ouviu do Alberto.

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