domingo, 4 de dezembro de 2016

p. 161 (notas de leitura)




São quase dez, as páginas que Saraiva dedica ao trampolineiro.
Não trazem qualquer novidade em relação ao que já é público. Mas são divertidas de ler. Em todo o tempo em que as lia, imaginei Saraiva nas expressões de Astérix, Obélix e Panoramix, surpreendidos com as trafulhices de Tulius Detritus n’”A Zaragata”.

Juntei o que li a tudo o que já tinha lido sobre o “menino de oiro”. E tudo bate certo:

“[E]m privado é uma pessoa muito diferente […] do que aparenta ser em público. A diferença entre uma pessoa e ‘outra’ chega a ser estranha.  Não tem grandes ideias e fala às vezes de temas a despropósito.”

É a virar páginas. Foi sempre assim, desde a adolescência na província. Porque é que há-de ler livros e ter ideias se pode surripiar diretamente da cabeça de quem o faz?
No dia em que “apresentou” o “seu” primeiro livro, numa reportagem de um noticiário qualquer, Pinto de Sousa manipulava um exemplar. Nesse mesmo dia arrisquei-me a elaborar por escrito a opinião de que a criatura nunca tinha lido um único - umas fotocópias, talvez; um livro, não. Porque a maneira como uma pessoa agarra uma ferramenta que não sabe usar é absolutamente inconfundível.  E o Pinto de Sousa, durante a tal reportagem, manipulava um exemplar do “seu” livro da maneira que alguém segura um martelo pela primeira vez na vida.

“….Sócrates era – como ficou dito – muito pouco brilhante a argumentar. Parecia uma pessoa banal, com uma conversa banal. Ora, nas intervenções televisivas, era acutilante e eficaz, às vezes quase brilhante, mesmo quando não tinha razão do seu lado. Perante as câmaras de televisão ou o público, Sócrates superava-se. Ou então, como alguém disse, tinha uma capacidade de memorização invulgar e preparava previamente essas intervenções, limitando-se no momento a debitar o discurso que tinha preparado. Não sei qual a verdade.”

Obviamente, a última hipótese. Sócrates suga os interlocutores e “fala” sobre o que circunstancialmente lhe convém (“fala às vezes de temas a despropósito.”, em privado…). E sim, deve ter realmente uma “capacidade de memorização invulgar”; a boa memória é a ferramenta essencial de todo o mentiroso. Publicamente, Sócrates fala apenas em conformidade com a agenda ensaiada, e quase todos os “entrevistadores” aceitaram o jogo do vamos brincar às entrevistas. Tanto quanto me recordo, o único que se atreveu a fazer perguntas não ensaiadas foi pública e grosseiramente desconsiderado sob a acusação de falta de isenção, culpado de o interpelar a partir de uma agenda política que lhe era adversa.
Estas formas de grosseria caceteira valeram-lhe dos jornaleiros a encomiástica designação de “animal feroz”; pretendiam designar a falta de maneiras com a história da “ferocidade”.

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