"Para alguns clientes, a devoção à compra dos livros (não necessariamente à leitura) é uma vocação que exige sacrifícios e renúncias que suportam abnegadamente. Havia um conhecido cliente de alfarrabistas- de alcunha Pobre-rico-que mimava os seus livros com duas casas mas que, para as sustentar, jantava na sopa dos pobres». Viu-se obrigado a arranjar a segunda casa porque, a certa altura, para conseguir entrar na primeira tinham de sair dez livros.
Outro estimado cliente tem como ocupação diária a arrumação da sua biblioteca. Tem uma biblioteca com perto de 40 mil volumes, mas só está autorizado pela mulher a guardar em casa 300 livros. Assim, todos os dias carrega sacos de livros entre a sua casa e a biblioteca para poder usufruir de tudo o que tem.
Há quem pague dívidas quase eternas com trabalho nas livrarias, trabalho esse que só aumenta as dívidas porque a exposição às lombadas aguça o apetite por mais livros, e quem, faça chuva ou faça sol, se sujeite às intempéries para observar o que há de novo nos seus alfarrabistas preferidos.
O mundo dos livreiros é povoado por centenas de anónimos que diária ou semanalmente visitam as livrarias, sem que nada neles faça prever a devoção livreira. Recolectores de antiqualhas específicas que nunca publicarão um artigo sobre aquilo a que, com tanta paciência, dedicam horas da sua vida, coleccionadores de livros sobre cidades que não tencionam visitar, senhores de bibliotecas de uma erudição que nada, na conversa ou no pensa- mento dos seus donos, faz prever, e bibliómanos de toda a espécie.
Claro que também há clientes esporádicos, leitores e académicos que, de facto, dão uso aos livros; mas a quantidade de gente para quem o acumular de livros parece ser mais importante do que a leitura é assombrosa."
Carlos Maria Bobone, A religião dos livros - Alfarrabistas, livrarias e livreiros, 2022, pp.77-78, ed. FFMS
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