quarta-feira, 22 de outubro de 2025

isto não é sobre a burca

Não obstante as efemérides, o tema ainda estrebucha. Convém por isso recordar que a lei aprovada no parlamento não é a “lei da proibição das burcas”. Já agora, também não creio que proíba as máscaras cirúrgicas incondicionalmente, preocupação que se atravessa ao espírito de um razoável número de imbecis. Tanto quanto julgo perceber, a lei proíbe a ocultação do rosto em espaços públicos. E tanto quanto é legítimo supor nalgum bom senso, é uma lei que tem propósitos securitários. 

São também muitos os imbecis que parecem afligidos por se pensar em tal lei quando são tantos os “problemas mais importantes”. Compreendo-os. Mas parece-me esquecerem que os problemas "mais importantes" e as soluções que geralmente propõem para a sua resolução têm a desgraça de serem quase sempre muito dispendiosas. Ao passo que a lei em causa, não apenas não nos incorre em despesas como pode até ser fonte de receitas à custa dos mais dados à patifaria. 

Imagine-se um ou dois esquadrões de policias a fecharem num beco um bando do "grupo 1143". Ou, ainda melhor, um bando de "antifas". Melhor porque são geralmente filhos de famílias relacionadas com o poder e, por consequência, muito mais prósperos que fascistas de fim-de-semana. Façam as contas: a 4000 € por cabeça (uso com dolo) rapidamente se juntaria dinheiro para resolver "problemas mais importantes”. Quanto a bandidos mais indiferenciados, sem filiação política, os proventos financeiros não serão tão generosos porque essa gente tem tendência sociológica para o chapa roubada chapa gasta. Mas é leviano desdenhar do efeito dissuasor das coimas. Não porque seja improvável a pena de termo de identidade e residência, mas porque tais despesas desanimam qualquer profissional, por melhor que seja no seu ofício.

Colocada a coisa de onde nunca deveria ter saído, não deixa de me surpreender que a lei seja apoucada pela alegada supressão de direitos religiosos e/ou liberdades individuais.

Não, estou a ser hipócrita, não me surpreende nada. Mas muito menos hipócrita do que os que invocam tais coisas para a diminuir. Senão vejamos: os teólogos do Islão garantem que não há nada no livro que, além de recato e modéstia - “ [de modo a que as mulheres] sejam conhecidas mas não abusadas”-, imponha ou prescreva burca ou niqab. Já no que diz respeito às liberdades individuais elas são sempre condicionais. E as condições não são arbitrárias: no caso, premunem um direito de todos a medidas que favoreçam a segurança.

Não é segredo que a diabolização e baptismo da “lei da proibição da burca” corresponde a uma das conhecidas manhas da esquerda: laborar a partir das distorções. Mas não nos iludamos. A direita mais estupida do mundo não é diferente no que a hipocrisia diz respeito.



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