sábado, 15 de outubro de 2016

the baboons





Apesar de uma ou outra reincidência, faço gosto em não repetir autores nesta coisa de partilhar música. Outro tanto gostaria que fizessem por mim, mas isso agora não interessa, dou mesmo assim notícia dos meus afetos – uns maiores que outros, recentes ou antigos.

Há dois dias que me repito em coisas de que por acaso até gosto muito. Porque ando a remoer um espanto pequenino, tipo “o que é que passou na cabeça desta gaja para tatuar uma coisa destas na coxa?”

It goes somewhat like this (“the baboons”):

Well I'm driving down the road in my Cadillac
Travelling lies me by a road turning black
Drinking gasoline is a whole lotta do
Drinking gasoline to get over you
We were doing swell with a short way to hell on the hill 
Well I met you in the desert at Sabriskey point
Out of gasoline, ran out of oil
Really fill my tank, you're quite Tomar
Drinking gasoline out of your silver cup
We were doing swell with a short way from hell on the hill
Well I drove ten thousand miles away from home
See no trap in jail, but ain't no desert spawn
Drinking silver cup is a whole lotta do
Drinking silver cup baby me and you
We were doing swell with a short way from hell on the hill 
Engine started smoking and wings on fire
Big wheels started shaking and I lost a tyre
My baby she exploded drinking gasoline
That doggone that doggone that mean machine
We were doing swell with a short way from hell on the hill
Well I'm driving down the road in my Cadillac 
Travelling lies me by a road turning black
Drinking gasoline is a whole lotta do
Drinking gasoline to get over you
We were doing swell with a short way to hell on the hill


De um ponto de vista estritamente literário podem vossas mercês aqui polvilhar rigorosamente os mesmos atributos que nos últimos dias se vêm usando a propósito do novel nobel da literatura. E isto não é ironia. Não é mesmo nada mauzinho de um ponto de vista literário, tem as suas metáforas e assim. Musicalmente é significativamente superior; tem “frases”, competência vocal e eteceteras que agora não vêm ao caso.

Com coisa de 12 - 13 anitos recordo-me de ter comprado (ou implorado à minha mãe para me comprar...) uma t-shirt magenta com as fuças do Bob Dylan impressas a veludo azul numa qualquer banca de ciganos de uma qualquer feira. Mas o sujeito - como a Joan Baez - não tinha nada de “popular” (nem sequer para mim; apenas o achava “cool”…). Nem podia ser de outra maneira porque quer um, quer outro, evocam cabras em cio quando pretendem fazer música. Mas andaremos mal, muito mal, se nos enxofrarmos com essa coisa de pôr musica e literatura na mesma panela.  Porque a literatura pode ser tão grande quando cantada ou oralizada como a que nos é servida em leitura. Foi precisamente assim que ela começou (como a música, aliás, antes da invenção do[s] sistema[s] notacionais); já havia Odisseia antes de Homero. Mas em música, como em tudo o resto, parece-me sinal de maturidade a capacidade de deslaçarmos o valor intrínseco dos sons das memórias e experiências a que os associamos de uma maneira quase subterrânea (um pouco como o que sucede com os odores). Para algumas gerações – para a minha também – Dylan soa na coincidência dos verdes anos, na perceção de uma felicidade que vivemos algures ou nessa coisa estranha de uma qualquer dor de que sentimos saudade. Agora… acordar na grandeza da literatura de Dylan – na maneira mais justa e aberta em que entendemos a “literatura” – por contraste com tantos, passíveis de ser geradores de maiores consensos, é tarefa que se me afigura de uma enorme dificuldade.

O Nobel da literatura já não significa rigorosamente nada senão um pretexto para falar de literatura. O mais provável é que nunca tenha significado mais nada senão isso… ponho-me a pensar e concluo que muitos dos autores que mais aprecio nunca foram distinguidos com tal honra; uns porque nasceram antes de a instituírem, outros nem sei bem porquê…

Eu sou muito preguiçoso para escrever. E para tudo o resto. Sou preguiçoso. O que eu gosto mesmo é de besoirar pelo meu jardim. Mas penso muito sobre estas coisas da atualidade. E apoquentam-me um pouco estes dias. Em que os sábios decidem assim.



Sem comentários: