domingo, 10 de fevereiro de 2019

quora

Por que Portugal, que entre os séculos XV e XVI tinha um dos impérios comerciais mais prósperos do mundo, tem agora uma das economias mais pobres da Europa ?


A pergunta é interessante. Mas em meu entender exagera em duas premissas: a de que Portugal foi rico e a de que Portugal é pobre.
Nunca chegou a ser tão rico quanto se pensa porque a primeira motivação das descobertas foi espiritual; quem leu com alguma atenção alguns livros acerca da história dos descobrimentos não pode ter deixado de reparar na importância, prioridade e meios alocados à demanda pelo Reino do Prestes João, por exemplo, e à evangelização dos povos. Somos cínicos quando pensamos que a persistência e prioridade destas causas nas fontes documentais é apenas retórica. Pensar que tudo se resumia à pimenta é uma leitura tão cínica que não consegue ser mais que uma caricatura. A pimenta, a canela, a noz-moscada, o cravo e tudo o resto importavam. Mas importavam apenas em segundo lugar.
E Portugal não é assim tão pobre quanto a pergunta deixa supor. Não será tão rico quanto outros países da Europa mas é mais rico que alguns deles (estão longe de ser apenas 4 como por aqui é dito). Mas repare-se que estamos a fazer comparações no contexto de uma das duas ou três zonas mais prósperas do mundo…
A meu ver, as razões da nossa pobreza relativa são fundamentalmente quatro:
1 - O terramoto de 1755, que explicitamente inspirou Voltaire na sua figura do Cândido, que acreditava que tudo “corria pelo melhor no melhor dos mundos” e teve um enorme impacto por toda a Europa numa altura em que tais coisas não eram tão fáceis como hoje. Não é difícil perceber a gravidade das consequências económicas dessa catástrofe;
2- As invasões francesas que sucederam ao sismo e tsunami em cerca de 50 anos. Aconteceram após vários “pagamentos” de somas gigantescas em várias tentativas de apaziguamento de franceses e ingleses, em cujos assuntos não podia o país estar mais desinteressado.
A incipiente indústria que foi vicejando sob as políticas de Pombal, foi sistematicamente destruída numa política de terra queimada. O assassínio, a tortura, o estupro, o saque e vandalismo foram de uma magnitude que hoje só dificilmente se pode imaginar. Poucos conhecerão a origem de expressões como “ir para o maneta”(“morrer”, sinónimo de “ser assassinado para diversão de um psicopata, um general francês que se dava o caso de ser maneta”).
3- A ocupação inglesa. A pretexto de nos livrarem da demência da selvajaria francesa, vieram os ingleses com os seus conselhos e às ordens dos quais os portugueses se foram matando para os expulsarem. Sendo ao longo de toda a sua história autores das maiores patifarias da história da humanidade em todos os continentes (se estava a pensar nos alemães, fique a saber que são meninos de coro se comparados com esta estirpe de predadores), encarregaram-se de impedir ajustes de contas com Louis Henri Loison (o tal “maneta”…) e demais sádicos, deixando-os fugir na maior das indulgências, inclusivamente deixando-os cavar com tudo o que tinham roubado. Que foi rigorosamente tudo que lhes aparecia pela frente.
Gostaram dos ares, da aparência vencida dos portugueses e por aqui ficaram naquelas suas maneiras de serem sanguessugas. E o “orçamento de estado” era arrecadado pelas suas despensas em coisa de nove partes em cada dez. Para o “ministério da guerra”, explicavam os pulhas. Nesse entretanto - que, certamente por vergonha, os historiadores não descrevem como protetorado-, esta canalha laborou todas as diligências capazes de impedir qualquer manufatura que pudesse aqui comprometer o comércio das suas.
4- O Estado Novo, que sucede em coisa de uma década à implantação da república que levou o país ao caos político e à mais completa insolvência financeira – agora através de uma corja indígena – arrimou Oliveira Salazar como remédio para ambas as coisas. Sério e sábio, conseguiu uma cura que nos ia matando à fome. Como tinha uma ideia muito precisa do que desejava para o país (e que passava por ser uma nova Esparta, com dieta à base de caroços de azeitona e a profissão de preparar os mais jovens para morrer ou ser estropiados na guerra em África), vivemos o paradoxo de ser o povo andrajoso e mais ou menos descalço que tinha as maiores reservas de ouro per capita.
Tudo isso ao mesmo tempo que comprometia a pátria na ruinosa manutenção de um império colonial por razões estritamente ideológicas. Ao contrário do que se pensa, não havia uma única razão material para o manter; estava arrumado na coluna dos prejuízos.
Em 1974, vieram os democratas que entre vivas à liberdade rebentaram com o mealheiro do botas (como era “carinhosamente” tratado o nosso Salazar). Venderam o ouro como se não houvesse amanhã e durante alguns anos foi um fartar vilanagem. Desde então, a canalha que senta o cú na nova Assembleia Nacional, já levou o país à bancarrota por umas três ou quatro vezes. E podiam fazê-lo outra vez, que a malta quer é forrobodó e voltaria a votar neles. A coisa ficou um pouco mais difícil porque entretanto “aderimos” (outra história cómica que agora não vem ao caso…) à União Europeia. E os gajos lá da União Europeia têm a mania de dizer coisas aos gajos da Assembleia Nacional, tipo, “-Vocês vejam lá, tenham cuidado, não podem gastar mais do que x” e coisas chatas deste género.
De maneira que é assim. Lá nos vamos safando.

fabrizio cassol