sábado, 24 de junho de 2017

je suis sebastião pereira

Eu é que sou o Sebastião. Posso fazer perguntas chatas porque falo estrangeiro. Os outros meninos podem citar-me mas não podem armar-se em parvos a escrever coisas parvas nos jornais dos senhores que fazem pasta de papel no país governado e oleado com papel.

história breve da república portuguesa de 5 de outubro de 1910 a 24 de junho de 2017





















(infelizmente não sei quem seja o autor deste documento da história portuguesa)

excerto do manuscrito encontrado no rei das enguias

“Oh senhor arquiteto, quer uma sopinha?"

oskar schuster


quarta-feira, 21 de junho de 2017

ordenamento do território - adenda

Este texto foi escrito de sábado para domingo, em simultâneo com as primeiras notícias acerca da “catástrofe natural”. Hoje disseram-me que na segunda-feira já houve o tal “prós e contras”. Não vi e ainda não sei se o programinha que eu pago na fatura da energia elétrica tinha vozes do “prós” e vozes do “contra”. Aposto que sim. E isso, como é bem de ver, configura um esforço que tenta amenizar os cinco euros mensais da assinatura que não fiz do serviço. A gratidão é algo a que tenho de me obrigar
 Os debates e artigos acerca da “tragédia” sucedem-se. As negociatas murmuram-se de permeio (400 milhões de euros para pagar o quê? Cheira-me a submarino. Num qualquer país civilizado quem sabe se não haverá acusados na qualidade de corruptores. Por aqui, quem foi às "compras" com dinheiro alheio sumir-se-á em fumos espessos. Tem sido assim, sempre assim).
Tenho a impressão de que a seleção jogou hoje. Um colega acompanhava os trabalhos com jogadores em full screen. Ainda não sei o resultado. O que é certo é que mais dia, menos dia vai chover.

Numa imensa tristeza, no receio mórbido de ver confirmadas à linha todas as minhas certezas, continuo a pensar que toda aquela gente morreu em vão. Com muitos beijinhos e “afetos”. Sem piedade ou dó sincero.

jordi savall | hespèrion XXl


terça-feira, 20 de junho de 2017

alex hepburn


ai,ai, ai…




















…que estes sacanas querem dar cabo de mim.

A primeira coisa que fiz foi cheirar. Desconfiado. Muito desconfiado.
Do cheiro a peúga velha levei com um pontapé no nariz que fiquei colado às costas da cadeira.
Entusiasmado, rasguei uma chapata e esfreguei-a no creme. E então não é que era mesmo um queijo da serra? Fui limpando a boca com golinhos de antão vaz e não é que aquilo se aguentou lá por alturas do céu? Tudo sem nuvens a lamber do pano, sem desabamentos, sem raspanços de colher que deixam crosta de quilo. Armado em esquisito, notei-lhe apenas um sal ligeiramente mal ligado (não é a mais nem a menos; menos bem ligado, apenas isso, não sei explicar de outra maneira).
Quais “philadelphia”, quais porras do género. Isto dá cabo de tudo o que há por aí, 125g por coisa de 2€, plantem teixos e carvalhos, deixem crescer o mato em volta e eu vou até aí como pastor, acabam-se os incêndios e vai dar a conta para todos.
Digo-vos canalhas porque me vão dar cabo da cintura, ou lá o que é que o mulherio vê quando eu passo porque sou todo giro e ficam todas a olhar para mim.
Dizem estes brincalhões que é preciso consumir num prazo de 7 dias depois de abrir a embalagem. Não fosse este cuidado e estaríamos para aqui todos mortos a consumir coisas fora de prazo…
Com um pouco de sorte, amanhã quando for comprar mais, já se acabou.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

julgava eu que misturar humor com funerais era coisa mais anglo-saxónica
















O que é uma pena. Porque não há nada melhor que o riso para cauterizar uma ferida.
Em 2 de agosto de 2015, esta senhora dizia - e bem - que a “incompetência do Governo não pode encontrar justificação na meteorologia“. Como se pode ver, agora é isto... (que me foi dado a ver aqui)
No que a este assunto das florestas diz respeito, em meu entender não há um único inocente de qualquer cor política desde há mais de trinta anos. Há ladrões em total impunidade, muitos negócios (muitos dos quais a passar pelo tal palácio à prova de sismo onde a moça assenta o rabo) e a mais criminosa das irresponsabilidades.  Mas não tenho memória de uma cumplicidade tão cómica com todas estas coisas.  Embora se compreenda. Fazer a revolução na rua e ser fofinha na assembleia, às tantas, com o calor uma pessoa baralha-se. Aos americanos calhou-lhes o Trump. A nós calhaste-nos tu. Os nossos twittes são muito melhores que os deles.
Obrigado, fofinha.

sirin ensemble


domingo, 18 de junho de 2017

ordenamento do território: como vai ser daqui para a frente




















foto: João Porfírio - Observador


Tem sido assim:
No litoral, uma enorme faixa de areia doirada que se estende por todo o território, de norte a sul. É fresquinha, atrai forasteiros e é habitada por empregados de mesa.
Aproximadamente a meio dessa faixa há uma grande mancha de palácios habitados por ananases. Estatisticamente são irrelevantes, mas a menção conta porque são quem mais ordena. E para obstar a que a pátria fique sem leme, um desses palácios até é à prova de sismo.
Dessa faixa até à fronteira com o reino de castela, há um gigantesco mar cinzento de eucaliptos. E estou-me em espanto que nenhum indígena tenha ainda espadachado a garantia de que “temos a maior mancha contínua de eucaliptal em todo o mundo”. Nesta zona do território é onde se deixam para morrer os velhos que já não podem com as sacholas. A esta ortotanásia é necessário juntar alguns braços em tempo de vida ativa. Sem vocação para ser empregados de mesa ou sem grande vontade para morrer de fome, lá vão plantando uns eucaliptos à beira do poço. Depois, “as celuloses” compram a lenha, moem aquilo tudo bem moídinho com muita água, despejam nos rios a água dos banhos e compram mais lenha.
Não tenho a certeza, mas se formos a ver bem, “as celuloses” são “geridas” por um ou outro ananas que por força de um azar qualquer, é levado a invernar de um qualquer palácio. Estará por lá um ou outro secretário de estado, ministro ou ananas qualquer preteritamente ligado ao “ordenamento”, à “agricultura”, ao “ qualquer coisa território”, à “administração interna”. Estes últimos são “internos” para se distinguirem dos da “administração externa” porque também deve haver ananases a administrar-se lá por fora pelo estrangeiro. Não haverá acaso no caso de “as celuloses” terem abichado uns milhões valentes de “subsídios” há não mais do que um ou dois meses atrás.

De ontem para hoje aconteceu “a tragédia”, a “catástrofe natural”. Enfim, os deuses, nos seus infinitos caprichos, zangaram-se connosco e o céu disparou fogo sobre as nossas cabeças.
O tiririca lá fez o seu número de princesa do povo, chorou mortos ainda por contar e já voou para paragens mais frescas. Ou onde sopre a necessidade de um qualquer esforço diplomático mais avantajado. Como o Senegal, por exemplo. Ainda não se sabe muito bem. Os outros ananases lá se arrancaram ao ameno das areias e foram-se ao fumo dos mesmos números; o Costa César até já disse que está muito chocado e que “infelizmente, esta é a maior tragédia” e assim.
A “proteção civil” é todo um modo de vida para os ananases.
A seleção de futebol vai fazer um minuto de silêncio.

(por esta altura, não muito atrás, já haveria quem me estivesse a batizar de populista e demagógico nesta minha “leitura” do território. Mas estou em suspeitar que já só os ananases cospem este género de insultos. Estamos quase todos a ficar muito populistas e demagógicos)

Daqui para a frente:
Haverá um “prós e contras” sobre ” o território” que nos dará a conhecer o que pensam não apenas os especialistas que são “pró” mas também os que são “contra” . Haverá imensos debates e artigos de opinião sobre a floresta e esta coisa das “tragédias”. Porque isto é uma democracia viva e participada. Não é nenhuma república de ananases.
Depois - com as primeiras chuvas, ou talvez antes - haverá momentos de solidariedade com a seleção.

Não é necessário possuir uma bola de cristal para saber que se vai passar tudo exatamente assim daqui para a frente. Com mais ou menos cadáveres, o nosso daqui para a frente vai sendo assim há uns bons trinta anos. Mais coisa, menos coisa.

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* 21/06/2017 Este texto foi escrito de sábado para domingo, em simultâneo com as primeiras notícias acerca da “catástrofe natural”. Hoje disseram-me que na segunda-feira já houve o tal “prós e contras”. Não vi e ainda não sei se o programinha que eu pago na fatura da energia elétrica tinha vozes do “prós” e vozes do “contra”. Aposto que sim. E isso, como é bem de ver, configura um esforço que tenta amenizar os cinco euros mensais da assinatura que não fiz do serviço. A gratidão é algo a que tenho de me obrigar
 Os debates e artigos acerca da “tragédia” sucedem-se. As negociatas murmuram-se de permeio (400 milhões de euros para pagar o quê? Cheira-me a submarino. Num qualquer país civilizado quem sabe se não haverá acusados na qualidade de corruptores. Por aqui, quem foi às "compras" com dinheiro alheio sumir-se-á em fumos espessos. Tem sido assim, sempre assim).
Tenho a impressão de que a seleção jogou hoje. Um colega acompanhava os trabalhos com jogadores em full screen. Ainda não sei o resultado. O que é certo é que mais dia, menos dia vai chover.

Numa imensa tristeza, no receio mórbido de ver confirmadas à linha todas as minhas certezas, continuo a pensar que toda aquela gente morreu em vão. Com muitos beijinhos e “afetos”. Sem piedade ou dó sincero.


do ananás que podia muito bem ser beirão


aqui disse tudo o que acerca destes ananases tinha a dizer. São rigorosamente iguais aos do continente. O que ainda nenhum beirão se lembrou de inventar foi um presidente das Beiras cuja esposa presida a uma “Coordenação dos Palácios da Presidência”. Ficamos sem saber o número exato que está implicado neste plural do império açoriano. Nem tão-pouco o género de assuntos a coordenar pela “Coordenação”. A utilização das camas por parte do Sr. Presidente nos diversos palácios? Não se sabe.
Mas para que não sobrem dúvidas acerca de quem manda aqui pela República dos Ananases, parece que a senhora ainda arranjou vagar para “coordenar a ‘estrutura de missão’ para a criação da Casa da Autonomia”.
Eu cá acho que devíamos ser todos autónomos.
Quero a minha autonomiazinha.
E uma coordenadora para as minhas coisinhas.
E uma bandeirinha. Não gosto desta, a pior desgraça saída da cabeça do Columbano, acicatado pela canalha do partido republicano, liberdade, igualdade, fraternidade e assim.
E não vejo razão nenhuma para que os beirões não tenham a sua.

voces8


sexta-feira, 16 de junho de 2017

lobos e gnomos

Calhou-me agora, agora mesmo de lhe ler isto.
E o senhor a dar-lhe.
Pois eu, que como vossa senhoria pretende, "gosto de comer merda", estou em dizer-lhe que estes seus "entretenimentos" são do melhor que se vem escrevendo na minha pátria. Digo-lhe eu, que para o dizer tenho toda a autoridade do mundo que também é seu. Digo-lhe eu que li Camões, Vieira, Cardoso Pires, Correio da Manhã e um ror de merdas que aqui não cabem. Eu que li mundos com pausas de olhar o teto insisto em dizer-lhe que vossa mercê é um conas enfatuado em manhas de se impedir em consentir que este seu "entretenimento" é cânon deste ocidente ao pé do qual os seus elefantes são gnomos de gesso. E estou em dizer-lhe que se insiste em pretender que é sincero quando assim esparva, então, sabe tanto de jerónimos quanto de anões.
Como não é bem o caso, não seja chato. E sobretudo, tenha maneiras, respeite este vermelho e negro, tenha respeito pelo Lobo Antunes que tem um estômago que não é infâmia e é em tudo igual ao do Shakespeare.

(tem mesmo a certeza de que Shakespeare não escarneceria de si se o apanhasse em merdas destas?)

Não gosta, não come. Quando se joga não se apita. Remeta-se ao silêncio do que não pode falar.

antónio zambujo


quinta-feira, 15 de junho de 2017

da delação



Sabia que era dele que rumorejava aquela boca. Sabia, não, não podia saber. Suspeitava. Ouvia o filme e supunha que o representavam, uma suspeita alimentada pelo mau-hálito dos pequenos sopapos de censura que a boca trejeitava. Mais das vezes apenas se divertia a ver a representação no filme em que o figuravam. Havia porém, coincidências que o aturdiam. Denotavam trabalho que lhe parecia maníaco no hiper-realismo do retrato que lhe faziam no seu quotidiano mais banal. Depois, em cima disso, os delatores mostravam-no a representar os filmes das suas mais sórdidas fantasias.
Era nessas alturas que se afundava num enorme mau estar que era todo físico, com os sintomas da mais extrema náusea e fadiga. Não por força dos delatores, mas por força de quem se consentia a baixeza de os ouvir. Sem os desencorajar.

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Ironicamente, a Suite de Lady MacBeth, que levou Shostakovich à desgraça, é hoje mais ou menos obscura e a Valsa é talvez o seu trabalho mais ouvido. Com mais ou menos ironia, todos os inquiridores acabam como Zakrevski. Inúteis para todos os efeitos.  Como todos os delatores.