sexta-feira, 5 de outubro de 2018

5 de outubro

"-Sr. Presidente da República, quer V. Exa. comentar as acusações que impendem sobre Cristiano Ronaldo?

- Claro que sim. Eu não sei se o Cristiano foi ao cu da senhora, nem tão pouco se o fez com certa ferocidade. Mas eu não mudo de ideias quanto ao papel desportivo e nacional."

louis armstrong | duke ellington


quarta-feira, 3 de outubro de 2018

um choque para a canalha do "socialismo moderno"

A canalha censora que andamos serenamente a consentir que medre entre nós, aquela canalha analfabeta para quem o Padre António Vieira "é" um cúmplice do esclavagismo, que convoca os jornalistas para informar o povo de quem proíbe que seja convidado, participe num debate ou de quem, de uma maneira mais geral, não gosta e que de qualquer forma se consinta um desabafo, devia atentar na velha história de autor incerto que aqui é invocada por Ricardo Araújo Pereira.

"Ah! Oh! Mas que surpresa tão grande! Então não é que a Fundação de Serralves resolveu expor certas fotografias consideradas chocantes numa sala reservada a maiores de 18 anos, quando a tradição, nos museus, é colocar apenas um aviso e deixar ao critério das pessoas a decisão de visitar ou não visitar a exposição? Não me digam que anda por aí uma vaga de moralismo puritano que deseja proteger os cidadãos inocentes de imagens que chocam, canções que indispõem e palavras que fazem dói-dói. Não posso acreditar. Fazia-nos falta, aos surpreendidos, um pastor Martin Niemöller moderno, que descrevesse com eloquência a nossa surpresa, escrevendo: “Primeiro vieram pelo Mark Twain e pela Harper Lee, mas eu não falei – porque também achava que aquela palavra era um bocadinho desagradável. Depois vieram pelo Balthus, mas eu não falei – porque realmente havia uma sexualização extremamente nociva. Depois vieram pelo ‘Hilas e as Ninfas’, mas eu não falei – porque a curadora, coitada, até tinha boas intenções. Quando vieram pelas pilas do Mapplethorpe, finalmente tive tomates – mas já era tarde.”

Talvez seja melhor explicar, esperando que ninguém fique chocado com o relato dos factos extremamente chocantes: a exposição de Robert Mapplethorpe em Serralves inclui fotografias de, digamos, pilas. E de pessoas que têm coisas enfiadas no, por assim dizer, rabo. Numa primeira fase, a Fundação proibiu que certas fotos fossem vistas por menores de 18. Depois, permitiu a entrada de menores, desde que acompanhados pelos pais ou tutores. A favor da Fundação, devo dizer que suspeito de que um jovem de 13 anos, por exemplo, fique chocado com aquelas fotos. E exprima esse choque dizendo: “Isto é parecido com uma coisa que vi há dias no YouPorn, mas esteticamente mais sofisticado e interessante.”

É o choque natural de quem contacta com experiências artísticas.

O mais surpreendente neste caso talvez seja o seguinte: um museu português recebe uma exposição de um artista homossexual com imagens sexualmente explícitas, o que excita pruridozinhos puritanos – e, no entanto, a igreja não disse uma palavra. Eu ainda sou do tempo em que quem fazia esta figura eram bispos. Enfim, vivemos numa sociedade livre e aberta e certos sacerdotes já se conformaram com a derrota. Mas outros ainda estrebucham."

Ricardo Araujo Pereira, revista VISÃO 1334, 27 de setembro de 2018

# ele sim, se os brasileiros assim entenderem

São muitos os meus compatriotas que andam de mãos na cabeça, aparentemente perdidos de medo com o Brasil e com a “tragédia” (“improvável”, dizem alguns... ) que seria a eventual eleição de Bolsonaro.
Eu percebo-os. São compatriotas que se compadecem dos coitados dos brasileiros por uma série de poderosas razões.
À primeira vista poderia dizer-se que os brasileiros vivem num país que tem uma constituição, uma justiça provadamente independente do poder político e todo um conjunto de instituições robustas e funcionais. Mas essa aparência de civilização não é nada que engane o olho de águia destes meus compatriotas. Isto é malta que leu muitos álbuns do Tim-tim rodados lá na América do Sul e sabe perfeitamente como as coisas se passam: tudo aquilo é frágil, sul-americano e imaturo. Muito Pinochet e coisas bárbaras.
Senão vejamos. O Brasil é um país que se tem vindo a revelar incapaz de condenar pessoas provadamente corruptas para além da mais surreal das dúvidas. Onde alguém que se ofereça a proeza de empalar as pessoas sem anestesia, teria dos empalados a garantia de ganirem serosamente os direitos, liberdades e garantias do empalador. E quando digo ganir, estou mesmo a falar em ganir furiosa e demoradamente por tudo quanto é tribuna de opinião, rádios, televisões e jornais. Tudo coisas que só por graçola de tremendo mau gosto podemos achar compatíveis com uma democracia adulta e participada.
No Brasil, durante um certo tempo, até se proibiu um jornal de falar de um desses empaladores. E, ao contrário do que sucederia num país a sério, com uma das tais democracias maduras, toda a gente achou muito bem. Que aquilo era “um esgoto a céu aberto”, foi a justificação que os comentadores acharam séria. De modo que os brasileiros fizeram todos um ar enojado e seguiram com as suas vidinhas. Como nunca se viu numa democracia a sério e que ama mesmo a valer essa coisa da democracia.
 Já não me lembro se o juiz que deliberou a coisa teve alguma chatice com acusações de corrupção ou não, mas isso agora não interessa. E na altura também não interessava. A ninguém interessou nesse país chamado Brasil onde a democracia não é para levar a sério e onde as instituições não funcionam.

Brasileiros, irresponsáveis, seus gandins imaturos, ouçam aqui os vossos avós sábios, meus compatriotas, capazes de eleger homens sérios, com lições de democracia para dar ao mundo e respetivos satélites: não votem nesse em quem estavam a pensar. Não votem em nenhum tiririca, em nenhum desses que vocês tanto gostam, não votem num presidente capaz de um populismo que faz o peronismo parecer uma coisa séria. Votem em alguém competente e sério, que não vos embarace a vocês e à república. Enfim, votem como só nós sabemos fazer por aqui.

Nós, os portugueses precisamos de defender os brasileiros de si mesmos e de os ensinar a votar bem.

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(Menos entendido que os meus compatriotas nessas coisas da democracia, também não quero que se pense que "apoio" algum escroque. O que acima de qualquer  "escroque" eu temo são os que sentem que os brasileiros lhes devem obediência acerca não tanto de em quem devem votar, mas acerca de em quem não podem votar. Ou seja, temo os que exigem obediência sem oferecer soluções que não sejam as do costume. Em meu juízo, o escroque padece de grave incontinência verbal mas aquilo que sumariamente alguém reduz a "apelos ao fuzilamento de 30 000 pessoas, à tortura, à destruição dos restos da floresta", a acreditar nas sondagens - e desta vez eu acredito nelas, ao contrário do que sucedeu com Trump... -, parece merecer o favor da maioria dos brasileiros. Ironicamente, até parece sair robustecido na exata proporção do vigor de quem contra si berra nas ruas. O que eu temo são as minorias que na rua exigem que seja feita a sua vontade. Vejo que à primeira oportunidade me enfiariam num forno ou num qualquer gulag se um dia viessem a ter oportunidade de desconfiar em mim um qualquer adn eleito como inimigo de estado. Vejo-lhes isso nos olhos e em cada gesto. Ou alguém não acredita mesmo que são os cães silenciosos e não os que ladram como Bolsonaro que devemos temer? 
O Brasil tem uma constituição e instituições que têm vindo a provar-se suficientemente robustas e funcionais.
Não precisa dos medos que aqui lhe inventamos. Já tem os seus.

syrano