terça-feira, 14 de agosto de 2018

mulheres da nazaré

"As mulheres só levantam a cabeça depois de eles morrerem. Aqui há anos, num naufrágio, perderam-se no mar alguns pescadores da Nazaré. Fez-se uma subscrição que deu para as viúvas viverem algum tempo. E as outras com inveja lá diziam:
-Foi pena o meu não ter morrido também...
...

Baixas quase todas, de ancas largas e peitos sólidos. Grosseiras e fortes. Língua de um poder expressivo inigualável, colorida e pitoresca, quando se zangam, quando vão buscar os homens à taberna, quando falam ao mesmo tempo e gesticulam, ou a chorar quando contam a sua vida de bestas de carga. Duas descompõem-se, uma em frente da outra, com as mãos na cinta:  Olha cá, Mar' da Luz! - Que queres tu, Mar' Santana? - O que quero eu? Quero saber em que contos me foste meter coa Lianor na borda d'água. - Eu! só se estás pardinal (bêbada). - Estou sim, vem cá tomar o bafo. Pensas que sou comati que vinhas noutro dia areada pelo caminho de fora (estrada). -Como sabes que o teu home só vai ao mar quando ele está de rojo (calmo), por isso é que falas dessa maneira. -Então o meu home não é tanto com'ò teu?... "

Raúl Brandão, Os Pescadores [1923], Mel ed., 2009, pp. 158-165

anouar brahem


excerto do manuscrito encontrado no rei das enguias

"Aterrar no escuro ou em luz?
No escuro, sempre. 
Não me faz falta a luz.
O escuro quase me excita num lugar.
O que dos lugares imagino em escuro
está sempre a anos luz do que são realmente."

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

é fazer as contas




















Ouvi agora o nº 2 do 44 - que era* da sua inteira confiança como, aliás, a maior parte do “gabinete” do  atual governo - a dizer com ar grave e sofrido de esforço:

”....A eliminação de qualquer tipo de penalização para quem tenha 48 anos de trabalho e um mínimo de 60 anos de idade, foi o primeiro passo que demos [tradução: que trabalhe ininterruptamente desde os 12 anos de idade e tenha feito os devidos descontos para a segurança social]. Demos um segundo passo, agora, que foi a possibilidade, portanto, da reforma aos 60 anos para quem tenha 46 anos de serviço e tenha começado a descontar aos 15 anos de idade. E é uma matéria acerca da qual estamos a trabalhar para procurar fazer justiça, agora, para quem não teve a oportunidade de ter a infância que podia ter tido. Mas é uma matéria que estamos a negociar.”**

Ora bem, srs. jornalistas do Expresso (do Expresso, meu deus...), estas coisas eram assim: os pais, geralmente o pai, metia empenho junto de uma oficina, loja, campo agrícola - enfim, num qualquer sector económico mais necessitado de mão-de-obra infantil, sobretudo ao longo da década de sessenta. No meu caso, entre outras miudezas,  calhou-me uma oficina de automóveis, uma recauchutagem, uma carpintaria e uma fábrica de móveis. Ao fim da semana - que acabava geralmente à hora de almoço do sábado -, recebíamos um envelope com algumas moedas ou algumas moedas e uma nota que entregávamos ao pai sem o chegar a abrir.  Não havia descontos para ninguém nem para nada. O único papel era o do envelope e o da eventual nota. E se os senhores jornalistas fossem algo mais do que cachopos imbecis saberiam que isto foi exatamente assim. E saberiam ainda que o assunto acerca do qual o nº 2 do 44 se permitiu recrear na sebosa entrevista que vos deu para que se deixassem dessa perigosa coisa de pensar em cinzas, foi pouco menos que acerca de nada porque a ninguém diz respeito e são nenhuns os seus custos.
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  ”Era”. Porque entretanto, o nº 44 já se deu ao cuidado de esclarecer que não confiava nesta canalha.

**    O português é mais ou menos pátrio, mas é, ipsis verbis, o do gajo que deu um pontapé nas bolas do seu predecessor porque tinha ganhado as eleições por "poucachinho"  e que viria depois a perder as eleições por poucochinho.