sábado, 17 de agosto de 2019

"A notícia de que, em meados de Dezembro, Salazar tinha discutido com Jorge Jardim o estado das relações com o Malawi gerou uma pequena onda de pânico em círculos governamentais. Cumprindo ordens de Tomás, quando Salazar saiu do seu coma não foi informado de que tinha sido substituído por Caetano. Em Maio de 1969, Tomás pediu ao médico amigo de Salazar, Bissaia Barreto, para informar Salazar da mudança; Bissaia pediu a D. Maria para o fazer; D. Maria, em pranto, confessou a Eduardo Coelho que não era capaz de fazer semelhante coisa. Ele concordou e o faz-de-conta prosseguiu."

Filipe Ribeiro Meneses, Salazar - Uma biografia política, Ed. D. Quixote, 2010, p. 634

the lively ones


quarta-feira, 14 de agosto de 2019

"Apesar desse divórcio por incompatibilidade de feitios e de interesses, a província gosta de visitar Lisboa e Lisboa gosta de visitar a província. Embora regressem cada qual a sua casa aborrecidas e renitentes, encontram-se momentaneamente na beleza duma e na pureza da outra. Ao cabo e ao resto sentem ambas que fazem parte do mesmo todo, como membros solidários dum só corpo.  A Pátria é tanto o lodo de Alfama, o poleiro de S. Bento e a miséria mental do Chiado, como a lisura de Trás-os-Montes e a ênfase do Alentejo."

Miguel Torga, Portugal, ed. Leya, 2015, pág. 80

michal lorenc


sexta-feira, 9 de agosto de 2019

governo, oposição e camaradas unidos

A propósito da greve que agora se repete, a 19 de abril de 2019  escrevi:

“Se pararmos dois, três dias, pomos Portugal no caos. Temos perfeita noção disso”, afirmaram os dirigentes do novo Sindicato Nacional de Motoristas de Matérias Perigosas. E como desde o primeiro dia suspeitei, se parassem durante cinco, seis dias, derrubavam o governo. Porque seria inevitável que até os perspicazes jornalistas da Lusa começassem a perguntar-se se não havia serviços de informação, se não havia gabinetes capazes de antecipar planos para situações de crise, se a governança acontecia assim mesmo, indolente, ao sabor da espuma dos dias, sem estratégias que se vissem, sem planos, reativa, desinformada, improvisando, diletante, enfim, assustadora e perigosamente incompetente.
...

Provando que nunca tinha chegado a ser ator político - ao contrário do camarada doutor que nunca foi outra coisa -, o sindicato aceitou pôr termo à greve, subscrevendo a proposta de negociar um acordo ao longo de oito meses.
Na sua boa-fé não percebeu que nunca mais poderá voltar a dizer: “Se pararmos dois, três dias, pomos Portugal no caos.” 
Quando o tiver percebido já o governo teve tempo para fazer o que devia ter feito.

A "oposição" é que já não vai a tempo de fazer o que não fez.
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Pois bem. Entretanto o  governo teve efetivamente todo o tempo do mundo para fazer o que devia ter feito. Sempre a surpreender-me na sua prodigiosa desnecessidade, o governo não apenas fez coisa nenhuma como, na conferência de imprensa cometida por três dos membros da quadrilha, começa por dizer e sublinhar que até nem tem nada a ver com o assunto “porque se trata de uma negociação entre privados”.
Mas enfim, magnânimos, condescenderam em informar os senhores jornalistas de que tinham feito uns planos que asseguravam o abastecimento de ambulâncias, carros de bombeiros e funerários.
Ao que ouvi em noticiário, o povo acha que o governo “está a trabalhar bem”. A oposição também.
Os camaradas do camarada doutor, na sua habitual e supimpa lata, informaram a nação de que a greve dos motoristas “…é impulsionada por exercícios de protagonismo e por obscuros objectivos políticos e procura atingir mais a população que o patronato .”





"Sendo certo que cada povo tem a cultura que pode - a que o temperamento, a religião, o meio e as condições socioeconómicas lhe permitem -, era de esperar que o português não fugisse à regra. E ei-lo em Coimbra a dar expressão pessoal e própria às coisas do espírito, culminando essa expressão, como é natural, na sua Universidade.
Mesmo materialmente se lê nela como num livro aberto. Um conglomerado de estilos sem cunho próprio, o mau gosto ao lado do melhor equilíbrio, a fachada brilhante a encobrir saguões. E sedutora, no fim! Ao cabo e ao resto um casarão para ensinar campónios, que se não espantam ao encará-lo, quase revendo nele adereços do cenário da origem: uma grade de Marvão, uma varanda minhota, um alpendre beirão, e janelas manuelinas de Freixo de Espada à Cinta.
Isto, só nas paredes. Porque na alma, no cerne, o caso é talvez mais flagrante ainda. Na índole do que ensina, existe, persistente, a marca das coisas cabeçudas e provincianas. O tratado reduz-se a sebenta, a tradição a praxe, o saber a erudição. Não há um invento, um ideia, uma teoria que tenha nascido ali. Mas nem os inventos, nem as ideias, nem as teorias são necessárias a uma Universidade que se basta no simples facto de o parecer aos olhos da ignorância colectiva. Por isso se defende com unhas e dentes de toda a originalidade, de todo o pensamento subversivo, recusando-se obstinadamente a pôr de lado a borla e o capelo da mistificação e a abrir nos seus muros medievais um postigo sequer que deixe entrar qualquer luz actual. Seria o pânico, a catástrofe, a desautorização. E sempre que algum reformador exaltado faz obras e remove estatutos, o instinto de conservação repõe sornamente o musgo secular nas cátedras da sapiência."

Miguel Torga, Portugal, ed. Leya, 2015, pág. 63

max richter | dinah washington