quinta-feira, 14 de junho de 2018

a naifa


excerto do manuscrito encontrado no rei das enguias

“Perdoe-me dizê-lo assim por escrito neste papelito manhoso que recortei do envelope da fatura da água. Mas sou patologicamente tímido e seria incapaz de o dizer ao vivo. Não que não tenha reparado na aliança que trás no dedo da sua bela mão e que muito respeito. E é todo em cima do respeito que ela me impõe e sujeita que a quero lembrar da expressiva beleza dos seus olhos, das refulgências e volteios do seu cabelo e da alvura do seu sorriso. Podia continuar até às pontas do que de si não vejo por sob a bata branca e por trás do balcão. Digo-o de cima deste meu platónico interesse porque dou de achar que faz bem à alma que em respeito um estranho nos faça presente da paisagem que somos aos olhos dos outros. E da próxima vez que aqui vier comprar uma caixa grande de rennies, por favor, proceda sempre com naturalidade, pergunte-me pelo nome, o nif e essas coisas, demore-me o mais possível com o carro lá fora a trabalhar. Repita-me todas as recomendações acerca das rennies como se fosse sempre a primeira vez. Eu dir-lhe-ei que essa coisa dos ácidos só piorou desde que deixei de fumar, dir-me-á que isso é um grande fator de ansiedade, eu que não, que nunca me senti tão sereno, dir-me-á que isso é por fora, porque lá por dentro -por dentro de mim- só deus sabe e assim.
Seja como for, sorria-me com naturalidade se disso for o caso. Nas minhas viagens passo por muitas farmácias. Mas escolherei sempre a sua para comprar as caixas grandes de rennies. Por via dos seus olhos e do afago do seu sorriso. Quem sabe um dia não sejamos os dois sós e não haja mal em nos abraçarmos.”