quinta-feira, 24 de novembro de 2016

hermeto pascoal




Comi um kiwi pela primeira vez há coisa de dois anos. Recusava-me a comer mais uma porcaria verde que para mais era assustadoramente peluda e sarapintada de pulgas por dentro. Ao ouvir-me nessa confissão, o miúdo ficou espantado por eu nunca ter comido kiwis. E trouxe-me um. Enterneceu-me aquela coisa de se lembrar, de ter sido ele que os plantou, de me jurar que eram doces e que eu era maluco se não provasse. E provei. Era maravilhosamente perfumado e doce e as “pulgas” acrescentavam divertimento na boca.

É verdade que depois fui comprar mais ao supermercado e, confrontado com aquela papa inodora, insipida e quase incolor, não voltei a repetir a aventura. Seja como for, eis aqui o que nos sucede quando nos armamos em cagões, “começamos muito cedo” e deixamos de ser capazes de nos espantar.

Estava a ouvir isto pela primeira vez e lembrei-me do kiwi.

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