segunda-feira, 14 de novembro de 2016

um texto deveria começar sempre pela cor do céu







































Hoje fui sob um céu maravilhosamente azul. Há muitos azuis.
A senti-lo por cima dei de pensar que a crítica literária tinha (não sei se ainda tem…) o deplorável hábito de destroçar os textos na simples circunstância de mencionarem a cor do céu. De tal maneira que, a fugir de tais vexames, a meteorologia está mais ou menos extinta da literatura contemporânea. Os textos entram logo a matar, sem abelha que se veja atrapalhada na chuva, com cadáveres às primeiras sílabas. E não há maneira de saber a cor das folhas, se um mocho piou, se os pintassilgos estavam em cio. Enfim, nada de nada, como se os humores humanos fossem completamente alheios a tais ocasos.
O último livro que tenho memória de ter lido a ocupar-se dessas coisas à fartazana encontrei-o na mui magra secção de livros portugueses de uma biblioteca pública em Houston.

[por uma qualquer estranha razão, a secção de livros portugueses contava também com uma vetusta e bela edição aparelhada com o promissor anúncio de ser um manual: “The Noble Art of Making Enemies”, não me lembro do autor. Lembro-me que o levei logo, cheio de vontade de aprender coisas úteis. Mas depois fui a ver e era uma coisa de um marquês qualquer a lamentar-se de passar a vida a foder-se, não obstante o facto de ser um gajo porreiro, enfim, mais ou menos a vida de todos nós. Fiquei muito desapontado. Ainda por cima, o livro era muito belo – no papel, na tipografia e encadernação –, mas exalava um odor estranhíssimo e já ia mais ou menos a meio quando comecei a ficar preocupado com a hipótese de ter molhado o indicador para passar alguma página e morrer envenenado. Enfim, era uma magnífica biblioteca de que guardo excelentes memórias. Podem-se fazer coisas maravilhosas com petróleo, não percebo as manifes que para aí andam em bom tempo.]

Bom, mas o tal livro que punha adequada paixão no nomear a cor e temperatura das coisas era “Como era verde o meu vale”, uma coisa pesada e volumosa, mais ou menos como um tijolo burro, uma coisa muito bem esgalhada por um tipo que aparentemente se sentia saudoso da caça às raposas. Li-o todo numa série de manhãs num azul de temperatura exatamente igual ao de hoje, esparramado numa canoa de alumínio. E a água marulhava chlop-chlopes meiguinhos nas paredes da dita.
É coisa velha de uns trinta anos mas lembrei-me dele, daquele azul ao viver o desta manhã. E lembrei-me em todo o detalhe de Mo-Ranch, a algumas milhas de San Antonio e onde estive alojado durante todo aquele verde em centenas de páginas densas. Hoje, mal cheguei a casa, googlei-o. Tirando um monstruoso escorrega, está exatamente igual. Um dia, lá me bamboleei sem jeito e livro e óculos foram parar ao fundo do rio. O livro, em mergulho lento foi soltando bolhinhas. Os óculos foram mais rápidos. Recuperei um e outros num mergulho em água gelada.

[O que é que eu quero com o rabisco destes nadas? O que é que eu “quero”? Quero nada, absolutamente nada, falo comigo. Há no mundo muito mais gente a escrever do que pessoas a ler e isso não faz qualquer diferença para as primeiras; recordamo-nos, é tudo.]

Deveria ter sido por esta altura, novembro, princípios de dezembro. Sobre os joelhos dei um murro na capa para expulsar a água e as páginas ficaram como se nunca lá tivessem estado.
Mo-Ranch era – e é – propriedade de igrejas presbiterianas. Mas eu nestas coisas sou muito ecuménico; em Houston nadava numa piscina de um centro judaico (com mensalidades bem puxadinhas…).
E os sons? Os piares, os ventos, os trovões, o silêncio? Nesta evocação ouvia isto e o motor tocava baixinho.

blurry blue mountain começa assim, com fields of green:

"they’ve been killing off all my heroes
since i was 17
some have gone on to disappear
mysteriously never to be seen
others get laid out lovingly
in a field of green

like the old woman of the desert
or the young surfer by the sea
the teachers of such pathways
that would only ever teach for free

like the bleeding trailblazers
and the sleepy stipulators
the wicked wander-lusters
or the clowning crop-dusters

when finally turning 40
the losses seemed to quicken
like an extra season gets added
to every year just for the stricken

losses by the numbers
disasters by the score
when the art of acceptance
won’t take part any more
now i amble over 50
and the longest hours move so swiftly
i’m approached by those in need of reminder
confusing me with path finder
i  tell them with a crinkled smile
and a smoldering spark eyed glisten
to be quiet for just a while
and give your own hear t a good listen

they’ve been killing off all your heroes
since you were 17"

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