quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

investigações

Como não cheguei a brincar - porque os tempos não eram de modas quando estava na altura de o fazer –, volta e meia dá-me para comprar brinquedos. Bom, não é bem assim: vez por outra compro brinquedos e gosto de mascarar o disparate com palermices neorrealistas. Agora tenho dinheiro para os comprar e não tenho tempo para brincar com eles porque ando a vender o meu tempo, a única coisa que nunca algum dia poderei vir a comprar com todo o dinheiro do mundo. Enfim, foi a chafurdar nesta extraordinária filosofia de vida que a certa altura comprei uma tablet megarápida para substituir uma outra que não se aguentava na complexa operação de fazer voar um drone. Tirando a meia dúzia de vezes em que a usei para esse efeito e mais ou menos outras tantas para desenhar com o dedo, uso-a duas ou três vezes por ano em reuniões de trabalho porque se porta como uma espécie de canivete suíço e cabe-me num bolso do casaco. Foi a tentar escrever com ela um pequeno texto numa dessas reuniões que uma colega começou em imprecações contra a maquineta; unhas longas não são realmente o mais prático para dela fazer uso. Mas o que me maravilhou foi reparar que ao atingir acidentalmente o ícone do “microfone”, a maquineta digitava em tempo real todas as suas maldições. Olha, olha, disse eu. Limita-te a ditar que a gaja escreve. (Isto não tem nada de sexismo, acho que uma tablet é do género feminino, ou não? Espero que sim, porque às vezes também a guardo no bolso de trás das calças.)
Bom, como disse, aquilo é uma espécie de canivete suíço e tem coisas que nunca tive tempo ou paciência para explorar. Aquela deixou-me absolutamente deslumbrado e logo ali decidi que iria experimentá-la em casa; nunca iria “falar” para uma máquina na presença de testemunhas, a minha autoestima não mo consente e outro tanto aconteceu com a minha colega que preferiu batalhar com as unhas no ecrã.
Chegado a casa, fechadas as janelas e corridos os estores, na absoluta ausência de testemunhas, “disse-lhe”: “Vamos lá ver do que és capaz.” E lá ficaram os sons convertidos em caracteres. Depois disse: “Peripatético.” Trás, sem espinhas. Depois disse: “Vamos lá ver se acertas agora nisto…” Ela digitou imediatamente: “Vamos lá ver se há certas agora nisto.” Disse “Mau…”, ela escreveu “Mau”. Depois disse “Acertas”, “Acertar”, “Acerto”, com todas as dicções possíveis, sempre com a maquineta a marrar no “Há certas”. Depois, já sem estar a pensar na conversão, disse “Caralho” que é o que eu digo sempre que me irrito e não tenho testemunhas. E a cabra escreve “C******”. De olhos esbugalhados naquilo, mais uma vez sem estar à espera da conversão dos sons em palavras, exclamo um “foda-se” sinceramente impressionado com aquele puritanismo mecânico.
A maquineta digitou “foda”.

Reparo agora (com mais atenção, quero dizer) que na barra de pesquisa do chrome também há o ícone do microfone. Não, não vou experimentar.

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