terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

do escrever e do ver a igreja do faustino





















Deitei-me no embaraço de me perguntar que raio ia eu lá fazer. Tinha decidido lá levar os meus pais, mas eles acobardaram-se de mim e o meu pai inventou uma consulta médica em dia de carnaval. Eu tinha metido a ida na cabeça e quando lá meto coisas, de lá não saem. Convidei um dos meus filhos que me deu tampa idêntica.
Seriam cinco da manhã e continuava a perguntar-me. De mais a mais não era lá, mas ao lado. Até que lembrei de uma coisa que tinha lido em tempos: a maior taberna de Portugal. Mas onde é que eu lera isso? A rebolar para um lado e outro, acabei em suspeita suficientemente séria para me levantar e procurar o livro, lombada azul cueca. Vi o índice – uma coletânea de textos breves do J. Rentes de Carvalho – e não consegui encontrar. A ideia era a de um espaço onde as pessoas bebiam em razoável silêncio. Procurei “silêncios” nos títulos do índice, encontrei um que nada tinha que ver com o da taberna do Faustino.
Deitei-me outra vez, a ver se dormia. Mas aquilo tinha-me entrado, de lá não saía, e levantei-me novamente para voltar ao índice. Lembrava-me vagamente do termo “catedral”.
Foi então que encontrei “A igreja do Faustino”.
Aqui chegado, perguntei por ela. Tudo estará rigorosamente como o descrito. E lá continua o rádio entronado pelos toneis, agora na companhia de dois televisores, um a cada ponta.
Mas o que me deixou em espanto e é a única razão destas linhas, foi o ter reencontrado a minha experiência da leitura através de coisas que o texto não chega a mencionar. Com pena muita, não trouxe o livro. Mas não creio que o texto mencione o teto da adega, lugar em que reencontrei realmente o carceri d’invenzione, o Piranesi que experimentei com a leitura do texto.

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