quarta-feira, 15 de março de 2017

a agenda do tiririca, a sanidade mental e o orçamento de estado

Vão uns dias, estava eu a ouvir aqui qualquer coisa que não vem ao caso, televisão sem som, e vejo o tiririca em meio de multidão ajuntada a pretexto de uma “feira do queijo”. Acerca dos queijos, dos queijeiros, vacas, cabras, ovelhas, pastagens e respetivos presidentes de junta terá dito coisas em muito afeto que me escaparam ao ouvido. Da multidão espichou para cima de um palco de arraial ocupado com coisa de 20 acordeonistas. De volta dos botões –atrapalhados nuns casos, constrangidos noutros -, um a um foram afagados com pancadinhas nas costas, tirando uma acordeonista mais pequerrucha que teve direito a umas pancadinhas no alto da cabeça que lhe partiram a laca da permanente.
Fascinado com tudo aquilo liguei o som ainda a tempo de o ouvir “informar a imprensa” de que nunca almoçava e muitas vezes não jantava. Não cheguei a perceber se por feitio ou agora por causa da pátria.
Seja como for, é a partir deste género de confissões que vamos sabendo da sobrenaturalidade da criatura. Outro dia apanhei-o a informar uns rapazitos que apenas no primeiro ano que frequentara uma escola qualquer, por uma razão qualquer, não tinha sido o melhor aluno. Foi sempre o melhor aluno em todas as escolas, em todos os anos e em todos os outros casos. Testemunhas garantem tê-lo ouvido na confissão de que conseguia ditar dois textos diferentes em simultâneo. (Quando ouvi isto fiquei verdadeiramente impressionado. Não com quem faria os ditados mas com os redatores. Como é que eles distinguiriam aquilo que era suposto escreverem? A menos que num caso o texto fosse o de um parecer jurídico e noutro o de uma lista de mercearia, é perfeitamente razoável presumir uma valente palhaçada da alegada avaria).
Noutra ocasião ouvi-o confessar que era ambidestro. Dessa vez não fiquei especialmente impressionado porque também sou um bocadinho ambidestro. Mas a melga que o ouvia estava tão deslumbrada que nem lhe ocorreu perguntar se também conseguia escrever dois textos diferentes em simultâneo. Aposto que sim. Repare-se que – com a eventual exceção da historieta da “namorada” –, nenhuma destas coisas se sabe pela mulher-a-dias, mas diretamente do próprio. Foi sempre assim e não apenas agora que está a dar tudo pela nação.

Bom, mas estava-se em hora de almoço e já tinha tirado o som ao televisor quando no rodapé percebi que se pronunciava acerca das tensões diplomáticas entre a Turquia e a Holanda; o homem também tem uma palavrinha a dizer em muito consenso sobre o assunto.
No mesmo dia, já depois deste mata-bicho, em pulo das berças para a capital do reino, “a imprensa” viria a apanhá-lo em muita fé na procissão do Senhor dos Passos, “a mais antiga do país”. Logo atrás do andor, ao lado do cachopo que ficou a fazer de presidente da câmara e rodeado de escuteiros em calções.
Um ou dois dias depois, na Gulbenkian e no preciso momento em que o trampolineiro estava a “ser ouvido pela justiça”, dá de a comparar ao calhau de Sísifo. Ou a este último, não se percebeu muito bem. Miguel Sousa Tavares – um comentador que aparenta estar permanentemente agastado com a imbecilidade do sistema solar -, assegura que ninguém entendeu nada daquilo e perguntou-se se não seria uma “alusão qualquer a um episódio bíblico”. Bom, se não estou certo de ter compreendido o cavernoso comentador, percebo perfeitamente o “não se percebe muito bem” do tiririca. Depois de bulir afetos a dar com pau, achou oportuno fazer uma redação. Percebe-se que tem umas noções de mitologia, revela empenho, ainda dá em intelectual e sinto-me tentado a dar-lhe 12.
É o eterno “nim” que resume toda a sua filosofia e carreira política. Hoje na Bertrand dei de olhos com uma biografia do homem, coisa de uns três quilos. Espreitei o índice – paginado no avesso da moda – e fiquei na impressão de que a coisa não foi feita em cima do joelho; é exaustiva e deve começar no emocionante detalhe da sua conceção. Mas não percebo o exercício. Politicamente a criatura podia resumir-se na descrição oportunamente usada por Vasco Pulido Valente a propósito de um gabiru que se pirou para Bruxelas e depois para uma casa de má fama: é redondo como um ovo. Redondo, macio e sem arestas, não tem ponta por onde se lhe pegue.
Embora não me reconheça competências para este género de diagnósticos, aquilo que por aí ainda se confunde com sinais de projeto político, para mim não passa de episódios de insanidade mental.
Mas é perigoso? Não. Sai caro.
Nada que justifique uma junta médica e nada que se aparente à loucura venal do trampolineiro. Não vai à lata das bolachas. Come apenas todas aquelas a que tem direito. O que o torna uma dispendiosa extravagância para um país que pede emprestado na hora de ir ao pão.

2 comentários:

Barão Marquês disse...

DUPLA TEATRAL
Eles temem-se tanto mutuamente, que em público para evitar melindres, se apresentam mascarados de uma colaboração de excelência, mas deixam transparecer em cada traque a concorrência feroz em que se debatem.
Presidente carro vassoura arrebanhando tudo á sua passagem acabará eleito o supremo dos mendigos. Com tantas esquinas e cantos que frequenta ainda lhe sobra tempo para distribuir refeições aos colegas de infortúnio mais necessitados.
O nosso primeiro escalado á margem da tabela de serviço consegue gerar em tão pouco tempo amostras de um rancho que de tão recheado até pode resultar em indigestões incontroláveis. Deve ter andado a rasgar almofadas na arrecadação, enquanto se atira à página codificada da austeridade.
Convém que reparemos no histórico crescimento da economia que antecedeu o plano B da bancarrota do Zé de Matosinhos.

Alberto Sampaio disse...

Muito bom! Inicialmente até pensei que estava afalar de um candidato daqueles candidatos presidenciais do tipo telenovela Brasileira. Afinal era do "nosso". Faz um bonito par com os que "nos" governam em particular com o aldrabão sorridente.