quinta-feira, 27 de abril de 2017

"cabriz" versus "douro pingo doce"






















Trouxe sopa da pedra e chouriço da Sara das bombas. Sim. Combustíveis e chouriços são mistura que soa mal mas os chouriços são do outro mundo de bons. Dos combustíveis nunca provei senão a mistura para a roçadoura a dois tempos. A vida também é assim, com pitadinhas de surreal.
Bom, mas o Douro do Anselmo Mendes estava de fundo e, depois do terço de copo em que se afundou de vez, abro o Cabriz.
O que custa cada uma destas coisas não sei ao certo. Vou-me dando na suprema e quase obscena felicidade de não saber quanto custa exatamente o que como ou bebo. Por isso não sei. O Douro do Anselmo abicha-se no pingo doce e custa coisa de dois euros, mais cêntimo menos cêntimo. O Cabriz não chegará ao dobro. Ou então chega e passa, não sei. Sei que está entre os 100 ou 50 melhores vinhos do mundo, de acordo com a wine spectator, ou uma porra assim. Vinha na gargantilha que mandei fora.
Agora é isto: o Douro do Anselmo (gargantilha roxa, porque há um Douro Seleção, ou lá o que é, de gargantilha prata, mais caro e que não vale um chavelho) é coisa de uma elegância que não sei descrever sem armar pingarelho. Estão a ver aqueles corpos em spiralato do El Greco? Não? Estão a ver aqueles efebos que pintalgam as fitas do Visconti?  Também não? Então pensem em qualquer coisa de intangível, de uma elegância que até irrita, de filme que meta condes e viscondessas. Cheira-me que de vinhas velhas sem etiqueta (Anselmo… pede que expliquem a coisa no contrarrótulo, ‘tá bem?).
Agora pensem num big mac. Reparem que não estou a dizer que o Cabriz é fast drink. E que fosse; eu gosto dos big mac. Quem não gosta deles é o meu estômago, não sou eu. Mas o Cabriz é vinho mesmo, não dá patada no estômago. É apenas um tricasta adocicado, a dar para o rabeta, coisa para putos em desmame de ice tee. Um infeliz espeta-lhe com meia garrafa e sente-se são e sem sono.

Em tempos conheci três rapazes de Katowitz a quem ensinei as palavras “mais barato”. Pelas mercearias de Leiria apontavam uma garrafa de vinho qualquer e diziam: “mais barato”. Faziam assim com tudo. Como os acompanhava, fui provando. Excetuando o álcool etílico de farmácia que bebiam à noite. Enfim, bebi apenas meia tampinha. E deu-se que me dei bem.


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