terça-feira, 4 de abril de 2017

dezoito anos





















A minha mãe era excecionalmente bela. Suponho que todos os homens poderão dizer isso de suas mães. Mas a minha mãe era realmente bela. Em pequeno arrastava-me com ela quando ia ao mercado. E quando passava, lembro-me que os homens a olhavam carnívoros, de um modo que não gostava. Pendurado da sua mão, voltava-me e olhava-os em fúria. Sem qualquer efeito, porque lhes era completamente invisível.
Detestava andar com ela. A razão pela qual me levava a mim ao mercado – e não a minha irmã, sempre disponível – só pode ser o facto de quase todas as vendedoras lhe perguntarem se eu era irmão dela. Ria-se visivelmente agradada, embora ainda hoje não perceba porquê. Afinal de contas, temos apenas dezoito anos de diferença, não podia ser por sentir que a achavam mais nova do que realmente era.
Ela divertia-se e eu aborrecia-me. Enjoava-me a intensidade e amálgama dos odores de coelhos, galinhas, frutas, legumes e gente suada. Embaraçava-me a enumeração das semelhanças das nossas caras. Além de que já então não gostava de ajuntamentos. As outras mães caprichavam nos sapatos e punham berloques nas orelhas e pescoço; a minha, na sua espartana simplicidade, punha-me a mim numa mão, e uma cesta de palha na outra. Sentia-me como um berloque comprado na feira de S. Bernardo.

Um ou dois anos atrás passeava com ela na Rua da Igreja em Possacos, uma bela aldeia em Trás-os-Montes. Na rua sem gente, encantávamo-nos com a beleza de casas e buganvílias. Subitamente, a chegarem de direções distintas, vimo-nos rodeados por três ou quatro senhoras. Simpáticas, pretextaram o cerco já não sei com quê, se procurávamos alguém, se não eramos “de cá, pois não?”. Deixei as despesas por conta da minha mãe e a certa altura, uma delas, mais afoita, apontando-me com os olhos, dispara: “É o seu marido?”
Tão longe do que fora, a minha mãe voltou a sorrir. No meu caso não me limitei ao enfado. Fiquei mesmo furioso e fugi na direção do carro. Porra, dezoito anos ainda são diferença que fica à vista.

Lembrei-me disto hoje porque me pediu que a levasse a Fátima. Disse-lhe que sim. Está sempre a dar-me flores, não lhe posso dizer não.

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