segunda-feira, 29 de maio de 2017

da simplicidade

Ontem, no restaurante, o Aníbal ficou deslumbrado com uma mulher na mesa em frente. Era verdadeiramente bela. Fisicamente, quero dizer; no cabelo, nos olhos, na pele, nos braços, na boca, nas mãos. Não daquela beleza que se faz de medidas certas e que toda a vida o havia deixado na mais absoluta indiferença. Aquilo que na mulher o enfeitiçou foi a serenidade alegre dos olhos, o movimento das mãos nos cabelos, uma soma de nadas que revia dos simples.
A simplicidade é das mais encantadoras graças. No seu sentido bíblico, não do da estupidez – coisa com que frequentemente se confunde e que não passa de uma das mais perversas fisionomias da maldade.
Quando lhe era dada a ver assim de frente como naquela mulher, no seu prodigioso esplendor, percebia que aquela beleza se arredava de todos os tolos que se acreditavam sábios e em entendimento. Apenas iluminava os que de ligeiro, levianamente, supunha de menor tamanho. A filha que o enternecia e ajudava a ver a luz do sol, acudia-o nessa compreensão.
E quando o José Dias lhe perguntou se estava triste, lançou-se na envergonhada mentira de dizer que não. Que tinha jantado tarde e caíra-lhe mal. Que estava indisposto e não tinha apetite.
A verdade é que naquela súbita paixão pela mulher da mesa em frente sentia-se mais do que triste. Sentia-se o mais desgraçado dos homens.

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