quinta-feira, 29 de junho de 2017

do silêncio

Parece que 45 minutos é o máximo que alguém aguenta antes de começar a alucinar no lugar mais silencioso do mundo, uma sala cientificamente concebida para esse efeito, que absorve 99.99% dos sons e será a coisa mais próxima do silêncio absoluto.
Aparentemente a sala é usada para gravar o som de produtos como máquinas-de-lavar ou motores. Posteriormente, as gravações são dadas a ouvir a pessoas que as qualificam em termos semânticos como “caro” ou “de baixa qualidade”, avalia-se o que sentem e as associações que fazem.
Mas o Aníbal tem muitas dúvidas em relação aos efeitos alucinatórios dessa câmara anecoica. Porque é essencialmente assim que vai levando a vidinha. Sem produzir eco. Ou, pelo menos, sem que os oiça de si ou lhes dê ouvidos. Pelo trabalho, a sua interação social fica generosamente resumida nas episódicas considerações meteorológicas precedidas pelas saudações breves que as boas maneiras lhe impõem. Outro tanto acontece com a parca vida que lhe remanesce fora do trabalho. Basicamente, as interações implicadas no suprimento das necessidades mais elementares - dizia “não”, à senhora da caixa do pingo doce quando esta lhe perguntava se tinha um cartão qualquer e “tenha um bom dia”, “um café cheio, por favor” e “obrigado” na sara das bombas. Coisas assim.
Não era nada de premeditado. Aquilo acontecia-lhe e não deixava de lhe doer. Numa ocasião ou outra dava por si a usar o silêncio com verdadeira arte. Mas nunca se decidia pelo silêncio. Era-lhe imposto. Pela sua maneira de ser - cada vez menos expansível, patologicamente tímida -, mas sobretudo pelos outros. E talvez porque quanto mais se adensava no silêncio mais nítida era a perceção do absurdo do seu corpo, deu-lhe de pensar na natureza do silêncio. Não do silêncio enquanto coisa física que se pode resumir satisfatoriamente naquilo que fica da ausência de quaisquer sons. Em certo sentido isso é mesmo a essência da própria música; o que é ela senão uma estrutura mais ou menos complexa de silêncios mais ou menos breves? Não, o silêncio que o apoquentava era outro, era o da quase ausência da fala. Do silêncio que é ausência de juízo, que é coio da mentira ou qualquer outra forma de indignidade, que é pancada ou injuria, aparência de sensatez, maldade, compaixão, perplexidade, agonia.
E chegou lesto à conclusão de que o silêncio da fala não tinha uma maneira de ser. Só podia ser definido no silêncio das suas imagens e contextos. É o tema de inúmeras canções.

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