segunda-feira, 7 de agosto de 2017

“o venâncio”: do luxo ao meu género













Cirandava quando vi. Da entrada de uma casa, um senhor em oitentas descia uma rampa improvisada de tábuas, em coisa de 30º  e a cavalo numa scooter. A neta segurava-lhe o estribo posterior para que não se estatelasse. Sorriu-me em modo de quem diz “o velho é tonto mas eu amo-o”.  Encantado, devolvi-lhe o sorriso.
O Venâncio (viria a saber que era o Venâncio), cerca de 20 metros mais à frente, estaca a scooter em meio da via de sentido único e vai à  mercearia. Não terá demorado mais de 30 segundos mas os carros começam a apitar. O senhor Venâncio sai da mercearia de saco na mão com ar de “quero que vocês se fodam todos”. (vocês desculpem-me  o francês, mas o ar do Sr. Venâncio foi exatamente esse, tenham paciência).

Hoje vinha do Porto das Pipas onde fui por via de bilhete para São Jorge e deu-me a fome precisamente ali.
Gostei da fronha e pergunto o que há. A Antonieta debita oralmente o cardápio e mando-a parar no boca negra - um peixe que por aqui tem nome.
Vem-me fresco e de boa assadura, em paz de matrimónio com um jarro de branco "Ermelinda Freitas".
São rigorosamente seis mesas. Assistidas pela Antonieta Lourenço, filha e não neta do Sr. Venâncio, benfiquista encardido até aos ossos.
Todos os comensais são homens e, aparentemente, naturais da Terceira. Fala-se de mesa para mesa, entro em família e deixam-me. Sinto-me em pátria, bem como no céu. Em tudo aquilo, a Antonieta é a grande maestra. O Sr. Venâncio, a quem a filha - com infinita ternura bruta, a mais autêntica das ternuras -  consente  fazer de conta que trabalha, ajuda.
A certa altura, um senhor bem posto mas algo amolgado pelos anos  - depois de comer tranquilamente -, na hora de pagar a conta protesta que na sua carne só havia ossos. A Antonieta, como toda a gente, convencida que o senhor brincava, responde que fez de propósito para o senhor lá não voltar.
Não. O senhor que um dia será certamente o homem mais rico do seu cemitério,  falava a sério. A despropósito, diz que é rico e parece que chega a dizer o saldo gordo da sua conta bancária. A Antonieta convida-o a sair por 5€ ou até mesmo sem pagar nada.
Entretanto, entram alguns turistas de ambos os sexos.
Mas aquilo não é a sua pátria.
Em contrapartida, o Venâncio é o meu género de luxo.
Paguei o que me pediram: dez euros. Se me tivessem pedido trinta por aquela frugal refeição teria achado mais justo.
Mas já não seria “o Venâncio” em Angra do Heroísmo.
Como devia, fica na Rua do Espírito Santo, à direita de quem sobe da Praça Velha.

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