terça-feira, 29 de janeiro de 2019

excerto do manuscrito encontrado no rei das enguias

"O cão de Penha Garcia foi assim: o gajo passa por mim, gordo, grande, pelo curto, bem cuidado, bamboleante, cor de raposa. Dois metros à frente, estaca e olha-me. A avaliar-me. Juro. Havia outras pessoas, mas foi para mim que ele olhou fixamente. De tal maneira que me assustou. Segue. No largo do pelourinho – acho que é no largo do pelourinho-, há uma bica de água farta. Em dia de agosto marulha em doce, não vos há-de ser difícil de acreditar. O cão sentou-se e voltou a olhar-me. Eu olhei-o ainda estúpido e cada vez mais incomodado com aquele olhar – agastado em calor ao mesmo tempo que num vamos a ver em que param as coisas. Via-se que o sacaninha estava a pensar em todas as hipóteses, uns olhos entre o que vamos a ver o que isto vem a dar e o ainda me lixo na aposta. A velhota da loja de souvenirs que fica à esquerda de quem se vira à fonte, apressa-se a servir-lhe meio garrafão d’água. Dá-lhe duas golpadas de língua em modos de quem não é ingrato, mas continua a olhar-me na expectativa de que o entenda. E foi isso. Continuava à espera de que o entendesse. E percebi que estava subitamente a entendê-lo no calor da anafadura sob o pelo curto. E então, com as duas mãos em concha, encharquei-o em toda a água que pude. Deliciado a vê-lo a embrulhar-se em todo aquele fresco.
A simpática velhota da loja de souvenirs far-me-ia todos os descontos porque decidiu que eu era pessoa que 'gostava de animais'. O que nem é uma verdade exata. Eu gosto de gatos. Não desgosto de cães, mas eu gosto é de gatos. Os cães são uma máquina de amar. Amam mesmo quando são maltratados. Sempre a abanar o rabo na expetativa de um afago. Com os gatos nunca se sabe. São todos diferentes."

Sem comentários:

Enviar um comentário