A primeira dessas coisas é o território. Acreditamos que esse território é nosso, o lugar onde estamos e onde os nossos filhos, por sua vez, estarão. Ainda que tenhamos cá chegado vindos de outro sítio, isso em nada altera o facto de que estamos comprometidos com este território e que definimos a nossa identidade – pelo menos em parte – nos seus termos.
De uma importância quase idêntica são a história e os costumes através dos quais tal território foi instituído. Existem rituais e costumes que ocorrem aqui e que unem vizinhos num sentido comum de casa. Esses rituais e costumes podem incluir cerimónias religiosas, mas estas não são, de modo nenhum, essenciais e devem estar abertas a reinterpretações quando é necessário incluir algum próximo que não partilha a nossa fé. As histórias e os costumes da pátria são, portanto, crescentemente seculares.
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As histórias são o produto de uma lealdade partilhada, e não o produtor delas: a lealdade não chega porque as histórias são críveis; as histórias são críveis porque a lealdade precisa delas. E as histórias mudam para acomodar a mutabilidade da primeira pessoa do plural do povo. São, como diz Platão, nobres mentiras: falsidades literais que exprimem verdades emocionais. Um ser racional não se deixará iludir por elas, mas, ainda assim, respeitá-las-á, como respeita a convicção religiosa de que não partilha e os heróis de outras nações.
Daí que os mitos nacionais tendam a ser de três tipos: contos de glória, contos de sacrifício e contos de emancipação, cada um deles reflectido nos livros de história da época. “
Roger Scruton, Como ser um conservador, ed. Guerra & Paz, 2018, pp. 58-59
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