quinta-feira, 28 de abril de 2022

o anfitrião e o convidado



Boto aqui esta redação, um pouco fora de estação, mas para vosso benefício.

Comecemos por este último. Não interessa agora quem o apoiou e a quem obedece na sua fulgurante carreira de cómico que se transmuta em político. Porque nem sequer é muito original nessa metamorfose. E quem chegou a sentir realmente alguma curiosidade pelo assunto, já teve várias oportunidades para a satisfazer.

Vamos diretamente ao assunto que o traz convidado: a solidariedade do parlamento português para com o modo como vem lidando com a violência que a Federação Russa, à revelia do direito internacional, vem impondo ao povo ucraniano.

Não pude assistir ao encontro virtual no parlamento e não senti entretanto a menor curiosidade para confirmar o pretexto do convite, mas terá sido mais ou menos esse. Aparentemente, o momento alto da coisa terá sido a ausência dos deputados do PCP. Isto a ajuizar pelo ruído que se fez à volta dessa ausência. Uma ausência que – apresso-me a esclarecer – é inteiramente compreensível: entre os onze partidos proibidos na democracia à moda do convidado, pelo menos metade deles pertencem à família política do PCP, um partido que entre nós beneficia de todo o respeito e consideração, sobretudo quando honra as alianças com as pessoas do bem. Como se sabe. Mas nem sequer o PCP fala do ameno convívio que o convidado mantem com o Svoboda no democrático parlamento nascido da “Revolução da Dignidade”. Que depôs o democraticamente eleito Yanukovych. Como já todos percebemos, os “aliados” são sempre muito poéticos e inspirados na hora de batizar estas “revoluções democráticas”…

Mas não, não, não me dou à enorme fadiga de rabiscar isto para mencionar ninharias destas. De que ninguém quer saber, tantas que são. E não vamos falar da guerra civil que, desde 2014, as autoridades saídas da “Revolução da Dignidade” vêm impondo nas zonas do território ucraniano habitadas por populações de maioria russa. Ou de saber porque os edifícios esventrados e as vidas destruídas desde então não vêm sendo notícia ilustrada ou comentada nas televisões.

Não, não. Vamos diretamente ao assunto que levou ao vigoroso aplauso dos nossos valentes parlamentares: a solidariedade com a resistência de Zelensky e da democracia ucraniana ao invasor russo.

Pode ser? Podemos especular acerca dos méritos dessa resistência?
Bom, então com licença. Começo com uma pergunta:
Lembram-se vossas senhorias do general Vassalo e Silva?
Eu também não. Acho que nem sabia andar quando se veio a saber dele.

E só vim a saber muitos anos depois, quando começaram a falar-me da maldade do doutor Salazar, um louco tão perigoso e mau quanto o senhor Putin.
E de que modo é que as pessoas do bem serviam esse propósito ao ir buscar o general?
Assim: o doutor Salazar ordenou que o senhor general se matasse.
E que de caminho fizesse outro tanto com a pequena guarnição de 3300 homens que o doutor Salazar lhe havia orçamentado.

Em 1961, o doutor Salazar exigiu que, na defesa de Goa, Damão e Diu, estas 3301 almas - com quase mais nada, senão paus e pedras - se imolassem no confronto com o exército “invasor” de 45000 homens da União Indiana. O senhor general lá deve ter pensado no assunto. Pensou, pensou, e ao fim de 36 horas concluiu que estava vivo e ainda era cedo para estar morto. Pelo menos tanto quanto a rapaziada mais nova que estava sob o seu comando.

E cometeu o delito de desobedecer ao doutor Salazar. Confrontados com a desproporção de forças e meios, é perfeitamente normal concluirmos pela razoabilidade de uma desobediência que não oferece qualquer desonra. Por muito austera que fosse a vida em São Bento a honra era algo que o doutor Salazar poderia experimentar com menos sobressaltos.

Vossas senhorias vão já pôr-se a guinchar que isto não tem nada a ver.
Mas tem. Tem tudo a ver. Até nas palavras.

Por exemplo: a esta operação militar os portugueses chamaram “invasão de Goa”. Já os indianos preferiram referir-se-lhe por “libertação de Goa”. Fosse o que fosse, o senhor general Vassalo e Silva foi confrontado com a necessidade de tomar uma decisão militar e decidiu-se pela rendição. E creio que só um feroz salazarista poderá achar que Vassalo e Silva decidiu mal.

Já no caso do ex-pianista Zelensky, em circunstâncias absolutamente idênticas no que se refere à desproporção de forças e meios, acha-se valor na decisão de resistir ainda que com ela não pareça arriscar a vida. Ao contrário do que infelizmente sucede com milhares dos seus concidadãos.

Eventualmente duvidarão de mim quando falo nesta desproporção, habituados que já estão a ouvir os comentários do senhor Rogeiro, um homem que deve ter tido uma infância muito serena a arrumar as roupinhas do Action Man em caixas de sapatos. Apenas sugiro que oiçam militares a sério neste assunto: não sei de um único que não reconheça as desproporções que menciono e a consequente improbabilidade ou impossibilidade de uma vitória do exército ucraniano. Como já disseram muitos, Zelensky faz uma guerra por procuração.
E assim sendo vão certamente perdoar-me a bigorna da lógica: os senhores deputados são a modos que um bocadinho salazaristas quando felicitam Zelensky na honra de resistir.

E para aqui a falar em honra, quase me esquecia do augusto anfitrião. Antes de ser o que agora quis ser, pertence lembrar os muito esquecidos que o doutor silva era ministro dos assuntos parlamentares do 44 quando, em Julho de 2008, o governo português “ [considerava a] Líbia um parceiro estratégico para Portugal”. Numa atmosfera de imensas “fotocópias” e de negócios “Lino & Pino”, na bonacheira descrição de Hugo Chávez.

Na sequência dos bombardeamentos da OTAN na Líbia - em apoio de uma revolução “espontânea” e de mais um acaso – a coincidência com as cogitações que o senhor Kadafi deu de fazer acerca do petrodólar… -, em março de 2011, já na qualidade de ministro da defesa, o doutor silva fazia saber que Portugal critica[va] o regime de Kadafi e não nega[va] participação em missão da NATO :“o mundo deve ser 'muito claro' na condenação ao regime líbio de Muammar Kadafi”. Porventura inspirado pelos ventos que lhe eram soprados pela “primavera” tunisina.
Sem a menor dúvida, com a falta de pudor e cinismo desta criatura, foi a ocasião em que me senti mais envergonhado com a desonra da política externa do meu país … Em outubro de 2011, Kadafi seria assassinado em Sirte, à saída do esgoto em que o apanharam.

E é mais ou menos isto o que tenho a dizer sobre o tema. É tarde e já deve dar no mínimo para um suficiente menos.
Se ainda houver justiça neste mundo.

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