quarta-feira, 6 de julho de 2022

helicóptero da sic

 Hoje, à laia de sobremesa noticiosa, ficámos a saber que “os gajos lá da europa” disseram que “olhem lá, pá, esse gajo dos barcos anda a abichar de uma maneira um bocado exagerada, digamos assim”.

No meio da poeira percebe-se o mistério de um barco construído em Viana do Castelo para servir as ligações entre as ilhas do arquipélago açoriano [entre São Miguel e a Terceira] (esta última parte é especulação minha, nunca os portugueses que pagaram o navio souberam exatamente…).
Depois de construído (!) o barco foi rejeitado pelo governo regional porque a sua velocidade ficava aquém do contratado em cerca de duas milhas/hora. Tenho a vaga ideia de terem acrescentado que o navio era “inadequado ao mar dos Açores” (mas aparentemente bom para o mar da Dinamarca...), mas já estou menos certo nestes detalhes. Apenas me lembro da perplexidade e indignação em que fiquei ao perceber como o governo regional dos Açores enviava para o lixo os 29 milhões* investidos pelos contribuintes para suprir necessidades dos açorianos. Depois de algum tempo o barco teria sido então comprado por 11 milhões pela “Douro Azul” e, logo depois, revendido a uma empresa dinamarquesa por 17 milhões.
De modo que parece que lá chamaram a PJ ou lá o que é . Outra vez.
Mas voltemos aos Açores. A ligação que eu suspeito que estaria originalmente em causa seria muito provavelmente a ligação entre a Terceira e São Miguel. Essa ligação é - ou era até há bem pouco tempo -, realizada por um catamaran de pavilhão grego, com tripulação grega (não sei se já falam português…) e gourmets nacionais inexcedíveis em atenções para com os passageiros. Logo que o barco abandona o cais distribuem diligentemente sacos de enjoo por todos os passageiros. Àqueles que declaram dispensar o saco insistem para que fiquemos com eles em qualquer caso, mesmo depois de explicarmos que não padecemos de enjoos marítimos. Não mais do que uma hora depois, com o casco do navio a dar violentos chapões -em mar que até pode estar relativamente raso -, podemos ver a maior parte dos locais e muitos turistas a fazerem uso dos ditos sacos. A esmagadora maioria dos passageiros. Os mais idosos e os mais pobres (porque para os poucos locais que viajam entre ilhas são precisamente os mais pobres que o fazem- os outros viajam de avião entre as ilhas; alegam os outros que o preço é quase o mesmo e é muito mais rápido e confortável…) gemem e apelam a “nossa senhora” cuidando que morrem…
Resumindo muito: nestes negócios estarão os contribuintes - na qualidade de jumentos, como sempre -, o governo regional da altura e o governo central que foi cúmplice numa coisa que tresandava de longe e uma comunicação social que não faz perguntas.
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* -Após cruzar textos de diferentes notícias, reeditei para corrigir 40 milhões para 29 milhões. Entretanto, a SIC Notícias continua a informar que o navio custou 40 milhões aos contribuintes. Algumas horas depois, reedito novamente porque a comunicação social não consegue um consenso acerca dos valores do navio nas diversas fases do negócio. Parabéns à prima no que diz respeito aos factos mais elementares de uma notícia. Estou agora a ver o navio, num dos noticiários e que agora navega nas mais difíceis águas geladas: lindo, suficientemente grande para anular enjoos. Imagino o bom que seria para o arquipélago dos Açores um navio daqueles a fazer a ligação entre ilhas. Ver as ilhas açorianas do convés de um barco foi uma das experiências mais deslumbrantes da minha vida, mesmo a partir de um catamaran que deixa 90% dos passageiros a encher sacos de vómito. Pronto, é só isto.

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