terça-feira, 3 de março de 2026

do escrutínio dos "polígrafos"

Por esta altura já toda a gente percebeu que os escrutínios dos OCS através dos chamados "polígrafos" não são mais do que metanarrativas dos seus conselhos de redacção (antigamente havia isso...).

A boa notícia é que hoje, com as aplicações de AI, qualquer pessoa é dona do seu "polígrafo". Com margens de "erro" muito inferiores aos dos OCS tradicionais.
Apenas a título de exemplo: os serviços de informação sionista - em razão da hostilidade que vem sendo gerada pelas imagens dos crimes que vêm sendo perpetuados contra o povo palestiniano - recentemente decidiram fazer um investimento gigante em páginas na rede. [ O que apenas prova que não são assim tão bons quanto se pensa; organizações afectas aos palestinianos fazem-no há muito mais tempo e com excelentes resultados.] E essas páginas vêm tentando desacreditar a informação de que Israel assassinou quase centena e meia de crianças em duas escolas iranianas alegando, entre outras coisas, que as escolas no Irão fecham por altura do Ramadão. Achei que seria uma poderosa razão para duvidar do que já tinha visto, das imagens e dos gritos de desespero dos pais que tinham acabado de perder as filhas.
E o que fiz foi o que já faço há muito tempo, desde que a DeepSeek é de utilização livre. Comparando frequentemente com os resultados de outras aplicações, como a Gemini. E conclui com muito detalhe que é completamente falso que as escolas estivessem fechadas.
Ironicamente, foi a República Popular da China quem começou por me ajudar a navegar nestes oceanos de mentira. E a rir-me dos "polígrafos" dos que ainda se crêem Aletheias domésticas.




jeff buckley


 

rila




 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

afonso costa: a maior besta da república não para quieto com os pés

“Os ódios aumentam. Os republicanos torturam os presos. Mas que fariam os monárquicos se vencessem? A monarquia, nesta altura, seria de fugir... E a república? A república - diz Junqueiro - não se atura nem se pode aturar!

Foram os do governo provisório que lhe imprimiram o feitio intolerante e jacobino - foram o Afonso Costa, o Bernardino, o Camacho e o António José. Foi principalmente o Afonso que lhe colou a máscara que ela nunca mais pôde arrancar. Fê-la à sua imagem e semelhança: materialista e orgíaca, acolhendo de braços abertos a pior escória dos partidos monárquicos - os que não tinham convicções e queriam continuar no gozo dos seus interesses.

É o tipo do bicho de escritório que julga tudo segundo a papelada e mete a vida viva dentro de articulados. Advogado cábula, foi para o governo, com os seus amigos, depois duma orgia à luz da manhã e com a gola do casaco levantada. Ora o país não é apenas sério: é trombudo. Remexeu nas cousas e nos homens, resolvendo dar cabo do cristianismo no Palácio de Cristal no Porto - daquele Porto de granito espesso – em duas ou três gerações. Resultado: quem reformou os padres foi ele – não foram os arcebispos. Quando acabou de pegar fogo ao pais fez-se de largo a vê-lo arder... Chegou, assim, a ser um símbolo - o tipo das gerações de Coimbra, que criaram, com o código e frases, uma alma ao lado da vida. Tudo o que fez cheira ao saguão onde o fez - às conversas do empregado da Boa Hora, do jornalista azedo e do Alexandre Braga, que fez da existência uma orgia - com esplendidos discursos...

Mas reconheço que foi o único homem de Estado da república e o sonho dos jacobinos de que resolveu, como ele soube interpretar, Lisboa e do Porto. Só lhe faltou seriedade e grandeza. Fez tudo a rir. Eu tenho sempre medo dos homens que não querem Deus, para ficarem mais à vontade no mundo: desatam então aos pulos como bestas. É certo que tenho conhecido alguns seres extraordinários sem Deus nem religião. Mas esses tipos excepcionais têm Deus lá dentro, quer queiram, quer não queiram, e às vezes mais luminoso do que os que andam sempre a falar n'Ele, como se Deus fosse uma cousa de trazer por casa.

Dizem que é um homem inteligente. A sua inteligência, até hoje, não tem passado de esperteza. Só lhe reconheço uma superioridade incontestável: é um parlamentar e não se prende com escrúpulos. O Afonso – dizem - é um homem com quem todos se podem entender para os seus negócios.

Não é só o medo que o tem afastado de Lisboa. Às repetidas instâncias dos seus amigos para regressar à política recusou sempre, recomendando uma certa moralidade (!) - o que fazia dizer a António José de Almeida: - Eu, se me chamassem para o meu país, voltava logo, ainda que fosse para ser capitão de ladrões!

Mas não é só medo que o tem afastado. - Porque não vais para Lisboa? perguntou-lhe o Montalvão, que o encontrou em Paris. Não, que lá até os rapazes de catorze anos andam com bombas nas algibeiras. - Andam, mas foi ele o culpado - foi ele que as forjou. Não é, porém, só o medo; os que fingem que o querem a governar, detestam-no. Armam-lhe logo dificuldades. Sabem perfeitamente que ele viria ocupar o primeiro lugar... A hora é dos medíocres.

Enfim, um esplendido homem de estado para a destruição. Audácia não lhe falta, quando não lhe falta, quando não encontra pela frente outro mais audacioso que ele. Então recua - no dizer pitoresco do Malva do Vale. No julgamento de Júlio de Campos, em Guimarães, quis enfrentar-se com o papudo e irónico cónego José Maria Gomes, que tinha fama de piadista e parecia um padre do tempo do Bocage. Ele era advogado, o outro testemunha. E o Afonso Costa a certa altura do interrogatório espicaçou-o.

- Aí está o senhor a meter uma no cravo outra na ferradura...

Resposta imediata, com um sorriso ainda por cima:
- É que o senhor doutor não está com o pé quieto!... “
 

Raul Brandão, "Memórias", Relógio d'Água, 2018, pp. 367-69

karl jenkins


 

rila


 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

dar luz

 "Junqueiro quando ia para o Hotel Central, apesar de já usar um casaco velho, dizia mostrando o charuto opíparo:

É o único vínculo que me liga ao Diabo.

E da Universidade de Coimbra:

Para ela dar luz, era preciso deitar-lhe fogo.

Em Abril de 1919 contou-me:

Quando Afonso Costa esteve na Suíça preguei-lhe um sermão que durou oito dias. E como, quando ele está por baixo, não há ninguém mais amoldável, ouviu-me e concordou comigo. Julguei a política toda mudada e a república salva. Pois quando se viu livre de mim fez exactamente o contrário.

Fala sempre dos homens da república com grande amargura e desprezo:

- Todos se anicham nos melhores lugares, eles e as famílias. Fora Almeida e mais dois ou três, o resto devora."

Raul Brandão,  "Memórias ", Relógio d'Água, 2018, p. 323

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