segunda-feira, 30 de março de 2026

a parábola finlandesa

Até à “operação especial” que visava a defesa dos ucranianos de origem russa contra a guerra civil que lhes era movida pelo governo central de Victoria Nuland -, em 2022, na Ucrânia, e à consequente imposição de sanções por parte dos “aliados”, a Finlândia mantinha profundos laços económicos com a Rússia.

Essa relação assegurava-lhe estabilidade através do comércio e proporcionou-lhe a invejável prosperidade com que financiava um dos melhores sistemas de ensino e um generoso estado social. Era o seu principal mercado de exportação até 2021 e, muito importante, beneficiava de energia barata.

A partir de 2022, com a adesão à OTAN, a adopção das sanções e o corte quase total das relações económicas com a Rússia, necessitou de substituir os combustíveis russos com alternativas muito mais dispendiosas. Enfrenta hoje uma queda do PIB, uma séria recessão técnica, subida da taxa de desemprego, queda de exportações, deficit na balança corrente e inflação.

Para amortecer o impacto de todas estas coisas, assim como o aumento abrupto das despesas com defesa – uma consequência da adesão à OTAN… -, a Finlândia endividou-se e a dívida pública já supera percentualmente a nossa. Estou convencido que a economia finlandesa continuará a definhar nos anos mais próximos apesar da adopção de medidas de austeridade e rigor fiscal
Poucos se lembrarão já das humilhações a que os finlandeses nos sujeitaram durante a troika, entre 2011 e 2014. (E que levaram a que alguém se lembrasse de fazer um vídeo que vi com enorme constrangimento e vergonha, intitulado “O que os Finlandeses precisam de saber acerca de Portugal” ).

Uma memória que oferece desmaiado conforto quando, tão periféricos quanto os finlandeses, com a UE somos arrastados para os mesmos erros, alinhando com o crepúsculo de uma superpotência governada por cães danados.

Em Bruxelas ninguém dará ouvidos a Bruno Maçães e poucos o terão lido.



dave brubeck


 

pojan


 

sexta-feira, 20 de março de 2026

dos factos enquanto irritação

Talvez porque não tenha grande afecto por convívios e ao mesmo tempo não sinta especial vontade em desdizer a ideia de que ninguém é uma ilha, dou-me à indolência de ler por aqui os comentários que se fazem a pretexto de um assunto ou outro. Digamos, portanto, que não sendo completamente uma ilha, serei um frágil istmo.

O suficiente para me deixar numa prostração tão melancólica que só me apetece ser ilha. É assim que me deixa a confirmação de que, para uma larga maioria, os factos deixaram de ser necessários para explicar a realidade.

Isso começou no jornalismo e espalhou-se como doença infecciosa por todo o lado.

Os jornalistas para quem os factos eram sagrados deixando as opiniões ao cuidado de quem deles fazia uso estão (quase) todos mortos ou aposentados. Agora só há comentadores. E as massas emitam-nos no método para a interpretação dos eventos. Zangam-se quando as importunamos com factos.

E não vale a pena lutar contra a doxa dos tempos.




tindersticks


 

lavradas


 

quinta-feira, 19 de março de 2026

são reversões, senhora...

E no caso, não apenas não custam nada aos arruinados contribuintes, como ainda os salvam de custos associados à aplicação da lei agora revertida.
Mas isso é evidentemente acessório quando comparado com a salvaguarda da saúde mental de jovens cuja identidade não deve ser prematuramente determinada.

As teorias de John Money e afilhados do bloco plasmadas na lei agora revertida não são ciência. E há evidencias sustentadas de que são crime de saúde pública.

Do mesmo modo, o que a dona Câncio faz não é jornalismo. É militância panfletária e não tem o direito de a fazer passar por qualquer outra coisa.

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[Edit: fui entretanto informado que o DN iá não é um jornal público. Em razão disso corrigi o texto no que a esse facto dizia respeito.]



wim mertens

 


lavradas