segunda-feira, 6 de abril de 2026

a invenção do ocidente

Faz anos que me consinto a ideia de que são os portugueses que estão na origem daquilo que ainda hoje chamamos de “ocidente”. Não tem nada de extraordinária, realmente. Uma ideia que nunca tive a ousadia de confessar a ninguém e que me serviu para explicar a origem de um oximoro geográfico utilizado em tantas teses de autores respeitáveis para designar uma realidade cultural que só agora, tantos séculos depois, começa a dar sinais de algum cansaço e que muitos descrevem pejorativamente como construção eurocêntrica do mundo. Um mundo que fomos os primeiros a ver como ele é fisicamente, a pôr de lado as fantasias em que as gentes o viam apoiado na carapaça de uma tartaruga, o mundo que passámos a latim nos primeiros dicionários de um grande número das suas falas.
Vem isto a pretexto da excitação em que fiquei quando, há um ou dois meses, tropecei num livro intitulado “A invenção do Ocidente” *. Com o subtítulo “Portugal, Espanha e o nascimento de uma cultura” - que estou convencido nem existir na edição original.
A inclusão da Espanha - relativamente secundária em relação ao nascimento dessa cultura -, nem sequer me surpreende, tão habituado que estou aos apoucamentos da nossa história colectiva. Com a colaboração activa de muita da “nossa” historiografia, reservam-nos à aceitação da culpa, até do que de mau nunca fomos autores, ou à quase boçal demanda por temperos, na mais generosa das hipóteses.
O autor, italiano, apenas lhe junta a Itália na disputa do que os portugueses fizeram.
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* Alessandro Vanoli, "A invenção do Ocidente - Portugal, Espanha e o nascimento de uma cultura", Edições 70, 2026

tamino


 

pojan



 

sábado, 4 de abril de 2026

vez por outra somos melhores do que pensamos

Alguns, pelo menos.

Quando, por exemplo, não ficamos à espera que o estado com todos os seus meios, faça aquilo que seria suposto fazer.

A falta de limpeza de placas toponímicas e de trânsito, um pouco por todo o território, é deplorável.

O mesmo equipamento usado por muitas juntas de freguesia para ensopar de herbicidas as bordas da estrada, não teria melhor uso na limpeza regular destas placas?



ben bostick


 

pojan


 

quarta-feira, 1 de abril de 2026

dos autores "obrigatórios" no ensino da língua

Ao que percebi, o governo terá sujeitado a consulta pública mais uma proposta de revisão de autores de leitura obrigatória no âmbito do espaço curricular dedicado à língua portuguesa. Desta vez, propondo a exclusão de José Saramago.

Os dramas suscitados por estas exclusões sucedem-se de ministério para ministério. E, por costume, recrutam um largo número de vestais numa arrebatada gritaria de adjectivos que viram as costas ao que deveria estar em causa: a aquisição de competências linguísticas em contexto escolar.

A esse propósito - sem de maneira nenhuma querer fazer coro com o acessório –, talvez valesse a pena lembrar que José Saramago teve que ler António Vieira para escrever como veio a escrever. Será isso razão para o substituir pelo padre nas "leituras obrigatórias"?

Melhor seria deixar de prescrever autores como quem receita antibióticos e reflectir nos métodos que melhor poderiam favorecer a aquisição das tais competências linguísticas que a tantos falecem. É isso que fica sempre por fazer e é essa a função da escola.

À sua maneira, o método - se é que lhe podemos chamar assim - favorece o comércio editorial, os herdeiros dos autores, os autores de resumos de leitura e os professores frequentemente incapazes de dar a conhecer aos alunos aquilo que poderiam vir a amar. Enfim, sugerindo leituras que potenciem as suas capacidades de interpretar e exprimir uma ideia sem os virar contra o texto “obrigatório”.

O método e o modelo de avaliação de competências linguísticas é o que precisa ser reflectido.

Até lá, era bom que parassem com a gritaria afectada a pretexto de autores. 
Nunca levaram a nada além de mais do mesmo.



autores "incómodos"

A pretexto das leituras obrigatórias no âmbito do espaço curricular dedicado à língua portuguesa.

Aquilo com que as escolas devem saber lidar é, no caso, com a promoção das competências linguísticas dos seus alunos.

O Sr. Professor Carlos Reis não trabalhará com alunos do ensino secundário. Talvez os alunos do ensino superior lhe ofereçam pretexto para ser irreflectido.

Mas os comentários que venho lendo acerca deste assunto da parte de muitos professores de Português deixam-me a pensar até que ponto serão capazes de superar os seus preconceitos e reflectir sobre os resultados do seu trabalho.

Já agora: o magnífico Mário de Carvalho também é comunista. E o nobel é o que é... [devemos reservar as capitulares para coisas como a coluna de Trajano...].

E novamente, em benefício da contenção: Saramago não incomoda rigorosamente ninguém. Nem sequer acredito que incomode Sousa Lara...

soko


 

pojan


 

segunda-feira, 30 de março de 2026

a parábola finlandesa

Até à “operação especial” que visava a defesa dos ucranianos de origem russa contra a guerra civil que lhes era movida pelo governo central de Victoria Nuland -, em 2022, na Ucrânia, e à consequente imposição de sanções por parte dos “aliados”, a Finlândia mantinha profundos laços económicos com a Rússia.

Essa relação assegurava-lhe estabilidade através do comércio e proporcionou-lhe a invejável prosperidade com que financiava um dos melhores sistemas de ensino e um generoso estado social. Era o seu principal mercado de exportação até 2021 e, muito importante, beneficiava de energia barata.

A partir de 2022, com a adesão à OTAN, a adopção das sanções e o corte quase total das relações económicas com a Rússia, necessitou de substituir os combustíveis russos com alternativas muito mais dispendiosas. Enfrenta hoje uma queda do PIB, uma séria recessão técnica, subida da taxa de desemprego, queda de exportações, deficit na balança corrente e inflação.

Para amortecer o impacto de todas estas coisas, assim como o aumento abrupto das despesas com defesa – uma consequência da adesão à OTAN… -, a Finlândia endividou-se e a dívida pública já supera percentualmente a nossa. Estou convencido que a economia finlandesa continuará a definhar nos anos mais próximos apesar da adopção de medidas de austeridade e rigor fiscal
Poucos se lembrarão já das humilhações a que os finlandeses nos sujeitaram durante a troika, entre 2011 e 2014. (E que levaram a que alguém se lembrasse de fazer um vídeo que vi com enorme constrangimento e vergonha, intitulado “O que os Finlandeses precisam de saber acerca de Portugal” ).

Uma memória que oferece desmaiado conforto quando, tão periféricos quanto os finlandeses, com a UE somos arrastados para os mesmos erros, alinhando com o crepúsculo de uma superpotência governada por cães danados.

Em Bruxelas ninguém dará ouvidos a Bruno Maçães e poucos o terão lido.



dave brubeck


 

pojan