segunda-feira, 5 de outubro de 2026

de como afonso costa não parava quieto com os pés

 “Os ódios aumentam. Os republicanos torturam os presos. Mas que fariam os monárquicos se vencessem? A monarquia, nesta altura, seria de fugir... E a república? A república - diz Junqueiro - não se atura nem se pode aturar!


Foram os do governo provisório que lhe imprimiram o feitio intolerante e jacobino - foram o Afonso Costa, o Bernardino, o Camacho e o António José. Foi principalmente o Afonso que lhe colou a máscara que ela nunca mais pôde arrancar. Fê-la à sua imagem e semelhança: materialista e orgíaca, acolhendo de braços abertos a pior escória dos partidos monárquicos - os que não tinham convicções e queriam continuar no gozo dos seus interesses.


É o tipo do bicho de escritório que julga tudo segundo a papelada e mete a vida viva dentro de articulados. Advogado cábula, foi para o governo, com os seus amigos, depois duma orgia à luz da manhã e com a gola do casaco levantada. Ora o país não é apenas sério: é trombudo. Remexeu nas cousas e nos homens, resolvendo dar cabo do cristianismo no Palácio de Cristal no Porto - daquele Porto de granito espesso – em duas ou três gerações. Resultado: quem reformou os padres foi ele – não foram os arcebispos. Quando acabou de pegar fogo ao pais fez-se de largo a vê-lo arder... Chegou, assim, a ser um símbolo - o tipo das gerações de Coimbra, que criaram, com o código e frases, uma alma ao lado da vida. Tudo o que fez cheira ao saguão onde o fez - às conversas do empregado da Boa Hora, do jornalista azedo e do Alexandre Braga, que fez da existência uma orgia - com esplendidos discursos...


Mas reconheço que foi o único homem de Estado da república e o sonho dos jacobinos de que resolveu, como ele soube interpretar, Lisboa e do Porto. Só lhe faltou seriedade e grandeza. Fez tudo a rir. Eu tenho sempre medo dos homens que não querem Deus, para ficarem mais à vontade no mundo: desatam então aos pulos como bestas. É certo que tenho conhecido alguns seres extraordinários sem Deus nem religião. Mas esses tipos excepcionais têm Deus lá dentro, quer queiram, quer não queiram, e às vezes mais luminoso do que os que andam sempre a falar n'Ele, como se Deus fosse uma cousa de trazer por casa.


Dizem que é um homem inteligente. A sua inteligência, até hoje, não tem passado de esperteza. Só lhe reconheço uma superioridade incontestável: é um parlamentar e não se prende com escrúpulos. O Afonso – dizem - é um homem com quem todos se podem entender para os seus negócios.


Não é só o medo que o tem afastado de Lisboa. Às repetidas instâncias dos seus amigos para regressar à política recusou sempre, recomendando uma certa moralidade (!) - o que fazia dizer a António José de Almeida: - Eu, se me chamassem para o meu país, voltava logo, ainda que fosse para ser capitão de ladrões!


Mas não é só medo que o tem afastado. - Porque não vais para Lisboa? perguntou-lhe o Montalvão, que o encontrou em Paris. Não, que lá até os rapazes de catorze anos andam com bombas nas algibeiras. - Andam, mas foi ele o culpado - foi ele que as forjou. Não é, porém, só o medo; os que fingem que o querem a governar, detestam-no. Armam-lhe logo dificuldades. Sabem perfeitamente que ele viria ocupar o primeiro lugar... A hora é dos medíocres.


Enfim, um esplendido homem de estado para a destruição. Audácia não lhe falta, quando não lhe falta, quando não encontra pela frente outro mais audacioso que ele. Então recua - no dizer pitoresco do Malva do Vale. No julgamento de Júlio de Campos, em Guimarães, quis enfrentar-se com o papudo e irónico cónego José Maria Gomes, que tinha fama de piadista e parecia um padre do tempo do Bocage. Ele era advogado, o outro testemunha. E o Afonso Costa a certa altura do interrogatório espicaçou-o.


- Aí está o senhor a meter uma no cravo outra na ferradura...


Resposta imediata, com um sorriso ainda por cima:

- É que o senhor doutor não está com o pé quieto!... “

Raul Brandão, "Memórias", Relógio d'Água, 2018, pp. 367-69




jarvis cocker


 

tessalónica



 

terça-feira, 22 de setembro de 2026

jorge palma

 


quillbeuf-sur-seine


 

a europa do zé carlos

Ontem pela manhã, na rádio, ouvi um painel de pessoas sobre o que me pareceu ser o da eminência de uma guerra na Europa, as necessidades de defesa ou qualquer coisa do género - não ouvi o programa desde o início.

Todos - mesmo pessoas que me habituei a considerar inteligentes, como a Helena Matos - pareciam falar na convicção de que uma guerra com a Rússia é inevitável e eminente.
Um dos cavalheiros era tropa. E foi nessa qualidade que deu conta da aflição de saber que o que a Europa precisa para se defender só os americanos podem vender.

Todos pessoas adultas. Enfim, tirando um tal Zé Carlos, um jornalista do "Observador" que suspeito ser um rapazito. Não por defender a ideia de que os russos andam danadinhos para espatifarem os cabos que passam pela nossa costa - o que fez com galhardia -, mas porque lhe percebo perfeitamente a acne no tom de voz.

Com a esquizofrenia marcial que tomou conta da Europa virada a leste, ninguém parece especialmente apreensivo com as consequências do conflito que está a acontecer a oriente.

E se alguns conseguem sentir indiferença pelo facto de uma superpotência se perceber refém de um pequeno estado que tem por passatempo nacional reduzir a escombros as casas de todos os seus vizinhos, eu pergunto-me se podemos continuar a fingir que não se passa nada. Se não por um módico de compaixão, ao menos por interesses vitais ao bem-estar colectivo, não apenas da Europa mas do mundo.

Lembrei-me disto porque hoje à hora de almoço o Zé Carlos voltou a atacar com os russos.





gianni marchetti