quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

o relógio do sogro

"A paixão deste homem é não ter um livro de jeito. G... so escreveu três folhetos,  e por af ficou o seu talento. Espremido não deu mais. É no entanto uma figura epigramática e nítida de conversador e um   tipo curioso de boémio lisboeta. Dormiu nas escadas dos prédios, pertenceu ao grupo que o Fialho arrastava pelas ruas até antemanhã. dispersando com ele o oiro da sua esplendida fantasia. Para essa meia dúzia de boémios improvisou o grande escritor as suas melhores sátiras. Uma noite, no café. G... aludiu à sua obra, e logo do lado o Fialho acudiu: 

- A tua obra, bem sei... Vinte e cinco cartas a vinte e cinco amigos pedindo vinte e cinco tostões emprestados.

G... embezerrou. Mas passados minutos aproveitou uma pausa no diálogo para perguntar com indiferença ao Fialho, que tinha casado rico há pouco com uma mulher que gastou a vida a esperá-lo no fundo da província:

- Ó Fialho, fazes favor de me dizer que horas são... no relógio de teu sogro?"

Raul Brandão,  "Memórias", Relógio d'Água, 2018, p.22




M

la fugitive

exilles


 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

rila


 

a ver o país por uma janela do metro

Hoje, num programa de comentário da SIC-N, a certa altura atiraram-se palpites acerca da prosperidade relativa de Leiria. Uma senhora garantia que era muito pobre. Três cavalheiros garantiam que não era dos distritos mais pobres e tendiam para achar que seria remediado.
 
Dei por mim a perguntar-me até que ponto conheciam o país que comentam semanalmente. Será que viajam sempre de avião entre Lisboa, Porto e Faro (esta última cidade em viagem sazonal)? Afundei-me em perguntas destas. Será que são capazes de localizar a cidade num mapa? Saberão que fica no litoral? E se sabem, não seria isso suficiente para poderem suspeitar que entre Aveiro e Leiria poderia haver valores de poder de compra acima da média nacional?
 
No mesmo programa, um dos tais cavalheiros reafirmou – fá-lo pelo menos uma vez por semana - que Portugal é um país “profundamente racista, muito mais que no estrangeiro”. Esta e muitas outras afirmações igualmente temerárias nunca são suportadas por qualquer fonte ou evidência. De resto, quando, no caso, “googlamos” o assunto somos agradavelmente surpreendidos por evidências que sugerem precisamente o contrário. Isso não impediu o comentador que se senta ao lado, em um outro episódio, confirmar o alegado “racismo dos portugueses” porque “bem viu quando andou de metro”.

Vão os senhores agora achar que faço caricaturas. Não, não faço. E não me admirava nada se fosse um dos programas mais vistos no seu género.



coline rio,barbara pravi

göreme