sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
afonso costa: a maior besta da república não para quieto com os pés
Foram os do governo provisório que lhe imprimiram o feitio intolerante e jacobino - foram o Afonso Costa, o Bernardino, o Camacho e o António José. Foi principalmente o Afonso que lhe colou a máscara que ela nunca mais pôde arrancar. Fê-la à sua imagem e semelhança: materialista e orgíaca, acolhendo de braços abertos a pior escória dos partidos monárquicos - os que não tinham convicções e queriam continuar no gozo dos seus interesses.
É o tipo do bicho de escritório que julga tudo segundo a papelada e mete a vida viva dentro de articulados. Advogado cábula, foi para o governo, com os seus amigos, depois duma orgia à luz da manhã e com a gola do casaco levantada. Ora o país não é apenas sério: é trombudo. Remexeu nas cousas e nos homens, resolvendo dar cabo do cristianismo no Palácio de Cristal no Porto - daquele Porto de granito espesso – em duas ou três gerações. Resultado: quem reformou os padres foi ele – não foram os arcebispos. Quando acabou de pegar fogo ao pais fez-se de largo a vê-lo arder... Chegou, assim, a ser um símbolo - o tipo das gerações de Coimbra, que criaram, com o código e frases, uma alma ao lado da vida. Tudo o que fez cheira ao saguão onde o fez - às conversas do empregado da Boa Hora, do jornalista azedo e do Alexandre Braga, que fez da existência uma orgia - com esplendidos discursos...
Mas reconheço que foi o único homem de Estado da república e o sonho dos jacobinos de que resolveu, como ele soube interpretar, Lisboa e do Porto. Só lhe faltou seriedade e grandeza. Fez tudo a rir. Eu tenho sempre medo dos homens que não querem Deus, para ficarem mais à vontade no mundo: desatam então aos pulos como bestas. É certo que tenho conhecido alguns seres extraordinários sem Deus nem religião. Mas esses tipos excepcionais têm Deus lá dentro, quer queiram, quer não queiram, e às vezes mais luminoso do que os que andam sempre a falar n'Ele, como se Deus fosse uma cousa de trazer por casa.
Dizem que é um homem inteligente. A sua inteligência, até hoje, não tem passado de esperteza. Só lhe reconheço uma superioridade incontestável: é um parlamentar e não se prende com escrúpulos. O Afonso – dizem - é um homem com quem todos se podem entender para os seus negócios.
Não é só o medo que o tem afastado de Lisboa. Às repetidas instâncias dos seus amigos para regressar à política recusou sempre, recomendando uma certa moralidade (!) - o que fazia dizer a António José de Almeida: - Eu, se me chamassem para o meu país, voltava logo, ainda que fosse para ser capitão de ladrões!
Mas não é só medo que o tem afastado. - Porque não vais para Lisboa? perguntou-lhe o Montalvão, que o encontrou em Paris. Não, que lá até os rapazes de catorze anos andam com bombas nas algibeiras. - Andam, mas foi ele o culpado - foi ele que as forjou. Não é, porém, só o medo; os que fingem que o querem a governar, detestam-no. Armam-lhe logo dificuldades. Sabem perfeitamente que ele viria ocupar o primeiro lugar... A hora é dos medíocres.
Enfim, um esplendido homem de estado para a destruição. Audácia não lhe falta, quando não lhe falta, quando não encontra pela frente outro mais audacioso que ele. Então recua - no dizer pitoresco do Malva do Vale. No julgamento de Júlio de Campos, em Guimarães, quis enfrentar-se com o papudo e irónico cónego José Maria Gomes, que tinha fama de piadista e parecia um padre do tempo do Bocage. Ele era advogado, o outro testemunha. E o Afonso Costa a certa altura do interrogatório espicaçou-o.
- Aí está o senhor a meter uma no cravo outra na ferradura...
Resposta imediata, com um sorriso ainda por cima:
- É que o senhor doutor não está com o pé quieto!... “
Raul Brandão, "Memórias", Relógio d'Água, 2018, pp. 367-69
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
dar luz
"Junqueiro quando ia para o Hotel Central, apesar de já usar um casaco velho, dizia mostrando o charuto opíparo:
É o único vínculo que me liga ao Diabo.
E da Universidade de Coimbra:
Para ela dar luz, era preciso deitar-lhe fogo.
Em Abril de 1919 contou-me:
Quando Afonso Costa esteve na Suíça preguei-lhe um sermão que durou oito dias. E como, quando ele está por baixo, não há ninguém mais amoldável, ouviu-me e concordou comigo. Julguei a política toda mudada e a república salva. Pois quando se viu livre de mim fez exactamente o contrário.
Fala sempre dos homens da república com grande amargura e desprezo:
- Todos se anicham nos melhores lugares, eles e as famílias. Fora Almeida e mais dois ou três, o resto devora."
Raul Brandão, "Memórias ", Relógio d'Água, 2018, p. 323
terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
"dentro de certos limites"
provesende
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026
proporções
E logo o marquês de Alvito:
- A engordar dessa maneira, onde queria V.M. que o metessem?
Raul Brandão, "Memórias", Relógio d'Água, 2018, p.304
provesende
domingo, 15 de fevereiro de 2026
morrer entre as árvores
Foi hoje o enterro do Taborda. Aqui há tempos caiu de cama e disse a alguém a chorar: - Desta vez é certo! Sinto que vou morrer... E a vida é tão linda!
Tinha oitenta e cinco anos. Os jornais contaram dele esta coisa enternecedora: Duma vez foi recitar um monólogo a um asilo de raparigas da sua terra. O monólogo começava assim: «Boas-noites, meus senhores...” Entrou no palco e disse a frase:
Boas-noites, meus senhores...
E as meninas do asilo, que o conheciam todas, levantaram-se e responderam à uma:
-Muito boas-noites, senhor Taborda!
A morte engrandece sempre, mas acho horrível acabar na Rua dos Calafates, entre a convenção e a mentira, andar por cima, andar por baixo, coroas secas, fotografias e recordações de bastidores. Um velho tem direito a morrer entre árvores, em plena natureza. Os bichos, quando sentem aproximar-se o fim, procuram um buraco para se esconder... São mais felizes.”
Raul Brandão, "Memórias", Relógio d'Água, 2018, pp.128-129
provesende
sábado, 14 de fevereiro de 2026
nuvens de pó
"Contava o marquês de Ficalho, pai deste Ficalho, e que era vivo ainda há quinze anos, o seguinte caso, que mostra bem o medo que D. João VI tinha a Carlota Joaquina. Um dia o D. João VI ia de sege, para Sintra, Queluz, ou não sei para onde. Ao lado galopava o Ficalho, com dezasseis anos, cavalariço do rei. De repente, ao longe avista-se na estrada uma nuvem de pó, e o rei, deitando a cabeça de -fora da sege, brada:
-Parem! para trás, que aí vem a p...!
A p… - era a mulher. As palavras são textuais.”
Raul Brandão, "Memórias", Relógio d'Água, 2018, p.64
provesende
sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026
"cuidar do nosso jardim"
-E que tal. Munhoz?
-Vai-se vivendo, filho. Vamos vendendo os trastes, Olha, menino, hoje almoçámos nós um bidé - e por sinal que não estava nada mau!...
Lá no alto, no friorento Paço da Ajuda, entre gente caduca e algumas damas do passado, a rainha Maria Pia passa os dias e as noites, como uma figura de tragédia, a regar as flores dum tapete. Mataram-lhe o irmão, o filho e o neto. Pior: envelheceu. Se pára de regar, conta -um... dois... três... - A quem se refere? Ao irmão, ao rei, ao príncipe, todos assassinados? Senta-se à mesa e diz a figuras imaginárias ou aos fantasmas que se sentam ao seu lado: - Come, Luís. Não queres deste prato, Carlos? - E lá torna a regar um dia, outro dia, sempre, as flores que não reverdecem do mesmo tapete do seu quarto... E esta mulher elegante, que despertou paixões e inspirou poetas, parece uma velha actriz, sem contrato, e cheia de rugas, fora do seu meio e da sua época. Ao vê-la passar, baixando a cabeça para aqui e para acolá, no mesmo gesto maquinal, a gente supõe que o passado saiu do sepulcro e teima em sorrir--nos, com os dentes postiços e o cabelo pintado a escorrer amarelo..."
Raul Brandão, "Memórias", Relógio d'Água, 2018, p.124
saghamo ( საღამო )
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026
da bandeira portuguesa
-Tinha-se já decidido em conselho de ministros que ficasse azul e branca, mas os carbonários opuseram-se.
Corre a notícia de escândalos nas repartições. Os jornais dão a entender que há roubos e alcances. - O dinheiro para os reis - exclama João de Meneses - não corria por uma bica, mas por dezasseis!
Há, porém, alguns factos capitais que é necessário pôr em destaque: o heroísmo de Machado Santos e de alguns marinheiros; o sacrifício de dois homens dos que menos deviam à monarquia, um, de Frederico Pinheiro Chagas, levado até ao suicídio, o outro, de Paiva Couceiro, que se bateu até à última; e a atitude idealista do povo de Lisboa, defendendo os bancos e o dinheiro dos ricos, com a polícia e a Guarda completamente desarmadas.
O parecer de Guerra Junqueiro sobre a bandeira:
A bandeira nacional é a idealidade duma raça, a alma dum povo, traduzida em cor. O branco simboliza inocência, candura unânime, pureza virgem. No azul há céu e mar, imensidade, bondade infinita, alegria simples. O fundo da alma portuguesa, visto com os olhos, é azul e branco.
Desse fundo saudoso, de harmonia clara, de lirismo ingénuo, ressalta, estudai-o bem, o brasão magnânimo: em campo de heroísmo - vermelho ardente, sete castelos fortes, inexpugnáveis, cinco quinas sagradas e religiosas, e à volta, num abraço bucólico, duas vergônteas de louro e de oliveira. É o escudo marcial e rural dum povo cristão de lavradores, que semeando, orando e batalhando, organizou uma pátria. A coroa, que foi do escudo o fecho harmonioso, converteu-se há mais de dois séculos numa nódoa sinistra. Rajadas de aurora limparam-na ontem para sempre. O nobre estandarte não tem mancha. Glorifiquemos o escudo, coroemo-lo de novo com um diadema épico de estrelas: estrelas de sangue e estrelas de oiro, estrelas que cantem e que alumiem. Substitua-se apenas o borrão infame por um círculo de astros imortais.
Barca de Alva, 13 de Outubro de 1910.”
Raul Brandão, "Memórias", Relógio d'Água, 2018, pp.234-35
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026
más leituras
Raul Brandão, "Memórias", Relógio d'Água, 2018, p.150














