quinta-feira, 20 de agosto de 2026

nós e os outros

É sem o menor pudor que confesso a ilegítima vaidade de saber que foram os portugueses quem primeiro deram conta descritiva de povos, culturas e coisas exóticas a oriente.
Foi assim que li com grande interesse o “Tratado em que se contam muito por extenso as Cousas da China” de Gaspar da Cruz, o primeiro livro sobre a China publicado na Europa. E quando, na Almedina on-line, dei conta da existência de um “Tratado das Contradições e Diferenças de Costumes entre a Europa e o Japão” de um tal Luís Frois que o escreveu e concluiu em 1585 (3ª ed. “Livros de Bordo”, 2025), tratei logo de que me chegasse a casa.
São 149 páginas, já a contar com a pequena e muito interessante introdução de Rui Manuel Loureiro, seu editor.
 
É a vários títulos um livro cativante e das suas várias virtudes separo duas: (1) em nenhum momento o autor se consente quaisquer juízos de valor relativamente aos costumes de que nos dá conta, mesmo quando podemos supor que seriam nalguns casos francamente perturbantes para um clérigo do século XVI. O texto evolui sempre na estrutura de um “Entre nós [é assim], em Japão [é assado]”.
(2) Reflecte uma consciência identitária que somos muitas vezes tentados a acreditar que é relativamente recente e que tem paternidade em autores contemporâneos como George Steiner. Só muito excepcionalmente o autor fala em Portugal ou nos portugueses. Escreve (quase) sempre “Entre nós…”, “Em Europa…”, “Os Europeus”. Precisamente como no título.
Apesar das muitas edições e reedições do texto em várias línguas, Rui Manuel Loureiro dá-nos a saber que em 1993 terá havido uma primeira edição portuguesa que “apenas foi objecto de distribuição privada”.
Ainda me lembro de quando a INCM dava muito boa conta destas coisas.
Outros tempos.



illinois jacquet


 

goght ( Գողթ )




 

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

os nossos primeiros-ministros

O cavalheiro do PS-PSD que está lá agora, apareceu-me aqui na televisão a falar de um arraial qualquer no Algarve.

Tirei o som e, por mera coincidência, retomei a leitura de "O primeiro-ministro: estudo sobre o poder executivo em Portugal", de Paulo Portas e Vasco Pulido Valente, publicado em 1990.

Logo na introdução:

"Um dos pontos essenciais do estudo consistia em determinar as condições que os ministros tinham colocado aos chefes de governo para aceitarem os respectivos cargos. Boa parte dos entrevistados reagiu com surpresa à questão, pois lhe parecia estranha e despicienda. Notando ou sentindo que o facto de não terem colocado condições algumas para ingressar no governo podia parecer menos responsável, alguns dos entrevistados inventaram pseudocondições ou enunciaram condições que, pública e notoriamente, não haviam colocado aos respectivos primeiros-ministros. Sem a garantia de confidencialidade, o estudo pecaria por omitir a verdade: só a nossa interpretação podia, no caso, distinguir verdadeiras de falsas condições. O mesmo se passou com outro ponto do estudo, o de saber se os ministros escolhidos para tal ou tal ministério tinham, ou não, políticas sectoriais ou, pelo menos, uma ideia dos problemas que aceitavam resolver e princípios de acção. A maioria pretendia que sim, sem mais. Na nossa interpretação, a maioria não tinha qualquer política definida ou tinha apenas uma ideia muito vaga do que fazer no início das suas funções.

Para evitar polémicas desnecessárias, decidiu-se não dizer os nomes dos ministros; só o respectivo número. Identificaram-se as pastas, mas não se atribuem as declarações.
...

Nenhum dos programas, excepto um, contém indicação expressa da prioridade das políticas. São listas de intenções, sector a sector, por vezes sem existir sequer o cuidado de marcar um limite geral comum. Naturalmente, essa colagem de intenções sectoriais não parece exequível em simultâneo. A única excepção regista-se no primeiro Governo do Dr. Francisco Pinto Balsemão, em que há prioridades gerais a habitação e a saúde."

sharon van etten

 


garni ( Գառնի )