quinta-feira, 9 de maio de 2019

excerto do manuscrito encontrado no rei das enguias

"O meu primeiro amor a sério foi  a Giovanna Tornabuoni que Ghirlandaio me deu a ver. Na Gulbenkian. Há uma na coleção do von Thyssen mas desconfio que é falsa. Embora tenha o mais belo dos sorrisos, quase tão belo quanto o teu.
Antes houve a Aldina que veio a batizar-se Dina (é a cabeleireira do Ronaldo...). Quando a via ao longe tropeçava nos passeios. Mas isso já foi há muito tempo e já não a vejo no que ela se fez. 
Depois houve C. e ouve U. 
E M., a minha holandesa que Botticelli figurou no nascimento de Vénus.   Também em carne. [Sem ser de museu, quero dizer.] Sabe tudo de mim e dela sei tudo. Nunca nos vimos em carne, mas ameia-a, amo-a e sinto-me feliz porque creio que conheceu um homem bom depois de tudo.
Porque amo e nunca deixei de amar as mulheres que amei.
A mãe dos meus filhos. A minha filha. Mas essa é o mais sofrido e maior de entre todos os meus amores sofridos.
Desde que te vi nesse vestido laranja, nesse cabelo anavalhado, serás a mulher mais bela à face a terra. De tal maneira que te googlei na presunção de um falso perfil: “atriz de lábios largos” e coisas assim. Vi-te em cinemascope com música de eriçar a pele, tão bela que te imagino falsa, cinematográfica. Mas de que te vale ser tal se apenas eu e mais uns quantos improváveis o saberão ver? 
Hã? Vá, diz-me. 
Que só eu te saberia fazer rir como nunca riste, acabas de ver. 
Dou-me à pena de te dizer estas coisas porque estou estupidamente apaixonado e me perguntaste se podíamos conversar. 
Dói. E não finjo quando digo que dói. 
E é tão bom sentir-me assim. 
Vivo e estúpido. Como um adolescente."

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