segunda-feira, 9 de dezembro de 2019
“O perdão só pode ser oferecido em determinadas condições, e uma cultura de perdão incute estas condições na alma individual. Podemos perdoar aqueles que nos ofenderam apenas se estes reconhecerem a sua falta. Tal reconhecimento não é alcançado por se dizer ‘sim, é verdade, foi isso que fiz’. Requer penitência e expiação. Mediante estes atos de auto-humilhação, o malfeitor aproxima-se da sua vítima e reestabelece a igualdade moral que possibilita o perdão. Na tradição judaico-cristã, tudo isso é bem conhecido e está incorporado nos sacramentos da Igreja Católica Romana, assim como nos rituais e na liturgia do Yom Kippur. Herdámos dessas fontes religiosas a cultura que nos permite confessar as nossas faltas, recompensar as nossas vítimas e responsabilizarmo-nos uns aos outros em todas as questões em que a liberdade da nossa conduta possa prejudicar aqueles que em nós depositam confiança.
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…[U]m governo responsável não vem das eleições. Vem do respeito pela lei, do espírito de serviço público e de uma cultura de confissão. Pensar que existe uma ligação puramente acidental entre estas virtudes e a nossa herança judaico-cristã é viver no mundo da lua. É não ter em conta a cultura que, no decurso dos séculos, se concentrou na prática do arrependimento. Compreender isso na minha própria vida fez-me vê-lo com ainda melhor clareza no contexto da política. Este aspecto da condição humana é precisamente aquilo que os sistemas totalitários do século XX negaram. O desejo de o negar subjaz à reviravolta anticristã da União Europeia e à ditadura manhosa das suas elites.
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Quaisquer que sejam as nossas convicções religiosas e privadas, somos os herdeiros colectivos de coisas simultaneamente excelentes e raras, e, para nós, a vida política devia ter um objectivo primordial, o de nos mantermos fiéis a essas coisas, de modo a podermos transmiti-las aos nossos filhos.”
Roger Scruton, Como ser um conservador, ed. Guerra & Paz, 2018, pp. 34-35
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