"Na receção perguntaram-me se sabia de cor o meu número do cartão de cidadão. Disse que sim, sabia, e a senhora dispensou-se de o verificar, certamente porque lhe inspirei confiança suficiente para acreditar não ser surpreendida com a mobília toda escavacada na manhã seguinte. Ou então por causa do covid, não sei…
Seja como for, adormeci a pensar na sorte que eu tive com o meu número de cidadão. Redondo, fácil de decorar, é um número bem jeitoso. Pergunto-me o que farão quando eu já não precisar dele, digamos assim. No caso dos automóveis parece que os números são reciclados ao fim de algum tempo. Três pares alfanuméricos dão para a vida útil de muitos automóveis. Mas sinto-me dividido nesta coisa da reciclagem dos números de cidadão. Por um lado, acho um desperdício não reutilizarem o meu número. Por outro, acho que ao fim deste tempo todo dei-lhe bom nome e uma certa reputação. Não me agrada portanto a ideia de que o possam entregar a um gabiru qualquer, capaz de rebentar com as mobílias dos hotéis ou outras patifarias do género. Mas não sei mesmo o que é que o senhor ministro da administração interna anda a fazer com os números de cidadão. Eu fiquei com um número aproximado dos cinco milhões. Partindo do princípio que - embora sejamos dez milhões -, sempre andaram por aqui alguns milhões antes de nós, não é completamente descabida a suposição de que andem a reutilizar os números, tendo-me cabido um número em segunda mão.
A numeração dos cidadãos, como está de ver, é um caso mais bicudo do que possa parecer à primeira vista e estou certo que não será pêra doce para os vários secretários de estado da administração interna que se ocuparão do assunto. Mas agora imaginem o mesmo problema em casos como o do panteão nacional. Embora nunca tenha lá ido, a acreditar nos jornalistas, aquilo ainda deve ser um casarão de respeito se considerarmos as festas de arromba que por lá acontecem. Mas por muito grande que o imagine ou me façam acreditar que seja, não entendo como se possa conceber um espaço que acolha todos os grandes de Portugal que se vão sucedendo no tempo. Eu até consigo imaginar aquilo a modos que um silo de altura sem fim, a subir ao céu numa babel das imortalidades. Até consigo supor uns cacifos em pedras menos sumptuosas das que se acharam para Pedro e Inês. Mas como acomodar “todos”, sim, “todos” os que são “os melhores do mundo”, como repetidamente vem dizendo o presidente sousa acerca de nós todos? Sim, todos. Bem sei que, devidamente incinerado, o doutor soares cabe perfeitamente numa caixinha de costura. Mas será que a família aceita que venha a ser menos confortavelmente acomodado que o senhor Eusébio, o mais recente inquilino?
Questões que me vão tirando o sono e que mereciam melhor atenção de nós todos. Sim, todos."
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