sábado, 19 de setembro de 2020

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Marcelo Rebelo de Sousa

O estatuto dúbio da função presidencial costuma favorecer alguns exageros e extrapolações. Certo é que, por turva que fosse a serventia do cargo, era claro que o cargo não servia para: tirar fotografias com transeuntes; mudar de cuecas; mergulhar no mar; fingir que se salva banhistas; dizer convulsivamente que Portugal é “o melhor do mundo” no que calha, da astronomia ao desentupimento de fossas; sorrir imenso; proferir inanidades; condecorar toda a gente, incluindo o 7º classificado num torneio de macaca em Valladolid; abraçar pedintes e desinfectar-se de seguida; louvar a boa acção de um pedinte e enganar-se no pedinte; dar palestras sobre virologia; abraçar o rato Mickey num aeroporto; prestar vassalagem a Fidel Castro; submeter a rainha de Inglaterra a monólogos confrangedores; assistir a partidas de futebol; entrar nas “entrevistas rápidas” após uma partida de futebol; subscrever a posição do Governo em qualquer assunto que possa suscitar polémica; não emitir opinião sobre coisa nenhuma que realmente importe; em casos de facto graves pedir esclarecimentos cabais e rezar para que nada se esclareça; viver exclusivamente aflito com a própria popularidade, numa obsessão com o voto das pessoas e com total indiferença às respectivas vidas – e tudo isto na condição de as televisões filmarem.

Fora das televisões, o prof. Marcelo não existe. O prof. Marcelo não é um presidente. É um “entertainer”, para cúmulo sem particular talento para cantar e dançar (sim, também já assistimos a tentativas): os portugueses adoram “entertainers” coxos. Num mundo ideal, e noutro meio social, estaria a fazer furor em “reality-shows” alheios. Assim, transformou o mandato no “reality-show” dele. É complicado garantir que não terá comprometido a presidência para sempre, e que algum dia o cargo volte a merecer um vestígio de respeito e não este simulacro de camaradagem infantil.

O prof. Marcelo ainda não é candidato. Será candidato. E ganhará as eleições, não importa se à primeira se à segunda. E desempenhará novo mandato, que só não será pior do que o vigente porque pior é impossível. E não há impossíveis para o melhor presidente do mundo.
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Alberto Gonçalves, As “presidenciais” para fazer monárquicos, Observador, 19/9/2020

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