quarta-feira, 30 de setembro de 2020

“O meu irmão diz que o teu tio, nas aulas, é ponteiro para um lado, cadeira para outro, livro de ponto pelo ar, um inferno. Nem as piadas dele já conta. Um grupo de alunos queixou-se dele, e diz-se que os padres o chamaram e o ameaçaram de despedi-lo se aquilo continuava. Julgas que ele se ralou? Pelo contrário, foi muito pior. Agarrou no pobre do padre Augusto por um braço, levou-o de rastos, de classe em classe, obrigou-o a dizer quem tinha feito queixa. O padre esbracejava e gritava, foi um escândalo, mas ninguém lhe acudia, com medo do bengalão do teu tio. E o padre Augusto lá ia, coitado, coitado é como quem diz que é um patife que merecia aquilo e muito mais, e apontava, foi aquele, foi aquele e mais aquele. Então, o teu tio chamou os rapazes todos e ali mesmo diante dos padres, declarou que os queixosos estavam expulsos do colégio, não por terem feito queixa dele, mas por não serem homens, serem uns invertidos que não tinham coragem para defrontá-lo, se tinham alguma coisa contra ele. Os rapazes ficaram furibundos. OS padres também. O padre Augusto torcia as mãos e dizia: - Senhor Tenente, modere a linguagem. – E o teu tio logo: - Modero o quê? Modero o quê? Os senhores é que me deviam agradecer que eu seja professor neste antro de perversão. No dia em que eu sair daqui, não há mais homens nesta casa. Os senhores – e voltava-se para os padres – fizeram voto de não ser, e estes rapazes, daqui a pouco, deixam todos de saber se o cu é deles ou dos outros. – Nisto, o padre Augusto desmaiou. E o teu tio voltou-se para a rapaziada e perguntou: - Querem um homem aqui ou não querem? – E a rapaziada em coro respondeu: -Queremos! Viva o Senhor Tenente! – Mas a pancadaria nem por isso diminuiu. Os padres nem lhe falam. E não o puseram na rua. Mas diz-se que, agora em outubro, quando ele lá voltar, está despedido.
-E os que o meu tio “expulsou”?
-Claro que continuaram no colégio. Mas não queiras saber o que o teu tio lhes faz. Chamadas, nenhuma. Só os exercícios escritos que as classes fazem. Nunca lhes dirige a palavra que não seja: a menina para aqui, a menina para ali, Dona Micaela, Dona Maria, as senhoras não se sentem bem? E o pior é que a vingança dele pegou, E ninguém trata os desgraçados senão assim. O meu irmão é Micaela." 


Jorge de Sena, Sinais de Fogo, Livros do Brasil, 2017, pp. 88-99

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