“Para começar, e se a tecnologia o permitir, talvez o mais seguro seja enviar música [para comunicar com inteligência extraterrestre]. Esta linguagem poderá ser a melhor que temos ao nosso dispor para explicar como somos aos outros habitantes do espaço, e com menor margem de ambiguidade. Por mim, votaria em Bach, toda a obra de Bach, transmitida para o espaço vezes e vezes sem conta. É claro que seria bazófia da nossa parte, mas desculpar-nos-ão com certeza por querermos mostrar a nossa melhor faceta no início de semelhante relação. As verdades mais duras de roer podem ficar para depois. E- justiça nos seja feita – a música daria uma imagem mais fiel daquilo que realmente somos do que uma boa parte das outras coisas que poderíamos enviar, como por exemplo a revista Time, ou uma história da ONU, ou os discursos do presidente. Poderíamos, é claro, enviar a nossa ciência, mas imaginem só os estremecimentos horrorizados do lado de cá quando daqui a duzentos anos chegassem os comentários corteses da resposta. Os temas mais actuais que temos para oferecer, hoje de interesse candente, estarão então ultrapassados, serão irrelevantes, talvez mesmo ridículos. A meu ver, deveríamos ficar-nos pela música.”
Lewis Thomas, As vidas das células – Apontamentos de um observador dos factos biológicos, Relógio d’água, 1993, pp. 56-57
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