“O meu país – notas sobre nacionalismo” * não será o livro mais interessante de Maria Filomena Mónica. Vale ainda assim por algumas curiosidades que me eram estranhas e que complementam o que já sabia daqueles que são, bem vistas as coisas, os avoengos da canalha que continua a albardar-nos:
“Alguns intelectuais, nomeadamente
Fernando Pessoa, logo exprimiram reservas quanto ao novo regime. Num texto
intitulado ‘Reincidindo’, datado de Maio de 1912, eis o que ele escreveu: ‘O republicanismo
que fará a glória da nossa terra e por quem novos elementos civilizacionais
serão criados, não é o actual, desnacionalizado, idiota e corrupto, do
tripartido republicano. De modo que é bom fixar isto, também: que, se ser
monárquico é ser traidor à alma nacional, ser correligionário do sr. Afonso
Costa, do sr. Brito Camacho, ou do sr. António José de Almeida, assim como de
vária horrorosa subgente sindicalista [sic], socialística [sic] e outras
coisas, representa paralela e idêntica traição’” (p.130)
Não terá sido acaso o bom acolhimento
popular de Sidónio Pais, primeiro no golpe, depois na instauração da ditadura.
E é, parece-me, legítimo supor que esse acolhimento terá sido inspirado tanto
pelo carisma de Sidónio quanto pelo ódio a Afonso Costa, um patife nunca adequadamente
julgado pela historiografia de inspiração maçónica:
“Oriundo de uma modesta família da Beira,
ninguém entendia como Afonso Costa podia levar em França uma vida tão luxuosa,
pelo que logo começaram a aparecer rumores de que teria enriquecido com base em
contratos feitos com as empresas estatais para as quais trabalhava como
advogado” (p.151. Em nota, a autora acrescenta que “[e]m 1921, Afonso Costa
fora apanhado numa fraude financeira conhecida como o ‘empréstimo’ dos 50
milhões de dólares”. Na sua obra de referência, o Oliveira Marques das mesmas
lojas, por exemplo, faz uso de uma extraordinária condescendência na descrição
da vida política deste canalha).
Como fica bem à vista, os processos, a geografia, a genealogia, os amigos, são em tudo rigorosamente iguais: os bandidos continuam a ser “republicanos, laicos e socialistas” **, acima da lei no que respeita a contratos e empresas públicas e acima da grei no que respeita a toda a espécie de incumprimentos e privilégios, sejam eles os do momento - como as vacinações prioritárias, ou a utilização exclusiva de um restaurante que aos outros é interditado -, sejam todos os mais perenes.
“Se entre a velha guarda Afonso Costa
ainda tinha amigos, no país inteiro era odiado. Os operários, que logo o tinham
apelidado de ‘racha sindicalistas’, após terem observado com espanto a forma
como, em 1911, a República os tratara –nomeadamente com o chamado ‘decreto-burla’
(contra as greves) deixaram de votar nele. Aliás, ao contrário do sucedia por
toda a Europa, o sufrágio universal ia-se tornando em Portugal um privilégio do
passado […]. Entretanto, a abstenção crescia.” (p. 152)
Da Coimbra que o parira e de onde Afonso
Costa sairia lente em velhacaria, dizia Junqueiro com imensa graça:
“Para [a Universidade de Coimbra] dar luz,
era preciso deitar-lhe fogo”. E dos seus camaradas republicanos terá dito, nas
palavras de Raul Brandão, “com grande amargura e desprezo”:
“-Todos se anicham nos melhores lugares, eles e as famílias. Fora o Almeida e mais dois ou três, o resto devora.” (em Raul Brandão, Memórias, Relógio d’Água, 2018, p. 323. Sobre a semelhança da actual corja com os fautores da instauração da República, vale a pena continuar a ler Brandão a pretexto da evocação que dela faz o republicano Guerra Junqueiro [pp. 321-28])
“Em 1915, em a ‘Oligarquia das Bestas’,
Fernando Pessoa afirmava que a República era apenas ‘uma orgia lenta de
bandidos estúpidos’. Desprezava em particular Afonso Costa sobre o qual disse: ‘Não
podendo A[fonso] C[osta] fazer mais nada, é homem para mandar assassinar. Tudo
depende do seu grau de indignação.’ Existia cada vez mais gente a olhar o
regime com desprezo. Parte do problema residia no fosso que separava as expectativas
que os republicanos tinham criado e as acções empreendidas uma vez no poder.”
(p. 154)
Quando Fernando Pessoa especula acerca do caracter de Afonso Costa e a sua propensão para ordenar o assassínio dos opositores, não será certamente por falta de inspiração em ocorrências coevas. O patife tinha a Formiga-Branca às ordens para toda a espécie de baixezas e é muito pouco provável que fosse inocente da autoria moral do assassínio de Sidónio. Até ao seu auto-exílio, vivia aterrorizado com a ideia de possíveis retaliações e chegou mesmo a atirar-se pela janela de um eléctrico que ia a nove ao som da explosão causada por um curto-circuito do mesmo eléctrico. Ficou de tal maneira partido que não chegou a tomar posse como chefe do governo.
Completamente podre desta gentalha, a porcaria
haveria de ouvir toque de finados a 28 de Maio de 1926. Com Gomes da Costa a
cavalo e, pouco tempo depois, com outra alma de Coimbra para o deve e haver do “Estado
Novo”. A segunda república.
É já na parte do texto dedicada ao Estado Novo que M. Filomena Mónica – sociologicamente situada entre os poucos mais prósperos e politicamente de “esquerda”, atributos quase sempre acasalados desde a primeira república e que nunca enjeitou para si própria – confirma uma velha e fundada suspeita minha: os mais ricos da segunda república eram política e materialmente herdeiros dos da primeira e todos tinham em comum o facto de não fazerem a guerra. Mandavam que os pobres se matassem uns aos outros nas guerras em que eram interessados. Escreveu ela na sua habitual e desconcertante candura:
“Só ao escrever estas linhas reparo que uma das razões pela qual a guerra colonial tão pouco me afectou se fica a dever, em parte, ao facto de a maioria dos meus amigos, quase todos das classes altas e, sobretudo, de famílias salazaristas, não terem sido chamados a combater em África. Àqueles, e foram poucos, que partiram, foram sobretudo atribuídos serviços administrativos. Até o meu marido cumpriu o serviço militar sem ter posto os pés nas colónias, como aliás sucedeu no caso dos seus três irmãos mais novos. É verdade que, após o meu casamento, eu deixara de ir para Cascais, mas, se alguém tivesse morrido, tê-lo-ia sabido, quanto mais não fosse através da minha irmã Isabel.” (p. 174, o negrito é meu)
Quem viaje pelas aldeias mais humildes e desprezadas deste país, através dos inúmeros memoriais de condicente modéstia, facilmente se apercebe de onde chegavam os cerca de 9000 cadáveres da guerra colonial. Nenhum rico por lá morava. E não havia um pobre que não soubesse que os ricos não morriam nas guerras pelo império. Os filhos das “famílias salazaristas”, herdeiras directas das famílias da primeira república, auto designavam-se “resistentes”, “opositores ao regime” em nome dos pobres e “exilavam-se” em Paris. Com mesadas das respectivas famílias, evidentemente. Porque nem todos seriam tão auto-suficientes quanto Afonso Costa, ou beneficiários de amigos tão pródigos quanto o do engenheiro Pinto de Sousa.
Com o aparente propósito de comparar Oxford com Paris, a autora dá-nos notícia da decisão de se deslocar a esta última cidade em Março de 1973, escassos meses antes da alvorada da terceira república:
“A visita à capital francesa acabou por se centrar num comício da oposição ao regime. Não me lembro já do local onde isto se passava, mas creio ter sido algures perto da Sorbonne. Os oradores da sessão, que se identificavam pelo nome dos jornais onde escreviam, os Cadernos de Circunstância, o Comunista e a Polémica, já estavam a falar quando entrei. Era uma das primeiras, senão a primeira, ocasião em que os grupos de esquerda não afectos ao PCP se reuniam. O cheiro a Gitanes empestava a atmosfera. Os homens, vestidos com roupas sombrias, tinham bigode, barba e cabelos compridos.À frente, por trás de uma mesa, sentavam-se os oradores. Havia esquerdistas excitados, como Manuel Villaverde Cabral, socialistas moderados, como Ramos da Costa, e uma feminista exaltada, a Maria Belo, que eu conhecia vagamente do colégio. Foi ela quem salvou a noite, ao interrogar uma assistência dominada por homens: ‘Mas não foi para fodermos em paz que viemos para Paris?’” (p.179)
Eu sempre desconfiei que não era apenas
para fugir à tropa que os filhos das “famílias salazaristas” imitavam o sr.
Afonso Costa nos seus exílios. E não foi uma surpresa ter ficado a saber pela
boca de uma senhora como então se salvavam as noites em Paris.
Em Abril de 1974, todos eles se
apressariam a render os pais no poder:
“Foi com o Vasco que assisti à chegada
do Mário Soares à estação de Santa Apolónia, que vi o Álvaro Cunhal em cima de
um chaimite, e que fui ao comício do 1º de Maio de 1974. Diante de um estádio
cheio, o povo de Lisboa aplaudia a Revolução. No dia 2 de Maio, a primeira
página do Times trazia uma fotografia de um BMW descapotável, rolando na Av. da
Liberdade com cinco jovens, rapazes e raparigas, acenando, eufóricos, a quem
passava. O título era o seguinte: ‘Lisbon has a May to remember.’” (p. 186) Como todos sabemos, já era o segundo Maio para recordar...
Em Janeiro do ano de 2021 o povo agoniza no inferno de uma pandemia e os ministérios são herdados de pai para filha à boa maneira dos morgadios. Um homem novo que sai de umas eleições presidências com 11% dos votos fala de uma quarta república.
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* - Maria Filomena Mónica, O meu país – notas sobre nacionalismo, Relógio d’Água, 2020
**- Afonso Costa terá sido o primeiro “intelectual de esquerda” a invocar o marxismo ao declarar que “devem ser todos pela luta de classes, no sentido marxista da palavra”
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