terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

“Por último, há todo o problema da minha identidade e, mais do que isso, da minha dignidade humana. Não me importei quando soube que descendia de formas inferiores de vida. Imaginava uma família arborescente de sub-homens carrancudos, silenciosos, peludos, e nunca os reneguei como antepassados. Pelo contrário: sendo galês, a ideia até me agrada, uma vez que ascendi claramente acima deles no meu momento da evolução. É um grande motivo de satisfação contribuir para ao aperfeiçoamento da espécie.

Mas uma coisa destas é que não. Nunca me passou pela cabeça descender de células isoladas e sem núcleo. Talvez até a isso me conseguisse habituar, se as coisas ficassem por aí, mas ainda há a humilhação suplementar de na realidade nem sequer ter descendido, na verdadeira acepção do termo descender. Limitei-me a trazê-las comigo, ou quem sabe se não terão sido elas a trazer-me.”

 Lewis Thomas, As vidas das células – Apontamentos de um observador dos factos biológicos, Relógio d’água, 1993, pág. 87 

Sem comentários:

Enviar um comentário