“Os primeiros indícios do culto de personalidade de Putin surgiram logo em 2001, um ano depois de ter sido eleito presidente. Havia ornamentos invulgares, e tratava-se de um culto de personalidade invulgar. As pessoas começaram a pendurar o retrato de Putin nos seus gabinetes sem que ninguém lhes dissesse que o fizessem. Fotografias, estatuetas, toda uma parafernália era vendida nos corredores do metro, não por ser obrigatório, mas porque havia mercado para tais objetos. No final do ano, uma edição limitada de um calendário de parede intitulado ‘Os doze humores de Putin tornou-se tão procurada que um dos dois artistas, Dmitry Vrubel, recebia chamadas de pessoas a pedir-lhe um exemplar.
Parecia mais uma moda pop do que um culto, mas era, em todo o caso, um culto do poder – pois o seu foco era um ser humano que detinha um monopólio do uso da força. O mãos invulgar nessas manifestações era o facto de se centrarem num líder que não demonstrava o tipo de carisma ou de características autoritárias habituais num culto do poder – à exceção do culto em torno de um monarca que governasse por direito divino. O mais importante é que este culto de personalidade diferia dos que rodeavam os lideres soviéticos Lenine, Estaline, e Brejnev em dois aspetos: por um lado, ocorria numa cultura mediática que, ainda que limitada, criticava vigorosamente o líder; por outro lado, se as demonstrações de afeto eram certamente encorajadas de cima, a maioria delas vinha debaixo.
Com efeito, o artefacto mais notório do culto de Putin pretendia ser uma piada, até chegar às ondas de rádio em 2002:
‘Um homem como Putin, cheio de força
Um homem como Putin, que não bebe
Um homem como Putin, que não me magoa
Um homem como Putin, que não foge!
Vi-o ontem à noite nas notícias.
Estava a dizer-nos que o mundo chegou a uma encruzilhada.
É fácil estar com alguém assim
E agora quero um homem como Putin.’
…
Como me explicou anos mais tarde, Yelin compôs a canção para troçar do comportamento típico de um culto que via à sua volta, mas quando chegou à rádio, a canção começou a alimentar o próprio culto, quase se tornando um hino.
…
´Putin - é único, é ideal! Antigamente havia um czar, e agora há Putin, para mim, ele é como Deus. Para mim é como o meu pai’, disse efusivamente Vika Matorina, de 17 anos, uma das ‘novas fetichistas’, em junho de 2007 – com cobertura ávida da imprensa oposicionista.
…
Surlov e Yakemenko pareciam estar a tocar num poderoso mito pré-revolucionário da Rússia como noiva, à semelhança de Israel, e do monarca como noivo sagrado.”
Anna Arutunyan, A Mística de Putin,Quetzal, 2014, pp. 254-64
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