Um dos nossos primeiros colaboradores foi Ray Honeyford, o diretor de Bradford que defendeu uma política de integração nas nossas escolas como a única forma de evitar conflitos étnicos. Ray Honeyford foi rotulado de racista, horrivelmente ridicularizado (por alguns dos meus colegas académicos na Universidade de Bradford, entre outros) e, por fim, despedido, por dizer o que toda a gente agora admite ser verdade. As minhas tentativas de o defender valeram amplas calúnias contra mim e contra a Review. Outros colaboradores foram perseguidos (e às vezes também demitidos) por acorrerem em defesa de Ray. Esse episódio foi o nosso primeiro grande triunfo e gerou as 600 assinaturas de que precisávamos.
O triunfo seguinte chegou em 1985, quando, no congresso anual da Associação Britânica para o Progresso da Ciência, a Review foi submetida pelos sociólogos a um julgamento de fachada, e considerada culpada da dupla acusação de «racismo científico» e incompetência intelectual. Depois disso, a Review e os seus redatores foram condenados ao ostracismo no mundo académico. As consequências para a minha carreira tornaram-se evidentes em pouco tempo. Convidado a apresentar um artigo na Sociedade de Filosofia da Universidade de Glasgow, descobri, ao chegar, que o departamento de filosofia estava a organizar um boicote oficial à minha conferência, facto que anunciara aos quatro ventos. Andei a vaguear pela universidade, assisti a uma procissão desconexa de apparatchiks que conferiam um título honorário a Robert Mugabe, e acabei por ser resgatado por um colega dissidente, Flint Schier, que chegara a acordo para que a conferência se mantivesse como um seminário não-oficial-. Eu estava habituado a coisas dessas na Checoslováquia e, com o tempo, também me habituei a elas na Inglaterra. Porém, de uma maneira geral, a polícia secreta comunista tratava bastante melhor as pessoas do que as comitivas de acolhimento organizadas pelo Partido Socialista dos Trabalhadores ('): uns safanões sem importância e talvez uma noite na prisão, mas mitigada pela discussão intelectual de um nível muito mais elevado do que se poderia conseguir nas nossas universidades provincianas. Após uma experiência particularmente assustadora a dar uma conferência sobre tolerância na Universidade de York, e na sequência de uma calúnia no Observer que tornou insustentável a minha posição como professor universitário, decidi abandonar a carreira académica na Grã-Bretanha. O Observer, na sua amabilidade, embora cumprindo as ordens de um tribunal, pagou a minha reforma antecipada.
A Checoslováquia foi a ocasião de outro triunfo. Para meu espanto, uma edição samizdat(2) da Salisbury Review começou a ser publicada em Praga em 1986. Por essa altura, eu já tinha sido expulso da Checoslováquia e era regularmente seguido na Polónia. As coisas não estavam muito melhores na Grã-Bretanha, onde a Review bem podia ser uma publicação samizdat, tão grande era o veneno dirigido aos que nela escreviam. Portanto, a notícia de que a Review havia alcançado, sob o socialismo real», uma honra concedida, que eu saiba, a mais nenhuma publicação ocidental foi especialmente gratificante. Chegaram-nos exemplares de contrabando, e as suas páginas finíssimas as cópias finais a papel químico tiradas de maços de dez - possuíam a qualidade espiritual de manuscritos com iluminura. Eles eram o testemunho de uma crença na palavra escrita que fora experimentada e comprovada por meio de trabalho altruísta.
Em 1987, o Museu da Polícia de Praga- um instituto de propaganda para o qual os professores levavam as suas filas silenciosas de 'jovens pioneiros'--inaugurou uma exposição consagrada ao 'agente secreto não-oficial'. A peça central era a maqueta de um homem vestido à ocidental, jovem, com uma máquina fotográfica de espionagem e binóculos. Da sua pasta aberta transbordavam - juntamente com Platão e Aristóteles - cópias da Salisbury Review. Algum tempo depois, um dos nossos colaboradores regulares, Ján Čarnogurský, foi preso na Eslováquia e acusado de subversão do Estado em conluio com potên cias estrangeiras. A acusação mencionou a Salisbury Review como prova decisiva. Tal foi, suponho, o nosso maior triunfo: a primeira vez que alguém com influência nos conferia o estatuto de iguais. Infelizmente, porém, o julgamento nunca aconteceu, com os comunistas fora do poder e Ján a caminho de se tornar primeiro-ministro da Eslováquia.
Não eram apenas as matérias da raça e da identidade nacional que haviam irritado a elite intelectual britânica. A Salisbury Review era aguerridamente e, a meu ver, inteligentemente anticomunista: tomou posição contra a Campanha para o Desarmamento Nuclear e o Movimento pela Paz; chamou a atenção para a situação dos cristãos no Norte de África e no Médio Oriente; trazia artigos denunciando a ajuda externa; era explicitamente crítica do feminismo, modernismo, pós-modernismo e desconstrução. Acima de tudo, era anti-igualitária, defendendo a realização contra a mediocridade e a virtude contra o vício. Embora todas essas posições sejam agora amplamente aceites, tivemos a sorte de as exprimir numa altura em que cada uma delas era ativamente censurada por algum grupo de hipócritas anti qualquer coisa. Por isso, sobrevivemos. Um a um, os conservadores foram-se revelando e juntando a nós, reconhecendo que valia a pena sacrificar as possibilidades de chegar a membro da Academia Britânica, vice-reitor ou professor emérito, pelo puro alívio de dizer a verdade. E embora os esforços para obter financiamento tenham sido quase inteiramente vãos, o trabalho dedicado do nosso editor-chefe, Merrie Cave, cuja casa se tornou uma editora de samizdat, garantiu que nunca contraíssemos dívidas..
Com colaboradores que iam de Peter Bauer e A. L. Rowse a Václav Havel e P. D. James, podíamos rebater a acusação de incompetência intelectual. Sem reclamar muito crédito por isso, continuo convencido de que a Salisbury Review ajudou a que emergisse uma nova geração de intelectuais conservadores. Finalmente era possível ser-se um conserva dor e também à esquerda de algo, dizer: É claro que a Salisbury Review é inaceitável; mas... E, para minha surpresa e alívio, um desses intelectuais conservadores, o historiador A. D. Harvey, mostrou-se capaz e disposto a assumir o cargo de editor. Há dois anos, consegui por fim reformar-me de uma posição que me custou muitos milhares de horas de trabalho não remunerado, um hediondo assassínio de carácter na revista Private Eye, très processos, dois interrogatórios, uma expulsão, a perda de uma carreira universitária na Grã-Bretanha, infindáveis críticas desdenhosas, a suspeita do Partido Conservador e, por todo o lado, o ódio de respeitáveis liberais. E valeu a pena.
(1) Socialist Workers Party, partido trotskista britânico. [N. do T.]
(2) Edições literárias clandestinas, originalmente datilografadas ou manuscritas, com circulação na União Soviética e Europa de Leste durante a Guerra Fria. [N. do T.]"
“Contra a Corrente”, Roger Scruton, edições 70, 2022, pp. 18-21
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