"O OCIDENTE EM PILOTO AUTOMÁTICO: A EUROPA E OS ESTADOS UNIDOS NÃO ENFRENTAM OS MESMOS DESAFIOS
Com a devida frontalidade, terá existido um tempo (talvez no
final da Guerra Fria) em que 12 por cento da população do mundo se poderia dar
ao luxo de impor exigências à China (20 por cento da população mundial),
enfurecer o mundo islâmico (20 por cento da população mundial), ignorar a
explosão demográfica em África (15 por cento da população mundial) e humilhar a
Rússia (a segunda maior potência nuclear do planeta). Esse tempo, porém, já
passou. O Ocidente terá de aprender a ser estrategicamente tão astuto quanto
Mao Tsé-Tung (um bom aluno de Sun Tzu). Mao saiu vitorioso de cada batalha com
o Kuomintang e com os invasores japoneses ao lutar com o principal inimigo
pondo de parte a luta com o inimigo secundário. Foi brilhante ao convidar Nixon
a visitar Pequim numa altura em que a sua preocupação fundamental era uma
possível guerra com a União Soviética.
A realidade com que o Ocidente tem de lidar é da que o
principal desafio estratégico dos Estados Unidos não é o mesmo da Europa. O dos
Estados Unidos é a China. O da Europa é o mundo islâmico à porta de casa. Os
factos são inegáveis. No entanto, todos os anos, quando os melhores estrategas
ocidentais se encontram na Conferência de Segurança de Munique, realizada no
mês de fevereiro, nenhum deles aborda a questão mais óbvia e importante: os
interesses norte-americanos e europeus começaram a divergir. A eleição de Trump
trouxe a lume esta divergência. Poderá muito bem ficar para a história como a
maior contribuição de Trump. Em Maio de 2017, a chanceler Angela Merkel
declarou: «O tempo em que podíamos contar totalmente uns com os outros acabou
em certa medida. Verifiquei isso nos últimos dias. E é por isso que só posso
dizer que nós, europeus, temos de agarrar as rédeas do nosso próprio destino.»
Quer os Estados Unidos, quer a Europa ficariam em melhor
situação se fossem estrategicamente mais astutos na defesa dos seus respetivos
interesses. Para a Europa, é claro que a principal ameaça não vem da Rússia. Ao
contrário do que aconteceu durante a Guerra Fria, não há tanques russos a
ameaçar a Europa. A Rússia é agora um desafio secundário e, por isso, a Europa
deveria reconciliar-se com Putin. Os mísseis balísticos intercontinentais da
China também não representam um risco Ao invés, o desenvolvimento económico
chinês é bom para os interesses europeus. Porquê? A principal ameaça que a
Europa enfrenta são as repercussões da instabilidade no mundo islâmico.
Enquanto o Norte de África co Médio Oriente continuarem a ter uma série de Esta
dificuldades, os migrantes continuarão a tentar entrar na Europa, pondo em
alvoroço os partidos populistas. No entanto, se ajudar o Norte de África a
replicar as histórias de sucesso em termos de desenvolvimento económico da
Malásia (referida anteriormente) e da Indonésia, a Europa conseguirá construir
um bastião estratégico contra os incomportáveis fluxos migratórios. Em suma, é
do interesse estratégico da Europa importar as histórias de sucesso económico
do Leste Asiático para o Norte de África. E assim, no sentido de desenvolver
esta região, deverá trabalhar em conjunto com a China e não contra ela.
Incentivar o desenvolvimento económico do Norte de África
não é um sonho vão. Há trinta anos, os rendimentos per capita da Argélia e da
Tunísia eram superiores aos da Malásia e da Indonésia embora este dois últimos
países tenham crescido mais rapidamente nas últimas três décadas. Aquilo que a
Indonésia e a Malásia alcançaram hoje, a Argélia e Tunísia poderão alcançar
amanhã. Os jovens argelinos e tunisinos poderiam ser enviados para estudar no
Leste Asiático. E os europeus deveriam encarar com um desesperado sentido de
urgência a resolução do problema do Norte de África, na medida em que, a seguir
a ele, virá uma explosão demográfica ainda maior. A população africana será tão
numerosa quanto a da Asia em 2100, Nessa altura, viverão 4,5 mil milhões de
pessoas em África. Como conseguirá lidar com esta explosão demo gráfica uma
população envelhecida de 450 milhões de europeus? A Europa terá de se tornar
astuta e de se focar no seu próprio desafio existencial.
Os europeus também necessitam de uma liderança melhor. Trump
e os seus conselheiros têm razão quando defendem que a Europa tem andado à
boleia dos Esta dos Unidos para não pagar a sua quota-parte na NATO. que eles
não acrescentam é que os norte-americanos têm tirado proveito da passividade
estratégica europeia para exercerem controlo sobre os países deste continente
levando-os a apoiar várias iniciativas dos Estados Unidos que são contrárias
aos interesses a longo prazo da Europa. A geopolítica tem que ver, em última
análise, com geografia. E os Estados Unidos destabilizaram a vizinhança
geográfica da Europa.
Os europeus não têm sido suficientemente perspicazes para
protegerem os seus próprios interesses estratégicos no Médio Oriente e na
Rússia. Ao contrário da Europa, os Estados Unidos poderão virar as costas às
desastrosas consequências da destabilização na Ucrânia. Os europeus estavam
tecnicamente certos quando defenderam que os russos tinham violado a lei
internacional na Ucrânia. Contudo, tal como o embaixador Hardeep Singh Puri da
Índia mundo - a maior democracia do - afirmou: «Poder-se-ia argumentar que,
face à impunidade com que a lei internacional e a soberania nacional têm sido
violadas um pouco por toda a parte, o passo da Rússia foi apenas um - contra o
qual o Ocidente agora mais protesta - numa longa lista que inclui, entre
outros, o Iraque, o Kosovo, a Líbia, a Síria e o lémen.»
A maioria dos países do mundo está perplexa com a
insistência dos Estados Unidos em humilhar a Rússia. E está ainda mais perplexa
com a cumplicidade da Europa. Numa fase inicial, Trump e a sua equipa mostraram
bom senso ao não antagonizarem Putin, embora poucos líderes europeus tenham
manifestado apoio a esta conduta, confirmando assim, mais uma vez, a falta de
astúcia estratégica da Europa. O senador John McCain não deixa de estar certo
quando se insurge contra a relatada interferência russa nas eleições norte
-americanas. A lógica ocidental ensina-nos que os protestos de McCain implicam uma
regra moral universal: nenhum país deve interferir nas eleições de outro país.
Concordaria McCain, porém, com uma regra idêntica que impedisse os
norte-americanos de interferirem nas eleições de outros países? E, se os
Estados Unidos apresentassem uma duplicidade de critérios neste tipo de
comportamento, seriam censurados pela Europa?
Os Estados Unidos ficam a um oceano de distância. Podem e
devem afastar-se dos seus múltiplos compromissos no mundo islâmico para se
centrarem no seu principal desafio: a China. Os historiadores vindouros
perguntar-se-ão acerca das razões que levaram os Estados Unidos a inundarem a
China com brindes geopolíticos à medida que esta ia crescendo. No início deste
século, na fase mais rápida do desenvolvimento chinês, os Estados Unidos
decidiram invadir o Iraque e mergulhar num pântano. E o que motivou esta
estratégia disparatada? Uma reação emocional, em vez de racional, ao 11 de
Setembro.
O mundo islâmico é um desafio estratégico secundário para os
Estados Unidos. Por isso, deve promover a paz em vez do confronto. Com a
revolução do gás de xisto, os Estados Unidos nem sequer precisam do petróleo do
golfo Pérsico. Paradoxalmente, a força naval norte-americana no golfo protege o
fornecimento de petróleo à China, já que esta depende bastante das importações
de petróleo proveniente daquela região. Os Estados Unidos manifestaram também
uma estupidez estratégica nas relações com o Irão, deixando que as penosas
memórias da ocupação da embaixada norte -americana em Teerão, no ano de 1979 (há,
portanto, quase quatro décadas), se sobrepusessem a astutas decisões
estratégicas. O Irão nunca virá a ser uma ameaça para os Estados Unidos. Pelo
contrário, poderá reforçar as suas opções estratégicas. Neste capítulo, uma das
maiores conquistas de Obama foi o acordo nuclear com o Irão. Trump deveria aproveitar
este acordo para estabelecer boas relações diplomáticas. A melhor maneira de
transformar a sociedade iraniana é enviar milhares, ou milhões, de turistas
norte-americanos para o país. Em 2012, Christopher Thornton escreveu na revista
The Atlantic que «uma sondagem realizada em 2009 pelo instituto World Public
Opinion revelou que 51 por cento dos iranianos têm uma opinião favorável aos
norte-americanos, um número em linha com outras sondagens, significando estes
dados que os norte-americanos são amplamente mais bem vistos no Irão do que em qualquer
outro ponto do Médio Oriente». Um plano geopolítico perspicaz deveria tirar
partido dessa constatação. Em vez disso, insensatamente, Trump está a tentar boicotar
o acordo com o Irão. Em 2017, o Congresso dos Estados Unidos, numa decisão
contraproducente, impôs novas sanções ao Irão.
O grande perigo que os Estados Unidos enfrentam, se
acordarem e começarem a tomar medidas em relação à China, é o de cometerem os
mesmos erros que a União Soviética cometeu quando tentou enfrentar os Estados
Unidos. A União Soviética considerou este país um rival militar. Na verdade, os
Estados Unidos eram um rival económico, tendo sido o colapso económico da União
Soviética o verdadeiro fator que conduziu à vitória norte-americana. De modo
semelhante, a China é um rival económico, e não militar, dos Estados Unidos. O
maior erro que estes últimos poderiam cometer seria o de aumentarem os seus
destacamentos militares no Leste Asiático com o intuito de contrabalançar uma
China emergente. Quanto mais os Estados Unidos g tarem em despesas militares,
menos eficazes serão a longo prazo no modo de lidar com a muito mais forte e
maior economia chinesa. Em 2015, os Estados Unidos gastaram 3,3 por cento do
seu PIB na defesa; a China gastou apenas 1,9 por cento.
Esta tendência norte-americana para gastar mais do que os
outros países traz também consequências negativas adicionais. Parafraseando um
velho provérbio, se apenas tivermos um martelo, qualquer problema se assemelha
a um prego. Daqui se retira que o comporta mento estratégico norte-americano
tem assentado numa visão distorcida. A força bruta tem substituído a inteligência.
Por conseguinte, a astúcia estratégica raramente está presente nas respostas
norte-americanas às crises mundiais.
Em 2017, Trump viveu a sua primeira série de crises com a
Coreia do Norte. Kim Jong-un realizou testes e lançou mísseis. Os Estados
Unidos reagiram de uma maneira pavloviana, enviando uma força naval comandada
pelo porta-aviões USS Carl Vinson para as imediações da Coreia do Norte. Rex
Tillerson anunciou que a era da "paciência estratégica” tinha acabado.
Esta resposta militar resultou? O comportamento da Coreia do Norte veio a
alterar-se? Não.
Kim Jong-un sabia melhor do que ninguém que os Estados
Unidos não tinham qualquer opção militar. Um ataque à Coreia do Norte (à la
Síria) teria levado a uma barragem de artilharia contra Seul. Um milhão de pessoas
poderiam morrer e a guerra daí resultante não seria apenas entre a Coreia do
Norte e os Estados Unidos; numa reedição do que acontecera na década de 1950, a
China ter-se-ia envolvido.
Os Estados Unidos poderiam ter recorrido a outras soluções.
Há um importante facto histórico que a maio ria dos decisores políticos
norte-americanos parece desconhecer. A imunidade diplomática foi inventada há
mais de dois mil anos para possibilitar o envio de comitivas diplomáticas a capitais
inimigas sem que lhes fossem cortadas as cabeças por reis e rainhas furiosos.
Neste sentido, se a Coreia do Norte é um inimigo, a reação lógica seria a de
estabelecer relações diplomáticas com Pyongyang. Todavia, como Washington vive
envolta na nuvem do politicamente correto, é a única capital que acredita que o
estabelecimento de relações diplomáticas é um sinal de aprovação. Na realidade,
é suposto ser um sinal de falta de confiança entre nações. Inevitavelmente, os
Estados Unidos têm desperdiçado assim as suas oportunidades diplomáticas.
Recorrer a instrumentos diplomáticos implicaria, em primeiro
lugar, a criação de um alinhamento de interesses estratégicos península entre a
China e os Estados Unidos na coreana. Como é que tal poderia ser feito? O
professor Robert MacFarquhar aconselhou os Estados Unidos a garantirem
cabalmente à China que uma península coreana reunificada seria um país neutro
(como a Áustria após a Segunda Guerra Mundial). Todos os contingentes e bases
militares norte-americanos abandonariam a Coreia reunificada. Seria este passo
uma derrota estratégica para os Estados Unidos? Ou seria uma decisão astuta no
sentido de criar um país destemido e independente às portas da China? Tal como
a história e a geografia tornaram o Vietname destemido e independente da China
depois da retirada das tropas norte-americanas, o mesmo aconteceria com a
Coreia. Em suma, na resolução de desafios geopolíticos complexos, a astúcia
estratégica pode ser mais eficaz do que o poderio militar.
Lamentavelmente, esta confiança na componente militar não
está circunscrita aos políticos de direita nos Estados Unidos. Os liberais de
esquerda também sentem a necessidade de mostrar as suas credenciais bélicas.
Enquanto secretária de Estado, Hillary Clinton exemplificou-o ao defender o
bombardeamento da Síria. E até Obama se sentiu na obrigação de intensificar os
ataques no Afeganistão e no Paquistão com drones não tripulados. Curiosamente,
a única vez em que a elite intelectual liberal elogiou Donald Trump foi quando
este bombardeou a Síria após um pretenso ataque químico ordenado pelo
presidente Assad a 6 de abril de 2017. Os Estados Unidos precisam de se aplicar
numa reflexão profunda sobre o porquê de o seu comporta mento estratégico se
basear mais em bombas do que na inteligência. É irónico perceber que a China
poderá estar, em privado, satisfeita com o foco dos Estados Unidos nas soluções
militares, enquanto ela se concentra no desenvolvimento económico.
Em teoria, a China sairá vencedora da competição económica,
visto ter uma população muito maior: 1,37 mil milhões, contra os 321 milhões
dos Estados Unidos. Porém, os Estados Unidos conseguiram superar todas as
outras economias do mundo ao serem capazes de atrair os melhores e os mais
brilhantes entre os 7 mil milhões de habitantes do planeta. É por isso que
muitas das maiores universidades, escolas e empresas dos Estados Unidos são
dirigidas por cidadãos norte-americanos nascidos no estrangeiro. O visto H1B,
que permite às empresas contratarem trabalhadores estrangeiros para certas
atividades profissionais, faz parte da resposta estratégica norte-americana à
vantagem populacional chinesa. Contudo, no preciso momento em que os Esta dos
Unidos mais precisam de vistos H1B para consegui rem competir economicamente
com a China, o número de emissão destes vistos está a diminuir.
Tudo o que foi referido é o resultado da falta de uma
estratégia astuta a longo prazo. Eé isso por que a dimensão maquiavélica é tão
crucial para o Ocidente se ajustar e adaptar com sucesso à sua nova posição no
mundo."
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