“Neste contexto de dinheiro fácil, mas instituições políticas débeis, e com ainda apenas uma ou duas gerações de portugueses com níveis médios ou mais de educação, o país está a definhar e a produzir resultados económicos medíocres. Por um lado, não é possível acompanhar os desafios globais das últimas décadas sem uma economia mais aberta, com mais concorrência, e uma aposta no setor produtivo, não apenas na exploração de recursos e redistribuição. Mas fazer isso implicaria reformas de fundo, como desmantelar os protecionismos e corporativismos que se mantêm, por exemplo, nas ordens profissionais. No entanto, a competição partidária em ambiente de captura mediática recusa sequer considerar reformas, que grande parte da população não apoia ou entende, e que incomodam os poderes e grupos de pressão instala- dos. A competição política faz-se pelas promessas, como mais emprego público, mais dinheiro para os reformados, subidas do salário mínimo, e mais ofertas de bens do Estado Social «grátis» (mesmo quando são, na prática, ilusórias). Os partidos recompensam e alimentam as suas clientelas partidárias através da colonização da administração pública, fazendo nomeações em que critérios técnicos ou de mérito estão ausentes. Tudo isto se opera em detrimento da capacidade produtiva da economia, exige aumentos da carga fiscal, o que por sua vez agrava a dificuldade da economia funcionar de forma eficaz. É um ciclo vicioso. Os partidos do poder adotaram por facilitismo a crença no efeito mágico do Estado-providência, mesmo quando este não funciona.Os partidos e os políticos que os representam concorrem nas promessas mas quase não concorrem nas políticas. De resto, não há um debate sério sobre políticas públicas ou reformas estruturais em Portugal pelo menos desde a última intervenção externa em 2011 e nos anos seguintes. Neste contexto, o impasse apenas pode continuar. As reformas vão sendo adiadas até se tornarem outra vez inevitáveis.
As dezenas de milhares de milhões de euros de fundos comunitários que Portugal recebeu desde a adesão em 1986 viciaram o país no dinheiro europeu. Como é evidente, o contexto de hoje é muito diferente do que existia há três séculos e os mecanismos precisos através dos quais, como argumentei, os fundos europeus prejudicam hoje a economia são diferentes daqueles através dos quais o ouro do Brasil operou no século XVIII. Mas, genericamente, o fator fundamental é o mesmo: ou seja, dinheiro vindo de fora, com poucas ou nenhumas contrapartidas. Fluxos de dinheiro que entram no país desta forma não são saudáveis para a economia, como também não são para as instituições políticas. Há três séculos, o ouro do Brasil não desenvolveu o país - muito pelo contrário. Os fundos europeus não se têm revelado, hoje, diferentes.”
Nuno Palma em
"As Causas do Atraso Português", D. Quixote, 2024, pp.267-68”
Sem comentários:
Enviar um comentário