quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

afonso costa: a maior besta da república não para quieto com os pés

“Os ódios aumentam. Os republicanos torturam os presos. Mas que fariam os monárquicos se vencessem? A monarquia, nesta altura, seria de fugir... E a república? A república - diz Junqueiro - não se atura nem se pode aturar!

Foram os do governo provisório que lhe imprimiram o feitio intolerante e jacobino - foram o Afonso Costa, o Bernardino, o Camacho e o António José. Foi principalmente o Afonso que lhe colou a máscara que ela nunca mais pôde arrancar. Fê-la à sua imagem e semelhança: materialista e orgíaca, acolhendo de braços abertos a pior escória dos partidos monárquicos - os que não tinham convicções e queriam continuar no gozo dos seus interesses.

É o tipo do bicho de escritório que julga tudo segundo a papelada e mete a vida viva dentro de articulados. Advogado cábula, foi para o governo, com os seus amigos, depois duma orgia à luz da manhã e com a gola do casaco levantada. Ora o país não é apenas sério: é trombudo. Remexeu nas cousas e nos homens, resolvendo dar cabo do cristianismo no Palácio de Cristal no Porto - daquele Porto de granito espesso – em duas ou três gerações. Resultado: quem reformou os padres foi ele – não foram os arcebispos. Quando acabou de pegar fogo ao pais fez-se de largo a vê-lo arder... Chegou, assim, a ser um símbolo - o tipo das gerações de Coimbra, que criaram, com o código e frases, uma alma ao lado da vida. Tudo o que fez cheira ao saguão onde o fez - às conversas do empregado da Boa Hora, do jornalista azedo e do Alexandre Braga, que fez da existência uma orgia - com esplendidos discursos...

Mas reconheço que foi o único homem de Estado da república e o sonho dos jacobinos de que resolveu, como ele soube interpretar, Lisboa e do Porto. Só lhe faltou seriedade e grandeza. Fez tudo a rir. Eu tenho sempre medo dos homens que não querem Deus, para ficarem mais à vontade no mundo: desatam então aos pulos como bestas. É certo que tenho conhecido alguns seres extraordinários sem Deus nem religião. Mas esses tipos excepcionais têm Deus lá dentro, quer queiram, quer não queiram, e às vezes mais luminoso do que os que andam sempre a falar n'Ele, como se Deus fosse uma cousa de trazer por casa.

Dizem que é um homem inteligente. A sua inteligência, até hoje, não tem passado de esperteza. Só lhe reconheço uma superioridade incontestável: é um parlamentar e não se prende com escrúpulos. O Afonso – dizem - é um homem com quem todos se podem entender para os seus negócios.

Não é só o medo que o tem afastado de Lisboa. Às repetidas instâncias dos seus amigos para regressar à política recusou sempre, recomendando uma certa moralidade (!) - o que fazia dizer a António José de Almeida: - Eu, se me chamassem para o meu país, voltava logo, ainda que fosse para ser capitão de ladrões!

Mas não é só medo que o tem afastado. - Porque não vais para Lisboa? perguntou-lhe o Montalvão, que o encontrou em Paris. Não, que lá até os rapazes de catorze anos andam com bombas nas algibeiras. - Andam, mas foi ele o culpado - foi ele que as forjou. Não é, porém, só o medo; os que fingem que o querem a governar, detestam-no. Armam-lhe logo dificuldades. Sabem perfeitamente que ele viria ocupar o primeiro lugar... A hora é dos medíocres.

Enfim, um esplendido homem de estado para a destruição. Audácia não lhe falta, quando não lhe falta, quando não encontra pela frente outro mais audacioso que ele. Então recua - no dizer pitoresco do Malva do Vale. No julgamento de Júlio de Campos, em Guimarães, quis enfrentar-se com o papudo e irónico cónego José Maria Gomes, que tinha fama de piadista e parecia um padre do tempo do Bocage. Ele era advogado, o outro testemunha. E o Afonso Costa a certa altura do interrogatório espicaçou-o.

- Aí está o senhor a meter uma no cravo outra na ferradura...

Resposta imediata, com um sorriso ainda por cima:
- É que o senhor doutor não está com o pé quieto!... “
 

Raul Brandão, "Memórias", Relógio d'Água, 2018, pp. 367-69

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