sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

"cuidar do nosso jardim"

“Fala-se hoje dum Munhoz, oficial do exército, tipo acabado de lisboeta - café, conversa e paródia, cheio de graça popular e literária. Já reformado, vai aos domingos aos touros para a Outra Banda, com um cabaz no braço e um xale-manta às costas... Esteve amigado com uma mulher já fanée, mas ainda com linha e um nariz imperial, que aí andou por Lisboa e se fazia passar como aparentada com as mais ilustres famílias de Espanha. A mulher não tinha dinheiro, mas alguém presenteara-a, quando a deixou, com uma rica mobília. E Munhoz e ela iam vivendo dos trastes, hoje um tremó vendido, amanhã uma cómoda, depois um sofá...

-E que tal. Munhoz?

-Vai-se vivendo, filho. Vamos vendendo os trastes, Olha, menino, hoje almoçámos nós um bidé - e por sinal que não estava nada mau!...

Lá no alto, no friorento Paço da Ajuda, entre gente caduca e algumas damas do passado, a rainha Maria Pia passa os dias e as noites, como uma figura de tragédia, a regar as flores dum tapete. Mataram-lhe o irmão, o filho e o neto. Pior: envelheceu. Se pára de regar, conta -um... dois... três... - A quem se refere? Ao irmão, ao rei, ao príncipe, todos assassinados? Senta-se à mesa e diz a figuras imaginárias ou aos fantasmas que se sentam ao seu lado: - Come, Luís. Não queres deste prato, Carlos? - E lá torna a regar um dia, outro dia, sempre, as flores que não reverdecem do mesmo tapete do seu quarto... E esta mulher elegante, que despertou paixões e inspirou poetas, parece uma velha actriz, sem contrato, e cheia de rugas, fora do seu meio e da sua época. Ao vê-la passar, baixando a cabeça para aqui e para acolá, no mesmo gesto maquinal, a gente supõe que o passado saiu do sepulcro e teima em sorrir--nos, com os dentes postiços e o cabelo pintado a escorrer amarelo..."

Raul Brandão, "Memórias", Relógio d'Água, 2018, p.124

Sem comentários:

Enviar um comentário