quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

da bandeira portuguesa

"O Junqueiro quer que as cores da bandeira se mantenham, o Columbano e o Teófilo querem-na encarnada e verde. A bandeira vermelha e verde é uma bandeira de pretos diz Junqueiro.

-Tinha-se já decidido em conselho de ministros que ficasse azul e branca, mas os carbonários opuseram-se.

Corre a notícia de escândalos nas repartições. Os jornais dão a entender que há roubos e alcances. - O dinheiro para os reis - exclama João de Meneses - não corria por uma bica, mas por dezasseis!

Há, porém, alguns factos capitais que é necessário pôr em destaque: o heroísmo de Machado Santos e de alguns marinheiros; o sacrifício de dois homens dos que menos deviam à monarquia, um, de Frederico Pinheiro Chagas, levado até ao suicídio, o outro, de Paiva Couceiro, que se bateu até à última; e a atitude idealista do povo de Lisboa, defendendo os bancos e o dinheiro dos ricos, com a polícia e a Guarda completamente desarmadas.

O parecer de Guerra Junqueiro sobre a bandeira:

A bandeira nacional é a idealidade duma raça, a alma dum povo, traduzida em cor. O branco simboliza inocência, candura unânime, pureza virgem. No azul há céu e mar, imensidade, bondade infinita, alegria simples. O fundo da alma portuguesa, visto com os olhos, é azul e branco.
Desse fundo saudoso, de harmonia clara, de lirismo ingénuo, ressalta, estudai-o bem, o brasão magnânimo: em campo de heroísmo - vermelho ardente, sete castelos fortes, inexpugnáveis, cinco quinas sagradas e religiosas, e à volta, num abraço bucólico, duas vergônteas de louro e de oliveira. É o escudo marcial e rural dum povo cristão de lavradores, que semeando, orando e batalhando, organizou uma pátria. A coroa, que foi do escudo o fecho harmonioso, converteu-se há mais de dois séculos numa nódoa sinistra. Rajadas de aurora limparam-na ontem para sempre. O nobre estandarte não tem mancha. Glorifiquemos o escudo, coroemo-lo de novo com um diadema épico de estrelas: estrelas de sangue e estrelas de oiro, estrelas que cantem e que alumiem. Substitua-se apenas o borrão infame por um círculo de astros imortais.

Barca de Alva, 13 de Outubro de 1910.”



Raul Brandão, "Memórias", Relógio d'Água, 2018, pp.234-35

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