“6 DE MARÇO-1909
Foi hoje o enterro do Taborda. Aqui há tempos caiu de cama e disse a alguém a chorar: - Desta vez é certo! Sinto que vou morrer... E a vida é tão linda!
Tinha oitenta e cinco anos. Os jornais contaram dele esta coisa enternecedora: Duma vez foi recitar um monólogo a um asilo de raparigas da sua terra. O monólogo começava assim: «Boas-noites, meus senhores...” Entrou no palco e disse a frase:
Boas-noites, meus senhores...
E as meninas do asilo, que o conheciam todas, levantaram-se e responderam à uma:
-Muito boas-noites, senhor Taborda!
A morte engrandece sempre, mas acho horrível acabar na Rua dos Calafates, entre a convenção e a mentira, andar por cima, andar por baixo, coroas secas, fotografias e recordações de bastidores. Um velho tem direito a morrer entre árvores, em plena natureza. Os bichos, quando sentem aproximar-se o fim, procuram um buraco para se esconder... São mais felizes.”
Raul Brandão, "Memórias", Relógio d'Água, 2018, pp.128-129
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