quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

o relógio do sogro

"A paixão deste homem é não ter um livro de jeito. G... so escreveu três folhetos,  e por af ficou o seu talento. Espremido não deu mais. É no entanto uma figura epigramática e nítida de conversador e um   tipo curioso de boémio lisboeta. Dormiu nas escadas dos prédios, pertenceu ao grupo que o Fialho arrastava pelas ruas até antemanhã. dispersando com ele o oiro da sua esplendida fantasia. Para essa meia dúzia de boémios improvisou o grande escritor as suas melhores sátiras. Uma noite, no café. G... aludiu à sua obra, e logo do lado o Fialho acudiu: 

- A tua obra, bem sei... Vinte e cinco cartas a vinte e cinco amigos pedindo vinte e cinco tostões emprestados.

G... embezerrou. Mas passados minutos aproveitou uma pausa no diálogo para perguntar com indiferença ao Fialho, que tinha casado rico há pouco com uma mulher que gastou a vida a esperá-lo no fundo da província:

- Ó Fialho, fazes favor de me dizer que horas são... no relógio de teu sogro?"

Raul Brandão,  "Memórias", Relógio d'Água, 2018, p.22




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