quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

dedico esta perplexidade a antónio balbino caldeira

Recebi há algumas horas a biografia de José Sócrates* e pouco mais li que a justa dedicatória do seu autor, João Miguel Tavares, a José António Cerejo, "o primeiro jornalista acusado por José Sócrates".

Mas sabemos todos que não foi o único acusado. E fiquei perplexo com o facto de nas 557 páginas não ver uma única referência a António Balbino Caldeira além de uma entrada na bibliografia (p.536).

E parece-me que seria mais do que justificada. Porque também ele foi acusado. E mais do que acusado, foi perseguido, vítima de incursões policiais no seu domicilio, feitas de madrugada, importunando-o a ele e à sua família. Na mais absoluta indiferença do "país que se deixou enganar", onde muitos vivem bem com o " 25 de Abril sempre" na boca ao mesmo tempo que contemporizavam com tudo isso. Não me recordo de que esse país tenha denunciado as semelhanças com os processos pidescos de que Balbino Caldeira e a sua família foram vítimas. E mais perplexo fico por numa biografia - ou algo que pelo menos se assemelha a uma biografia -, cronologicamente organizada, nas já mencionadas 557 páginas não se faça uma única menção à rocambolesca vida "académica" do biografado, precisamente por alturas da sua entrada no governo.
Como comecei por dizer, estou agora a começar a leitura do livro. Mas não posso deixar de achar estranha desde já a ausência da menção de António Balbino Caldeira no índice onomástico.

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* João Miguel Tavares, "José Sócrates - Ascenção
1957 - 2005". D. Quixote, 2025
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( Já arranjei tempo para ler a zona cronológica em que seria expectável alguma menção ao percurso académico de José Sócrates. É sumariamente descrito na página 249 com a " [consciência do biografado] das fragilidades do seu percurso académico".
Entretanto vou dando com mais silêncios relativos aos que, antes de todos e quase sempre contra todos tiveram a coragem de resistir. Jogando muito das suas vidas, nalguns casos jogando o fim prematuro das suas carreiras profissionais, como Manuela Moura Guedes, por exemplo. Não temos o direito de esquecer as vítimas quando chega a hora de fazer as contas com a história.
E isso não é assunto para notas de rodapé.)