quinta-feira, 9 de julho de 2009

falemos então de coisas sérias

… da justiça, por exemplo.

Em toda a minha vida estive duas vezes em salas de tribunal. Da primeira, teria eu para aí dez, doze anos.

Tudo começou quando eu vinha da escola com o Sarapantão e passávamos junto das bombas da Francelina. Vínhamos distraídos a dizer baboseiras quando ele passou por nós na ganga, tão na ganga que nos virámos os dois para ver o Simca.

-Ia, c’um caralho!… - dissemos os dois ao mesmo tempo.

Foi precisamente nessa altura que o Massey-Fergusson encarnado (daqueles dos grandes) que vinha da rua dos Capristanos meteu o nariz na rua das bombas da Francelina para o homenzinho poder ver se vinha aí alguém. Ora bem: vinha alguém, sim senhor, e o Simca nem teve tempo de travar. Marrou na roda do lado esquerdo da frente do tractor, deu uma carambola por cima, voou um bom bocado, deu mais umas cambalhotas e rojou com o tejadilho pelo alcatrão até ficar parado com as rodinhas ainda a girar. Corremos que nem doidos para ficar mais em cima do acontecimento e vou eu e digo assim:

-Ia, c’um caralho!

E vai o Sarapantão e diz assim:

-Ia, c’um caralho!

Quem era, quem não era, vai-se a ver e era o Alberto, empregado de mesa no “Baú”. As rodinhas ainda a fazer tchic-tchic, tal qual como nos desenhos animados, e vai o Alberto, azamboado que nem uma enguia em pesca de petardo, e diz assim:

-Foooooooooooda-se!

Ainda tão na dúvida de causas e efeitos quanto o Alberto, foi o estado em que saíram do Simca os outros três gabirus. Um deles parece que era empregado de mesa no “Portugal” mas a verdade é que não os conhecia. Sei que não disseram nada e se puseram todos a fazer flexões ali mesmo no alcatrão. Ficámos a ver a coisa, está claro, parece que os gajos vinham da tropa e assim, mas passado um bocado fartámo-nos daquilo e fomos á cata do gajo do tractor.

Onde estava, onde não estava, fomos dar com ele dentro da loja da Singer, ainda sentado no tractor com um ar muito espantado. Ele e as rapariguitas que por ali estavam a tirar um curso de costura.

Não morreu ninguém e os prejuízos que eram muitos, ficaram-se pela mercadoria. Toda a gente a dizer que tinha sido um milagre, vejam lá, e tal, e vou eu e digo assim:

-Não foi não, eu vi tudo! Eu e aqui o Sarapantão. Foi o Simca do Alberto que está ali em baixo a fazer flexões. Foi ou não foi, Sarapantão?

E vai o Sarapantão e diz assim:

- Eu é que vi tudo! Eu e este gajo que está aqui.

E foi assim que eu e o Sarapantão fomos arrolados como testemunhas pela primeira vez nas nossas vidas.

Quando soube da coisa, o meu pai ficou um bocado lixado e disse assim:

-Nessas coisas, um tipo vê e fica calado. Percebeste?

Eu disse logo que sim, tinha percebido, mas agora já estava. Para dizer a verdade, não percebia mas também não fazia gosto em contrariar o meu pai.

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Amanhã, se me pedirem muito, falar-vos-ei da instrução do processo do Alberto e do gajo do tractor. Agora tenho de me ir deitar porque tenho que estar fresco para amanhã me foderem os cornos com a força do costume.

1 comentário:

Bloga-mos disse...

Já não leio as postas. Disfarço. Venho aqui e vou-me ali matar que não mato saudades de si e da Princesa. Estou por um fio e não é usb