quinta-feira, 9 de julho de 2009

instrução do processo

Revelaria alguma falta de sensibilidade se fizesse orelhas moucas ao desespero que se pode adivinhar nas entrelinhas das palavras deixadas pelo Cuco na caixa de comentários aí em baixo. Portanto aqui vai.

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Passaram uns tempos, que não foram largos – verdade seja dita – e recebemos em casa uma cartolinazinha que nos instava a comparecer no tribunal para prestar declarações. Lembro-me até de ter pedido o postal do Sarapantão para ver se os tipos também tinham escrito “Exmo. Senhor”. Tinham. Logo ali, fiquei de pé atrás. Quem se dispunha a tratar o Sarapantão por “Exmo. Senhor” estava a pedir que não o levassem a sério. Mas enfim, guardei as minhas cogitações do Sarapantão com o mesmo cuidado com que guardei o cartãozinho. Apesar de tudo, aquilo sempre era um documento oficial, uma coisa da autoridade, a prova provada de que o mundo já contava connosco para o que desse e viesse e em certas idades essas coisas são levadas a peito.

No dia aprazado lá fomos para a escola. Aquilo do tribunal era a meio da manhã, o que nos dava tempo de sobra para, como tínhamos combinado, moer o juízo dos nossos colegas que iam ter de gramar mais uma aula de Francês. Acabámos por ficar um bocadinho revoltados porque eles receberam a notícia com uma indiferença que se via perfeitamente ser fingida. Só por causa das teimas decidimos aguardar o toque para informar - em pessoa e com a solenidade possível - que a professora lá tinha que se desenrascar sem a nossa presença visto o tribunal de comarca contar com a nossa colaboração, e acima dos interesses da aula de Francês estava o serviço à nação. “Nem havia lugar a discussões numa situação destas”, acrescentei eu para a professora - que ouvia em silêncio e completamente aparvalhada - ao mesmo tempo que eu saboreava o efeito das minhas palavras nos rostos dos meus colegas.

Abalámos dali muito animados com a folga.

Chegados ao tribunal fomos recebidos por um tipo muito mal-encarado que nos perguntou:

-Qu’é q’querem daqui, pá?

Nós até nem estávamos à espera de uma recepção especial, tipo bolachinhas e assim, mas aquilo revelava uma falta de deferência um bocadinho excessiva. Como é de ver, não nos dignámos responder à criatura e limitámo-nos a exibir o postal. Estávamos ali “ao serviço da nação”, tal como eles diziam no postal, exactamente no sítio onde habitualmente se colam selos.

Bom, lá nos mandou esperar numas cadeiras manhosas, nós esperámos, esperámos, esperámos, até que a certa altura fomos acordados por um imbecil de quem já não lembro a fronha e que nos mandou esperar noutra salita manhosa onde esperámos, esperámos, esperámos, até que apareceu um tipo que tinha uma camisa aos quadradros e que devia ser o escrivão, o oficial de justiça, o juiz, ou lá o caralho que o homem era, que nós já só queríamos era ir dali embora, a nação que se foda e assim.

Diz então o homem:

-Então os meus amigos são testemunhas de um acidente, verificado a tantos, e todo o rebéubéubéu que as meninas já sabem?

E nós:

- Somos, pois!

- Então e o veículo de cor branca, modelo Simca 1000, rebéubéubéu e tal, deslocava-se a uma grande velocidade?

- Deslocava-se, pois!

- Muito depressa, nesse caso!?...

- Muito!

- Mas muito, quanto: duzentos à hora?

“ Ou mais”, respondeu o Sarapantão muito entusiasmado.

Foi nessa altura que ficámos os dois – eu e o gajo da justiça – a olhar para o ar vagamente alucinado do Sarapantão. Ambos intrigados, mas por razões diferentes.

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Ora bem, neste momento justificava-se uma breve pausa na instrução do processo do Alberto e do gajo do tractor. Isto por via da necessidade de um retrato breve, uma coisa em voo de pássaro para não chatear muito.

Coisinha que vou ter que deixar para amanhã.

As meninas dirão que esta merda não anda nem desanda, mas o que é que querem? Estas coisas levam o seu tempo.

2 comentários:

indiavelha disse...

Chocou-me a falta de deferência que os sacanas tiveram pelo meu egrégio. Eu amofinava-me logo. Nem umas bolachinhas, nem um jarrinho de Tang? Por essas e por outras é que o país não avança.

dutilleul disse...

Querida amiga: como a nossa democracia vem provando em grande abundância de exemplos, nada é demais quando se está ao serviço da nação!