sábado, 11 de julho de 2009

uma escusada dilação na instrução do processo em favor de um retrato em voo picado

Como achei certo a dada altura da interpelação do gajo da justiça, impõe-se um pequeno rabisco que dê conta do Sarapantão.

Ora quem era o Sarapantão?

O Sarapantão era um rapazinho que teria dez, doze anos, como eu, tinha uns olhos grandes, claros e pestanudos, bonitos até, e muitas sardas por cima de uma boca que estava sempre aberta.

Bom, essa coisa das sardas é apenas uma teoria que tem tantas hipóteses de ser verdadeira como falsa. Havia sempre aqueles episódios nos balneários no fim das aulas de ginástica e que obedeciam sempre à mesma rotina. O professor abria o chuveiro, atirava para lá com o Sarapantão, ele berrava que nem um vitelo, dizia que não, nem que o matassem, o professor dizia “ai não, que não tomas”, ele tentava fugir, o professor enfiava-lhe as biqueiradas do regulamento, ele berrava, lá tentava desviar-se dos bananos, lá ia amolecendo à força de enfardar, lá acabava por se molhar, enfim, uns salpicos que não resolviam nada porque ele tinha manhas que só visto. Todas as semanas era aquilo, o professor já nem se dava ao trabalho de apagar a pirisca que tinha sempre ao canto da boca.

A juntar a estas dificuldades, talvez valha a pena acrescentar que ele vinha todos os dias de bicicleta lá das faldas da serra, onde o Estado Novo o fora desencantar para o levar à escola na vila. Levar é como quem diz; quem pedalava era ele. Agora como devem imaginar um exercício daqueles queimava mais óleo que uma Casal a dois tempos, pelo que não há mesmo maneira de saber se o Sarapantão tinha sardas ou não tinha sardas e até podia ser isso que intrigava o gajo da justiça. Adiante.

Tirando essa coisa das sardas o Sarapantão era um miúdo perfeitamente normal. Podia ficar um bocadinho encorpado com o bom tempo, mas naquelas idades quem é que não fede? Odiava profundamente a escola, tudo o que queria era estar com as cabras, com as ervas e acima de tudo que o deixassem em paz, nada mais, nada menos do que aquilo que nós todos desejávamos. E afinal, mesmo já mais crescidos, quem é que não gosta de estar em paz com uma boa cabrinha? Adiante.

Havia ainda uma outra coisa que só era da iluminação dos mais finos. Para mim a lebre levantou quando o professor de ciências pediu que alguém trouxesse uma garrafinha de tinto para realizar uma experiência na aula seguinte e o Sarapantão se ofereceu para o fazer com um entusiasmo inaudito e que nos deixou a todos muito chocados. Desconfiei logo que a mágica daquilo tinha sido a palavra “tinto”.

Aviso já que não se passou nada de especial na aula seguinte, mas antes de dar conta desse nada talvez venha de feitio esgalhar as linhas gerais do cenário. A sala era um laboratório em anfiteatro, bem fodidinho para o copianço, diga-se de passagem. Em baixo, havia uma mesa grande com tampo de ardósia com toda a sorte de vidrinhos, retortas, pipetas, provetas, lamparinas, o costume. O vinho era para ser transmutado em aguardente e foi o que aconteceu. O Sarapantão, que ficava sempre o mais lá para trás possível, ocupava nesse dia a carteira da primeira fila, lá em baixo junto à bancada. E embora o professor não fosse nada mau e tivesse umas noções de teatro, não havia nada naquilo que pudesse explicar a felicidade que resplandecia no rosto do Sarapantão.

Eram 7,5 dl que ele levava todos os dias junto com a bucha num saco da TAP e isto ficou um bocadinho grande de mais para se poder explicar apenas com o entusiasmo do Sarapantão durante o inquérito. Uma dilação perfeitamente escusada, como já tive o cuidado de admitir.

É a justiça a trabalhar.

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Estou muito cansado. Mas, como amanhã é sábado, se me prometerem amar muito, muito, muito, creio que não será impossível arranjar tempo para a conclusão da instrução do processo e para as eventuais considerações finais.

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