sábado, 11 de julho de 2009

conclusão da instrução do processo e considerações finais

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Se bem me lembro, tínhamos ficado naquela parte em que o Sarapantão está a jurar que o Alberto ia a 200 “ou mais”.

Ora, enquanto o gajo da justiça devia estar a olhar para o Sarapantão e a pensar que aquele rapazinho devia ser um bocado fraco de cabeça, eu olhava para ele e pensava: “Querem ver que este sacana, enquanto eu estava aqui a passar pelas brasas, arranjou maneira de se desenfiar para o Baú que fica ali mesmo em frente e já matou o bicho?”

É verdade que estávamos fartos de estar ali mas aquela maneira de tentar apressar a conclusão do inquérito pareceu-me bastante estúpida. Por isso, contemporizei e disse assim:

- Não, tanto também não, isso nem o carro do Eusébio…

O gajo da justiça casquinou então uma risadinha e perguntou:

- 80?

O Sarapantão amarrou o burro com aquilo que lhe parecera uma deslealdade da minha parte e tive que responder sozinho:

- Não sei, só sei o que já disse: o gajo ia muito depressa.

- Talvez 60, então…

- Muito depressa mesmo!

Estas foram as minhas últimas palavras naquele dia. Não sei se assinámos alguma coisa, não sei se fomos convidados a ler, só sei que não ia ler merda nenhuma mesmo que pedissem. O que eu queria era sair dali o mais depressa possível.

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Tenho ideia que depois disto ainda fomos chamados mais uma ou duas vezes antes do julgamento mas não deve ter acontecido nada de especial além dos episódios das cadeiras desengonçadas onde arranjávamos sempre maneira de passar pelas brasas. Lembro-me que ainda voltámos à sala de Francês na ideia de anunciarmos um novo compromisso com a nação, mas a cabra já devia estar avisada e ainda eu não tinha entrado e já estava a levar com o apagador na cabeça. De maneira que desisti dessas formalidades.

Naquele tempo era assim, não havia cá merdas, havia progresso. Não é que não tivéssemos as nossas tentações, as nossas tonteiras, com certeza, mas havia sempre alguém disponível para nos enfiar com qualquer coisa pelos cornos abaixo e aquilo passava-nos logo. Não é como agora em que as coisas se arrastam, arrastam e arrastam sem solução à vista.

Tivemos um bocado de sorte porque as idas ao tribunal calhavam sempre às quartas-feiras, que era quando tínhamos Francês. E porque é que isso era uma sorte? Bom, se não sabem a resposta é porque são do sexo feminino. Eu explico.

A maioria de nós, rapazes, depois de muitas voltas à cabeça, tinha chegado à conclusão que o Francês era uma coisa terrível que os adultos tinham inventado para nos pôr à prova. Como no nosso país o turismo já era uma indústria muito importante, cheguei a colocar a hipótese de que o Estado tinha inventado aquilo para que os portugueses fossem simpáticos com os turistas. Mas não. Por essa altura a televisão já andava no ar, e pode-se dizer que começávamos a ter uma visão antropológica do mundo. Por isso já sabíamos que por todo o lado havia merdas assim, rituais concebidos para que os miúdos chegassem a ser gente. Sabíamos que em certas ilhas prendiam os putos pelos tornozelos com uma espécie de cordas e os empurravam de alturas incríveis; numa floresta qualquer do Brasil, se queriam ser alguém na vida, tinham de meter as mãos dentro de formigueiros e aguentar as ferroadas por não sei quanto tempo; nalgumas zonas de África tinham de correr descalços por cima do lombo de manadas de gado que eram só pele, ossos e cornos enormes, ou então tinham de matar um bicho qualquer com mau feitio, praticamente sem mais nada além das mãos, sem ferramentas decentes. Enfim, por todo o mundo, a pretexto disto ou daquilo, havia uma mãe de chinelo na mão a perguntar-nos quando é que nos decidíamos a ser alguém na vida. Em Portugal, o pretexto era geralmente o Francês.

Numa ocasião em que estávamos particularmente deprimidos, nas vésperas de um ponto, lembro-me até de ter animado a malta quando me lembrei de uma coisa em que ninguém tinha pensado. Disse eu assim:

- Bem vistas as coisas até temos um bocado de sorte com esta coisa do Francês. Nalguns sítios, e não são assim tão poucos, chegam a cortar um bocado da picha dos miúdos para fazerem deles uns homenzinhos!

Parecendo que não, esta ideia era muito reconfortante e ficámos todos muito mais animados. Repare-se que no caso das raparigas até ficavam engraçaditas quando ensaiavam dizer “inspiration explosive”, “voyage”, “cahier” ou então “ou vas-tu, mon chair?” Às vezes até começávamos a sentir uma coisa esquisita mas agradável que formigava na zona do baixo-ventre. Agora no caso dos rapazes aquilo não soava nada bem e quando algum deles se aplicava mais a dizê-las, pensávamos logo assim: “Sim senhor, temos rabeta!” Portanto, não havia dúvida. Aquilo era mesmo uma coisa concebida para pôr os rapazes à prova.

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Embora não prometa escusar-me a nova dilação, talvez amanhã o caso vá a julgamento.

A justiça não pára.

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