quarta-feira, 28 de setembro de 2016

p. 136 (notas de leitura)

Uma das coisas mais curiosas do livro é o ver como o poder planta as suas sementinhas para fazer “notícias” das suas conveniências. E ver como os jornalistas são inseminados ou se deixam inseminar. As páginas dedicadas a Jorge Sampaio ilustram exemplos curiosos:

“… [A]tendo a chamada. É Jorge Sampaio. Faz-me uma pergunta estranha: ‘A entrevista é só para falar da Câmara?’ Percebo que ali há gato. Digo-lhe, a tatear o terreno, que o prato forte será a CML, mas que a nossa ideia é também falar doutros temas. E então Sampaio sai-se com esta: ‘O jornalista podia fazer-me uma pergunta sobre as presidenciais…’” Sampaio haveria de dizer na entrevista “[q]ue seria muito estimulante para ele ter Cavaco como adversário nas presidenciais.”

Em 1995, para preparar um colóquio organizado pela Alta Autoridade para a Comunicação Social (!) sobre jornalismo e política promove-se… um almoço!
Manuel Villaverde Cabral e tudo, “… que pertence à comissão política da candidatura de Jorge Sampaio” terá dito qualquer coisa que “arrepia” o autor e o leva a escrever no seu diário:

“30 de Novembro de 1995
[…] Villaverde diz uma coisa extraordinária: é preciso fechar, pura e simplesmente, o Canal da RTP, porque ainda lá há ‘resquícios de cavaquismo’ que será difícil ‘extirpar’. Por outro lado, congratula-se com a demissão de Vasco Graça Moura [o diretor do canal]. Todos como ele deviam ser ‘corridos’. Confesso que fiquei um pouco assustado. Será que na comissão politica de Sampaio se pensa assim? Estamos no limiar de uma caça às bruxas generalizada? Subitamente parece termos regressado ao pó-25 de abril e à fúria vingadora de uma certa esquerda. Só que eu julgava esse período definitivamente encerrado.”

Enfim, a coisa correu bem. Eleito em 1996, em 1997 já Sampaio estava no aeroporto com o seu séquito, na eminência de visitar a sua congénere holandesa. Em evento diplomático de importância crítica para as relações externas da nação, como se poderá facilmente imaginar.
Convidado, Saraiva descreve a viagem nos seguintes termos:

“Achei graça à experiência de viajar com um presidente da República. Durante o percurso em território nacional (quer à ida, quer à vinda) o avião é acompanhado por dois caças da Força Aérea, que voam tão perto de nós que é possível ver com nitidez o rosto dos pilotos. E à chegada ao destino, em plena pista, somos recebidos à saída do avião por uma banda militar. Além disso, participa-se em banquetes, conhece-se o protocolo, contacta-se de perto com celebridades. Falei dois ou três minutos com a rainha Beatriz da Holanda.
No regresso escrevi um artigo onde dizia, entre outras coisas, que Sampaio era melhor a falar em inglês do que em português. … [T]alvez pelo facto de o inglês ser muito objetivo, direto, Sampaio era menos redondo e mais incisivo quando falava em inglês do que quando usava a sua própria língua.”

Talvez seja essa a razão porque gostava tanto de andar por fora. Talvez sentisse que era a melhor maneira de não aborrecer tanto tanta gente, mas não posso jurar nada disto.
Seja como for, embora Soares tenha fama e proveito, muito mais discreto do que este, parece que o verdadeiro campeão das milhas foi “o Jiló” - ao que me disse o meu pai, era este o nome pelo qual toda a gente o conhecia lá na barbearia.
E na minha qualidade de eleitor - que vive os seus dilemas, como qualquer pessoa -  apreciaria muito que em futuras inquirições a futuros candidatos presidenciais, os senhores jornalistas dessem prioridade à seguinte questão:
 - Tem o Sr. Doutor / Engenheiro / Almirante (riscar o que não se aplica) qualquer fobia no que se refere a viagens de avião fretadas em débito ao contribuinte? Tem medo de andar de avião?
Em caso afirmativo ficará o senhor jornalista a saber, assim como nós todos, que está perante um bom candidato em potência.
É que não tendo manifestamente nada para fazer – a historieta da “magistratura de influência” serve para dizer exatamente isso com falinhas mansas -, não tendo nada para fazer, dizia eu, o futuro presidente haverá de inventar maneiras de se aborrecer de todas as formas humanamente possíveis; nas nuvens, debaixo de água, … Enfim, o que lhe vier à cabeça acabará sempre em parcela a abater no salário dos súbditos.
Digo assim por desabafo, sem expectativas; os jornalistas, no seu infindável jargão, têm termos para crismar todas as coisas que se assemelhem ao comum bom senso – “demagogia”, “populismo”, etc., etc.
Não acham “graça”.

Preferem fazer manchetes a denunciar um “livro com revelações da vida sexual de políticos” (o DN, por exemplo):

Um dos exemplos de tais "revelações" pode ser lido na pág. 139, que passo a citar:

Na sala de embarque para a tal viagem do Jiló  ao encontro da sua congénere do Reino Holandês, o autor encontra-se com Cardoso Pires, que lhe pergunta: “’Você vem sozinho ou trás a sua mulher?’ Respondo-lhe que estou sozinho. Então, entre duas gargalhadas, diz-me: ‘O João de Deus Pinheiro, apesar de ser ministro de Cavaco, era um tipo com muita piada. E numa viagem disse-me o seguinte: ’Quando se viaja com a mulher, gasta-se mais e fode-se menos!”

Caros, jornalistas, comentadores políticos, humoristas, enfim, portuguesas e portugueses:
Isto não é um exemplo de “vida sexual” de ninguém. É uma anedota. Um pouco ordinária, mas uma anedota. A ordinarice é, aliás, toda uma categoria nessa coisa das anedotas e do humor. Senhores humoristas, ao menos vocês deviam ser capazes de reconhecer uma anedota quando leem uma. No meu caso, como não sou profissional do assunto e não queria estar para aqui a dizer disparates, até fui ler Ted Cohen, que escreveu um delicioso livrinho acerca de tão sério assunto e é filósofo. Dos bons. Portanto, quando  escrevo que é uma anedota, é porque é mesmo uma anedota; confrontei a substancia da passagem citada, as circunstâncias em que é narrada, a natureza ontológica dos protagonistas, os condicionais associados, enfim, tudo, tudo.
E cheguei às seguintes conclusões:
1. No seu género, a anedota é realmente engraçada;
2. O Cardoso Pires fez muito bem em contá-la a um conhecido jornalista;
3. O conhecido jornalista fez muito bem em contá-la aos seus leitores;
4. E a mulher de Deus Pinheiro andará bem se lhe gastar o dinheiro como se não houvesse amanhã, se o foder daquela maneira que só as mulheres sabem, e se lhe oferecer um valente par de quaisquer coisas de seu gosto.

Não sei se me está a escapar alguma coisa, mas os marujos da indignação podem fazer-me chegar as suas objecções, se for o caso. Sou suficientemente competente para as estraçalhar a todas, sejam elas quais forem.

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