domingo, 25 de setembro de 2016

p. 71 (notas de leitura)

Nestas notas de leitura, convirá dizer, entretanto, que não esgalhei até agora nenhuma espécie de inconfidência malfeitora. Ando, aliás, afanosamente à procura delas por alegadamente o livro se resumir a isso; há, a propósito de Cunhal, a evocação de uma frase de que o autor se penitencia por a ter escrito em tempos – que não é uma inconfidência, mas uma frase infeliz -, e algumas passagens relativas a Margarida Marante, porventura escusadas, mas nenhuma delas será novidade para ninguém porque não são propriamente “material inédito”. Com efeito, embora não possa jurar onde ou quando o li, já nada daquilo era novidade para mim, pessoa particularmente desatenta a este género de “noticiários”. De resto, como já escrevi, na minha leitura as páginas não são acerca de Margarida Marante, mas acerca dos irmãos Rangel e, lateralmente, de Henrique Granadeiro.

Vem esta longa nota a propósito daquilo que, em meu entender, é a necessidade de não extrair juízo das partes deslaçadas do todo, coisa que mais ou menos todos vêm fazendo. A página 71 é um magnífico exemplo da patológica candura com que caracterizei o autor ainda antes de possuir o livro; nela se pode verificar que não se trata a si mesmo de maneira diferente daquela que usa para tratar os outros.


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Onde Saraiva, na eminência de atropelar umas roseiras, vai a conduzir do Estoril a Miraflores com uma valente bebedeira:


“Entretanto, o tempo vai passando, eu vou beberricando mais uns cálices de uísque, o álcool não me fazia efeito, sentia-me bem – até que, quando começam os preparativos para a saída, no preciso momento em que me levanto, sinto o álcool a subir-me à cabeça e fico instantaneamente bêbedo. Nunca me acontecera nada assim. De um momento para o outro passava do estado normal a embriagado. Caminho em direção à saída por um corredor largo com colunas de mármore, tentando manter-me direito, saio para o jardim, vou na direção do carro que está ali estacionado, aponto a chave á fechadura enquanto penso: ‘Se não conseguir acertar à primeira, já não conseguirei meter a chave na fechadura, e aí será a grande bronca.’

Mas a sorte estava do meu lado - e acerto mesmo à primeira! Meto-me no carro, faço marcha-atrás, e aí ouço o Proença de Carvalho gritar, alarmado: ‘As minhas rosas! Cuidado com as minhas rosas!
[…] Chego a casa e atiro-me para cima da cama vestido, donde já não conseguirei levantar-me .

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Numa ocasião qualquer, rabisquei uma historieta que pus aqui e em que inventei um personagem que era, em muito, inspirado em Saraiva à exceção da roupa porque o imaginei sempre de fato escuro e gravata. Por extraordinário que pareça, numa página mais à frente o Saraiva aparece vestido exatamente como o meu José Abrantes para um almoço com um banqueiro no Pabe.

Ora, li isto e embeicei-me a imaginar o que faria nas mesmas circunstâncias o meu José Abrantes, jornalista do “Expresso do Pinhal” e praticante de ioga; em casa de Daniel Proença de Carvalho e completamente bêbado.
Pois o meu José Abrantes, que nunca levou uma gota à boca, teria ido à mala do carro, teria de lá tirado uma marreta DIN de 15 quilos e cabo de fibra, e desataria a rebentar os painéis de mármore do casarão do Proença. E haveria de gritar:
“- Eu dou-te as rosas, meu cabrão! Ou contas tudo o que sabes ou rebento com esta merda toda, meu cabrão!”
E, meu Deus, nem imaginam os estragos que uma coisa destas pode fazer nas mãos de quem a saiba usar.
Mas o meu José Abrantes tem mau vinho e o Saraiva não gosta de palavrões nem de gente que os diga (p. 126, a propósito de João Soares). Portanto nada disto poderia dar certo.


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