terça-feira, 4 de outubro de 2016

p. 235 (notas de leitura)

Onde, pela segunda vez - num livro que chega quase ao fim -, se fala de gente de bem. De gente para quem a decência vem antes de tudo o resto.
Tratando “de tudo com lisura”, Miguel Portas iniciava o jornal-revista (”Já”), lugar em que juntava dois afetos; jornalismo e política. Com o seu antigo patrão (Balsemão) como pequeno acionista, convidou Saraiva, diretor do jornal para onde trabalhava, para “lhe dizer que convidava para o seu projeto uma jornalista do Expresso: ‘Só levo uma pessoa, que para sua estranheza é a Teresa Oliveira’, começou por me dizer. Estranheza porquê? Porque a Teresa Oliveira era vista como uma das pessoas mais conservadoras da redação, e era suposto o novo jornal abordar causas fraturantes…”

É na sequência da evocação deste encontro com Miguel Portas que o autor escreve uma das passagens mais diabolizadas do livro:

“Comentámos a política. Disse-me com um ar perfeitamente natural e sem me pedir segredo que o irmão nunca seria líder do CDS, explicando: ’O Paulo é homossexual e teme que, com a exposição que o cargo lhe daria, isso pudesse vir a público.’ Esta profecia mostrar-se-ia errada em toda a linha: dois anos depois deste almoço, Paulo Portas seria líder do CDS e os jornalistas nunca explorariam as suas inclinações sexuais.”

De facto, assim foi e ainda é. Tanto quanto vejo e posso testemunhar – em todos os lugares, designadamente os mais “rústicos” -, os meus concidadãos até podem ser afetados pela debilidade de fazer comentários acerca da vida íntima alheia – e a dos políticos não é exceção. Mas nunca em algum momento eleitoral ouvi alguém invocar essa vida intima como argumento político. Outro tanto poderá dizer-se acerca dos jornalistas. De onde talvez se possa concluir acerca de alguma superioridade em relação a povos com tradições democráticas mais antigas…
Seja como for, foi a propósito desta passagem que se produziram muitos dos comentários mais assanhados, desqualificando o autor como mentiroso, a pretexto de que conheciam muito bem Miguel Portas e "ele nunca poderia ter dito tal coisa porque adorava o irmão" (esta frase é literalmente citada de Daniel Oliveira)
Acerca desses imbecis não tenho nada a acrescentar ao que aqui escrevi ainda antes de ler o livro.

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