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terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

“Por último, há todo o problema da minha identidade e, mais do que isso, da minha dignidade humana. Não me importei quando soube que descendia de formas inferiores de vida. Imaginava uma família arborescente de sub-homens carrancudos, silenciosos, peludos, e nunca os reneguei como antepassados. Pelo contrário: sendo galês, a ideia até me agrada, uma vez que ascendi claramente acima deles no meu momento da evolução. É um grande motivo de satisfação contribuir para ao aperfeiçoamento da espécie.

Mas uma coisa destas é que não. Nunca me passou pela cabeça descender de células isoladas e sem núcleo. Talvez até a isso me conseguisse habituar, se as coisas ficassem por aí, mas ainda há a humilhação suplementar de na realidade nem sequer ter descendido, na verdadeira acepção do termo descender. Limitei-me a trazê-las comigo, ou quem sabe se não terão sido elas a trazer-me.”

 Lewis Thomas, As vidas das células – Apontamentos de um observador dos factos biológicos, Relógio d’água, 1993, pág. 87 

sábado, 20 de fevereiro de 2021

“ Um rapazinho dos seus cinco anos, míope e de óculos, sai da água: embora tenha o cabelo encharcado traz os óculos impecavelmente secos, o que é bem revelador; vê-se que já começou a dominar a técnica. Ao abrir caminho por entre os conversadores, dirigindo-se para junto da mãe, nesse momento ocupada a explicar a homologia entre o ADN dos cloroplastos e o das bactérias, o rapazinho abana devagar a cabeça, cheio de admiração, olhando para uma coisa castanha gelatinosa que traz na mão e dizendo: ‘Esta água é muito interessante.’ Em Stony Beach até os rapazinhos consideram que a água é acima de tudo interessante.”

 Lewis Thomas, As vidas das células – Apontamentos de um observador dos factos biológicos, Relógio d’água, 1993, pág.75

domingo, 7 de fevereiro de 2021

“Cada vez mais parece transparecer, de forma preocupante, que o dom da linguagem é a única feição humana que nos marca a todos geneticamente, distinguindo-nos de todas as restantes formas de vida. A linguagem é, como para outros seres, a construção de um ninho ou de uma colmeia, a actividade universal e biologicamente específica dos seres humanos. Participamos dela colectivamente, compulsiva e automaticamente. Não podemos ser humanos sem ela; isolada dela, a nossa mente morre, tão inevitavelmente como a abelha que se perde do enxame.”

Lewis Thomas, As vidas das células – Apontamentos de um observador dos factos biológicos, Relógio d’água, 1993, pág. 105

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

 “O homem que apanha um meningococo corre muito menos perigo de vida, mesmo sem quimioterapia, do que os meningococos que têm o azar de apanhar um homem.”

Lewis Thomas, As vidas das células – Apontamentos de um observador dos factos biológicos, Relógio d’água, 1993, pág. 91


sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

“Para começar, e se a tecnologia o permitir, talvez o mais seguro seja enviar música [para comunicar com inteligência extraterrestre]. Esta linguagem poderá ser a melhor que temos ao nosso dispor para explicar como somos aos outros habitantes do espaço, e com menor margem de ambiguidade. Por mim, votaria em Bach, toda a obra de Bach, transmitida para o espaço vezes e vezes sem conta. É claro que seria bazófia da nossa parte, mas desculpar-nos-ão com certeza por querermos mostrar a nossa melhor faceta no início de semelhante relação. As verdades mais duras de roer podem ficar para depois. E- justiça nos seja feita – a música daria uma imagem mais fiel daquilo que realmente somos do que uma boa parte das outras coisas que poderíamos enviar, como por exemplo a revista Time, ou uma história da ONU, ou os discursos do presidente. Poderíamos, é claro, enviar a nossa ciência, mas imaginem só os estremecimentos horrorizados do lado de cá quando daqui a duzentos anos chegassem os comentários corteses da resposta. Os temas mais actuais que temos para oferecer, hoje de interesse candente, estarão então ultrapassados, serão irrelevantes, talvez mesmo ridículos. A meu ver, deveríamos ficar-nos pela música.”

Lewis Thomas, As vidas das células – Apontamentos de um observador dos factos biológicos, Relógio d’água, 1993, pp. 56-57


quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

“Dada qualquer nova tecnologia para a transmissão de informação, parecemos votados a utilizá-la numa quantidade imensa de conversa fiada. Só a música nos salva de sermos submersos pelo absurdo”

 Lewis Thomas, As vidas das células – Apontamentos de um observador dos factos biológicos, Relógio d’água, 1993, pág. 28

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

 

“Quem, como eu, viva na permanente surpresa de verificar que somos uma espécie gregária, tenderá a manter-se atento a todos os indícios susceptíveis de provar que se trata, no conjunto, de uma característica que nos é favorável. Olhamos em redor à procura das iniciativas em que participamos colectiva e inconscientemente, das coisas que construímos como as vespas constroem o ninho, sem nos apercebermos individualmente daquilo que estamos a fazer. Nos nossos dias, tal exercício é quase deprimente. A actividade colectiva de construção que consome a maior parte da nossas energia e nos liga uns aos outros é, evidentemente a linguagem, mas a linguagem é uma estrutura tão esmagadora e de crescimento tão lento que nenhum de nós consegue ter  a sensação de participar pessoalmente no trabalho.”

 Lewis Thomas, As vidas das células – Apontamentos de um observador dos factos biológicos, Relógio d’água, 1993, pág. 70